O sopro e o sismo

Caspar David Friedrich, "As fases da vida" (c. 1834)
Museu de Arte Pictórica, Leipzig (Alemanha)

Giovani Miguez

prólogo: a espera

não é dormência
toda essa ausência
que para
e, parando, desenha
toda a cara.

costume? não sei.
no lume. esperei.

é no antes do sopro,
aquele entreposto,
o hiato,
que não se nomeia,
se faz ato.

é início, eu sei.
no precipício. cheguei.

é vento

não é qualquer evento
todo esse vento
que sopra
e, soprando, macula
toda a obra.

dádiva? não sei.
na dúvida. acordei.

é no abraço do vento,
aquele momento,
o agora,
que não se calcula,
se desenrola.

é dádiva, eu sei.
se esquiva, pensei.

é solitude

não é castigo
esse abrigo
que cala
e, calando, revela
toda a fala.

vazio? não sei.
no frio. avistei.

é no centro da ausência,
aquela essência,
o sossego,
que não se amofina,
se faz aconchego.

é solitude, eu sei.
na plenitude. fiquei.

a carga

não é repouso
todo esse fosso
que pesa
e, pesando, devora
toda a reza.

descanso? não sei.
no espanto. parei.

é no mudo do grito,
aquele infinito,
o breu,
que não se suporta,
se perdeu.

é fardo, eu sei.
no retardo. cansei.

a quebra

não é ruído
todo esse estalido
que racha
e, rachando, liberta
quem se acha.

trovão? não sei.
no chão. encontrei.

é no susto do som,
aquele tom,
o grito,
que não se segura,
se faz rito.

é vida, eu sei.
na saída. cantei.

epílogo: a fresta

não é chegada
toda essa estrada
que abre
e, abrindo, desvenda
quem nos cabe.

fim? não sei.
no jardim. passei.

é na luz do rastro,
aquele mastro,
o rito,
que não se encerra,
se faz mito.

é ciclo, eu sei.
no infinito. entrei.

07.01.2026

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