Laura Redfern Navarro
“Aprendendo a cortar minhas próprias garras /com os meus próprios dentes /e esconder meus caninos /ao rosnar sorrir” é uma das estrofes iniciais de Tendências caninas, novo lançamento da escritora carioca Gabriela Chrispim (Mondru, no prelo).
Centrando-se na dicotomia entre cão e lobo para refletir sobre os comportamentos humanos, Chrispim aborda a dor da domesticação, a submissão forçada e a retomada dos instintos primordiais, carnívoros e selvagens, com foco nas temáticas da lealdade e da obsessão.
Tendências caninas inicia com uma epígrafe de Joy Sullivan: “By mid-thirties, I’ve noticed something magnificent happening to other female artists: They no longer care about being palatable. They’re the ones doing the chewing”, que, em tradução ao português, seria algo como “as mulheres, ao chegarem aos trinta e poucos anos, não se importam em ser palatáveis, e sim as que mastigam”. Essa epígrafe traz a dimensão do feminino que é retratado na obra, do qual busca se desvencilhar da dependência masculina para se tornar autônomo, selvagem.
Na primeira seção do livro, “Incisivos”, é explorada a posição da mulher em relação aos seus afetos, em que se mostra comportada (o cão), mas guarda dentro de si desejos e uma visão sobre a vida muito mais feral (o lobo). Isso se vê no poema “o melhor amigo do homem”:
é o cão
mas eu sou um lobo
e um lobo ainda é um lobo
mesmo que não tenha mordido
ainda
É curioso notar como o título desse poema é subversivo. A expressão “melhor amigo do homem” refere-se ao cachorro, mas, aqui, ela se revela enquanto lobo – ou seja, trata-se de um eu-lírico que busca a sua autonomia. Isso se observa nos versos “e um lobo ainda é um lobo / mesmo que não tenha mordido / ainda”, em que a sua autoafirmação revela a necessidade de se colocar, mesmo “que não tenha mordido ainda”.
Na seção “Caninos”, ainda se trabalha o afeto, mas em uma dimensão muito mais violenta. Nesse eixo, a questão da “lealdade e obsessão” pontuada por Chrispim fica cristalizada. Os relacionamentos aqui são retratados como abusivos (incluindo agressões físicas), mas dentro de uma lógica de codependência, o que podemos ver no poema “marcas de guerra”:
quatro marcas
com três centímetros de profundidade
dos dois lados do seu quadril
você é a única coisa que eu deixei ir
Nesse sentido, o eu-lírico se vê obsessivo em torno de uma figura que, ao invés de protegê-lo, o machuca, o que é comum em relações abusivas, em que se reconhece a agressão, mas se tenta justificá-la. Há uma tentativa, no entanto, de elaboração desses sentimentos ambíguos no poema que fecha a seção, “carnívoro”:
devorar a carne tão doce quando com medo e engolir
com uma garganta rouca de tanto latir, de tanto rosnar
apenas um gosto
apenas
um pedaço de você dentro de mim para se levar na viagem de volta que você prometeu que eu nunca faria mastigar o músculo do seu coração com os dentes que prometi nunca fincar em sua pele
somos dois mentirosos
animais carnívoros comem devoram
e, ainda assim, não sou eu o predador entre nós
Na penúltima seção da obra, “Pré-molares”, o foco é dado à construção da subjetividade do eu-lírico, sem tanto enfoque à dimensão afetiva. Aqui, a dicotomia arquetípica entre cão e lobo ganha força, mostrando como os dois lados podem coexistir dentro do eu-lírico, em um movimento que mescla sofrimento e aceitação, como no poema “selvagem”:
mesmo que minhas patas sejam para a terra
prefiro a cerâmica
escorregadia e plana
fria
selvagem
entre pisos vinílicos
de acabamento fosco
que minhas garras arranham
peço perdão
A última seção, “Molares”, já estabelece a subjetividade que começa a ser construída na sessão anterior, desvelando-se em maior potência; trata-se de um eu-lírico não mais domesticável, mas que usa os seus instintos primordiais a seu favor, realizando-se com potência. Um exemplo é o poema que dá título ao livro, “tendências caninas”:
não peço perdão
pelas minhas tendências caninas
morder seus sapatos
rasgar suas roupas
arranhar sua pele
só peço perdão a mim
por ficar
e não perseguir
Desse modo, Gabriela Chrispim constrói, em Tendências caninas, um movimento de desdomesticação visceral em que a mulher é sujeito, cão e lobo, simultaneamente.