Patricia Tischler
Cheguei, e daí?
Na fila do Poupatempo, só o que penso é: que merda que parei de fumar. Agora seria um momento excelente para acender um cigarro e dar uma baforada nesse homem nojento atrás de mim que fica esbarrando a mão na minha bunda “sem querer”. Deixaria o cigarro de prontidão e, no próximo ataque, eu também sem querer enterraria a brasa no seu braço branquelo.
Enfim, aqui estou eu, tentando transferir as contas do apê para o meu nome. Mas como não tenho residência no Brasil e não moro aqui há trocentos anos, até o meu RG está vencido. Eu nem sabia que RGs venciam. Mas basta tentar reativar o CPF com documento tirado na década de 90 para aprender. Burocracias à parte, pelo menos o inventário e as formalidades legais foram tranquilos. Nada como ter uma melhor amiga advogada.
Eu e a Martinha nos conhecemos lá pelos nossos vinte-e-poucos anos. Ela, estagiária da Procuradoria de Assistência Judiciária na área penal, e eu tentando me desvencilhar de uma baboseira de flagrante que colocou cinquenta gramas de cocaína no carro onde eu estava. Como se, naquela época, algum de nós tivesse grana para arcar com essa droga toda.
Não que eu não tenha dado motivo. A verdade é que estávamos todos bêbados dentro do velho Voyage do meu amigo, e os três no banco de trás tiveram a brilhante ideia de fazer uma “baleia branca” para os policiais do carro parado atrás da gente no sinal.
Mas Martinha conseguiu fazer uma ponte com outro caso que ela vira do mesmo policial corrupto, que pegava os classe-média na night e ameaçava com uma prisão em flagrante por tráfico só para arrecadar o que eles tinham na carteira. O caso foi arquivado por falta de provas e o cara saiu ileso.
Ou pelo menos ele achou que tinha se livrado da acusação. Mal sabia ele que aquela fulaninha que ele tentou prender, pois se recusou a pagar a propina, estava se formando na faculdade de jornalismo. Alguns meses depois, e apesar de ter ficha suja na polícia, o editor das páginas policiais de um jornal de grande circulação (que não convém nomear) me deu a oportunidade de ir atrás do polícia-bandido. É, acho que foi ali que me apaixonei pelo jornalismo investigativo definitivamente.
Enfim, chega a minha vez. Sento na frente do atendente do Poupatempo, um homem já com seus cinquenta-e-muitos, que pega todos os meus documentos:
“Renovação de RG?”
“Sim. E de carteira de motorista”.
Como inevitavelmente acontece nessas situações, após começar a digitar meu nome no computador, ele diminui o ritmo, olha com mais atenção para o documento na frente dele e, então, vira a cabeça para mim. E sorri.
“Esse é mesmo seu nome?”
“É o que diz o documento, não é?”
“Parece coisa inventada!”
“Nem se eu fosse um dos casos mais radicais de masoquismo”.
“Mas, pensando bem, é legal!”
“Aham”.
“É sério. Sua mãe era fã?”
“Isso. E também é dona de um senso de humor bem cruel”.
“Ei, Eric, dá um pulo aqui. Acabei de achar uma amiga sua!”
Saco, lá vem.
Um rapaz com cara de nerd sai de sua baia e, meio a contragosto, vem até nós.
“Bom dia. Em que posso ajudar?”
“Eric, olha o nome dessa moça aqui. No mínimo, a mãe dela deve ser amiga da sua!”
Ele lê o que está escrito na tela com olhar indulgente. Dá um tapinha companheiro no ombro do colega e, então, olha para mim.
“Prazer, me chamo Eric Clapton Guimarães e Souza”.
“Mãe piadista?”
“Não. Só era muito fã do cantor mesmo. Mais alguma coisa, Norberto?”
“Ah, vocês são uns sem graça. A mulher chama Vanessa de Melo Halen! Pelo-amor! Cadê o senso de humor, pessoal?”
Eric volta para sua baia, minhas informações são inseridas no sistema de armazenamento de dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. O resto do atendimento transcorre sem mais incidentes, fora uma ou outra risadinha mal contida por parte do tal Norberto. Quando saio para as ruas cinzas da Lapa, quase trombo com o Eric, que, adivinhem, estava fumando.
“Não dê trela para o Norberto não. Ele é assim mesmo”.
“Você é uma pessoa muito melhor do que eu, Eric”.
“Aceita um?”
“Você não sabe como eu queria. Mas não, obrigada. Parei”.
“Mesmo? Por quê?”
“Longa história”.
“Uma boa longa história ou uma longa história entediante?”
“Hum, vai depender do seu gosto, eu presumo”.
“Boa o suficiente para eu te convidar para uma cervejinha hoje à noite? Ou não vale nem isso?”
Paro um minuto e dou uma boa checada no rapaz. Confesso que fui pega de surpresa. Presumi que encontraria só tipos como o Norberto num lugar como o Poupatempo. Por essa eu não esperava. Ele é comprido e magrelo, fisicamente normal, nem super gato, nem feioso. Cabelo meio longo, barba de dois dias sem fazer. Jeans e camiseta preta. Parece ser uns tantos anos mais novo do que eu.
Mas há algo na maneira como se apoia na parede e dá uma última tragada no cigarro, antes de descartá-lo para longe, que, não sei, me intriga. É como se ele estivesse ali, na atividade mais mundana do mundo, mas fosse um dos poucos cientes da piada cósmica do século.
“Pode ser. Vai ter que convidar para descobrir”.
“Me dá o seu celular. Vou deixar aqui meu número. Se achar que está a fim de trocar histórias de guerra, me manda um zap”.
“Então você quer que EU te convide para uma cerveja. Certo”.
“Estava só te deixando uma saída estratégica pela esquerda, caso estivesse sem graça de dizer não na minha cara. Mas se não, me manda um oi”.
Mando.
“Você mora por aqui?”
“Augusta”.
“Centro ou bairro?”
“Centro”.
“Maravilha, conheço o lugar perfeito: bora no Janela Mágica”.
“Onde?”
“Como assim, você não conhece?”
“Não”.
“Okay. Me passa seu endereço que passo para te pegar umas oito. Tá bom?”
“Oito está bem. Não quer me encontrar no bar?”
“Melhor chegarmos juntos. Pode ser que esteja lotado e vamos ter que relocar”.
“Tá bem”.
Quando entro no Uber, passo quase todo o caminho sem conseguir pensar em nada, meio atordoada com o que acabara de acontecer. São Paulo e suas idiossincrasias. Verdade mesmo que consegui um encontro enquanto renovava meus documentos? E que dei meu endereço para um desconhecido? Tá, mas pelo menos sei onde ele trabalha, nome e sobrenome: Eric Clapton não-sei-do-quê. Já é alguma coisa.