Sobre ser uma jovem mulher num mundo intelectual

Claude Joseph Barandier, "Retrato de senhora" (sec. XIX)
Pinacoteca de São Paulo

Laura Redfern Navarro

Que o nosso mundo valoriza mulheres jovens, isso não é segredo para ninguém. As constantes propagandas de lifting, Botox, de procedimentos que prometem o rejuvenescimento pipocam a todo momento. Ser jovem é ser linda, é ser desejada. Entretanto, o arquétipo da juventude também é atrelado à ingenuidade, a ter menos experiência, e a menos bagagem acumulada ao longo dos anos.

As escritoras Julia Barandier e Júlia Gamarano, ambas nascidas no ano de 2000, trazem, em suas obras, mulheres que desejam ascender ao mundo intelectual, mas que esbarram no predatismo masculino. Embora de formas radicalmente diferentes, somos apresentados a personagens complexas: inteligentes, apaixonadas, inseguras, infantis, desejosas, à flor da pele.

Em Consigo inventar tudo (2025), Luísa é uma pesquisadora obcecada pelo pintor Claude Joseph Barandier (que, de fato, existiu e é parente distante da autora), mas que não consegue avançar academicamente. Em sua busca obstinada por um lastro, ela encontra Marco, um amigo que se coloca como seu orientador por um breve momento, dando-lhe suporte e comentando seus textos: “escrevo. Penso no Marco torcendo por mim. Escrevo e gosto do que escrevo. Estou roendo as unhas”. (p. 16). Em certo momento, porém, Marco cansa-se de Luísa, deixando-a sozinha quando ela mais precisa dele: “Marco não atende mais às minhas ligações, não responde às minhas mensagens” (p. 70).

Ao meu único desejo (2024), livro de poemas de Júlia Gamarano, nem o eu-lírico nem seus destinatários possuem nome. O que fica explícito é que se trata de uma mulher na casa dos vinte anos, intelectualizada, que busca acessar o meio acadêmico mantendo relacionamentos com homens mais velhos que pertençam a esse meio, que sejam interessantes, inteligentes, e que leiam bons livros: “você pensa em mim toda vez que lê Plath?” (p. 70). Nesse jogo, ela não se importa se a resposta deles ao seu desejo é positiva, mantendo um regime de limerência: “eu tive uma epifania / você nunca vai se livrar de mim / desvie o quanto quiser” (p. 26).

Nas duas obras, o que acontece – de forma radicalmente distinta – são mulheres novas, no pico de seus vinte anos, que tentam se estabelecer de alguma forma dentro do mundo intelectual. Ao ver que ele é dominado por homens, elas encontram, como saída, aliar-se a eles de alguma forma para que, assim, encontrem algum conforto – seja intelectual (no caso de Luísa com seu amigo Marco), seja afetivo ou sexual (no caso do eu-lírico de Ao meu único desejo).

Assim, quando Luísa perde Marco, ela perde o seu eixo; quando o eu-lírico de Júlia não tem um amor, ela não tem sobre o que escrever. E, por mais que a pesquisa e a escrita sejam atividades autônomas, quem as mantém girando são os homens.

Mulheres muito jovens, como visto, estão propícias a sofrerem uma espécie de dependência emocional (ou intelectual) por parte dos homens, que se portam como se a sua intelectualidade fosse mais lapidada ou brilhante, ancorando-as. No caso de Luísa, Marco não era um orientador qualificado, por exemplo, e, mesmo assim, ela acreditou nele.

Desse modo, tanto Consigo inventar tudo quanto Ao meu único desejo, portanto, embora radicalmente diferentes, tocam, de forma muito sensível, em uma ferida pouco falada: a inserção da mulher jovem no meio acadêmico-intelectual, ainda cercada pelo ego masculino.

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Safo 31

Tradução do fragmento 31 de Safo.

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