Vida e encontros: o cinema de Wong Kar-Wai

Wong Kar-Wai

Anna Kroiss

Nascido em Xangai, o aclamado diretor Wong Kar-Wai levou para o cinema chinês uma estética ainda nunca experimentada. Mundialmente conhecido pelos filmes de ação, artes marciais e romances históricos, faltava para o universo cinematográfico da China um diretor que apresentasse para o mundo uma linguagem inovadora, e no início dos anos 90 é Kar-Wai que irá trazer tais produções.

Aos 5 anos de idade, Wong Kar-Wai muda-se junto da família para Hong Kong. Com dificuldades de comunicação nessa nova parte do país que falava o cantonês, é frequentemente levado por sua mãe às sessões de cinema, numa forma de se familiarizar com a língua e modos que eram notoriamente diferentes da sua conhecida china continental. Eis que essas sessões viriam a encantar os olhos do jovem recém-chegado e fazê-lo descobrir a sua grande paixão. Admirador dos mestres da sétima arte, como Alfred Hitchcock e Martin Scorsese (que considera seu herói), Kar-Wai aprendeu o que tinha de melhor com seus ídolos e soube usar esse aprendizado para criar um cinema novo.

Seja pelos constantes tons de laranja e vermelho das cenas ou pelas músicas latinas dos anos 60, o diretor inicia sua carreira com produções de baixo orçamento, focando absolutamente em mostrar a intimidade e a rotina de pessoas comuns em dados períodos de suas vidas, sempre enfatizando na nostalgia de histórias de amor que nunca de fato se concretizam – ele teria enfim criado a atmosfera central de seu estilo: a paixão por aquilo que não foi consumado. Desde suas primeiras produções, como Dias selvagens, até as mais consagradas e premidas como Amor à flor da pele, seus personagens estão sempre a contemplar momentos específicos do passado, apegados e enamorados pela lembrança de alguém, de um tempo, mas que por algum motivo, ou por nenhum motivo real, não teve de ser.

Olhando mais a fundo, para aqueles que já conhecem os filmes, um ponto na personalidade dos personagens centrais chama a atenção – eles não carregam em si um verdadeiro sentimento pelo outro, mas sim um apego pela própria estagnação do tempo – como se, escolhendo de fato não concretizar uma paixão que fora iniciada, ela pudesse durar por toda a vida. Há um egoísmo e um apreço pela nostalgia; os personagens, que, à primeira vista, parecem sofrer pela falta daquele amor, amam na verdade exatamente essa lacuna no tempo – eles acabam por escolher partir, escolhem não ir ao encontro no dia marcado, escolhem não dizer o que sentem, pois, uma vez feita, essa possibilidade do amor seria respondida, conclusa, e não é isso o que eles buscam – como dito por um personagem de Andrei Tarkovsky, em seu brilhante Nostalgia: “sentimentos não ditos são inesquecíveis” –; assim parecem pensar os protagonistas dos filmes de Kar-Wai que, com essa atmosfera, deixa sua marca registrada no cinema e no mundo, apresentando a complexidade de sentimentos que todos nós temos e que muitas vezes escolhemos viver, apaixonados pelo ideal de uma sensação e com o receio constante de que a possibilidade de viver aquilo de fato acarretaria na desilusão do nosso bonito sonho de amor. Assim, eles escolhem partir, sofrer a distância; contam brevemente aos amigos sobre aquela pessoa especial que ficou para trás; vão ao trabalho mais um dia, bebem, comem e fumam enquanto lembram – eis a musa dos personagens: a falta.

Toda essa fotografia tão marcante em seus filmes é abrilhantada pelo dom dos efeitos de câmera, que usa diversos recursos para deixar claro ao expectador que o tempo interno do personagem passa devagar enquanto a vida corre do lado de fora, em especial nos momentos em que os amantes estão juntos: ambos parecem sempre os únicos a estar naquele tempo presente, enquanto os efeitos mostram a vida externa em outro tom, correndo diferente do tempo dos dois – não por acaso os relógios aparecem com frequência nos filmes. Christopher Doyle, consagrado diretor de fotografia, é um dos grandes responsáveis por essa percepção nas cenas, tendo trabalhado com Wong Kar-Wai em diversos dos seus mais notáveis filmes.

Kar-Wai contou em algumas de suas entrevistas que a base para a criação de seus roteiros é na maioria das vezes memórias da sua infância ou história de seus familiares, especialmente em Dias selvagens, que relata muito de sua própria vida no começo da fase adulta. O diretor também ressalta que a moda e a ambientação dos cenários e figurinos são extremamente importantes para ele, pois são esses pontos cruciais que possibilitam apresentar ao telespectador a personalidade de cada um, não apenas em suas roupas, mas também na exposição da mobília dos quartos, nas comidas que comem e como se comportam – há, dessa maneira, uma possibilidade de aproximação maior a intimidade deles, ainda que por muitos momentos permaneçam em silêncio; para o diretor, as pausas sem diálogos dizem muito, uma vez que é possível decifrá-los pelo olhar e pelo seu modo de vida: para Kar-Wai, palavras em excesso mais distraem do que conectam. Ele está absolutamente certo. O diretor também comenta que sempre utiliza músicas (as mesmas que tocam para nós nas cenas) para colocar os atores dentro da atmosfera de sentimentos que deseja transmitir – pois, para ele, a música transcende nossos sentidos e nos conectamos com o Eu interior que não mostramos quase nunca. Por essa razão, muitas vezes os próprios personagens escutam música enquanto relembram algo, sem nada dizerem.

Wong por fim constrói um cinema em que exalta a dualidade que todos nós possuímos: as dúvidas, a saudade, o arrependimento – tudo isso somado a momentos de aceitação e de seguir em frente, ainda que tais lembranças para sempre permanecem ali. Os encontros que vivenciamos nunca serão esquecidos por nós.


Um último ponto de atenção (e nada menos importante): prepare-se para ter uma absoluta e inesperada vontade de comer macarrão após assistir aos filmes do WKW: ninguém sai ileso dessa.

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Rosmim

Crônica de mudanças.

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