Três sonetos

Van Gogh, "Menina na rua" (1882)
Coleção de L. Jäggli-Hanloser

Silvio Roberto de Oliveira

Soneto para boi dormir

Escute aqui seu boi da cara preta
me pegue essa menina em sua toca
ela tem meu destino na gaveta
e me trocou num saco de pipoca

eu vi numa visão li na gazeta
que nas noites de chuva ela me invoca
põe na vitrola a valsa da retreta
e murmura meu nome ao céu da boca

mas o meu boi morreu - aquele touro
que eu fiz vestir com o manto negro e ouro
para trazer essa menina aqui

chama o vaqueiro pra arrear meu potro
corre - maninha - e manda buscar outro
nas campinas sem fim do piauí.

Papai Noel

Papai noel traga do céu pra nós
um presente bem bobo: um poema tolo
de menino dizer comendo bolo
com guaraná e recortando a voz

papai no bolso é um vazio atroz
mamãe no coração é igual a um colo
minha cabeça vai fazendo um rolo
meu pensamento é um leão feroz

por favor não me traga por vingança
nenhum brinquedo elétrico e perverso
dos que brincam sozinhos sem criança

nem acredito que você exista
por isso mesmo é que lhe escrevo em verso
estas catorze prestações à vista.

Pietá

Bichinha de você que foi embora
seu companheiro em tanta travessura
pobrezinha de quem ficou de fora
da festa nesta rua tão escura

quem for passando pela estrada afora
tenha piedade dessa criatura
que está sentada na calçada e chora
sem ter consolo uma razão sem cura

todo mundo que chora o que é perdido
quem for humano quem for comovido
venha dizer com as lágrimas aqui:

bichinha de você que está sozinha
pobrezinha da vez que não foi minha
coitadinho de mim que lhe perdi.

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Dois poemas

“em proposição já consagrada”

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