Silvio Roberto de Oliveira
Soneto para boi dormir
Escute aqui seu boi da cara preta
me pegue essa menina em sua toca
ela tem meu destino na gaveta
e me trocou num saco de pipoca
eu vi numa visão li na gazeta
que nas noites de chuva ela me invoca
põe na vitrola a valsa da retreta
e murmura meu nome ao céu da boca
mas o meu boi morreu - aquele touro
que eu fiz vestir com o manto negro e ouro
para trazer essa menina aqui
chama o vaqueiro pra arrear meu potro
corre - maninha - e manda buscar outro
nas campinas sem fim do piauí.
Papai Noel
Papai noel traga do céu pra nós
um presente bem bobo: um poema tolo
de menino dizer comendo bolo
com guaraná e recortando a voz
papai no bolso é um vazio atroz
mamãe no coração é igual a um colo
minha cabeça vai fazendo um rolo
meu pensamento é um leão feroz
por favor não me traga por vingança
nenhum brinquedo elétrico e perverso
dos que brincam sozinhos sem criança
nem acredito que você exista
por isso mesmo é que lhe escrevo em verso
estas catorze prestações à vista.
Pietá
Bichinha de você que foi embora
seu companheiro em tanta travessura
pobrezinha de quem ficou de fora
da festa nesta rua tão escura
quem for passando pela estrada afora
tenha piedade dessa criatura
que está sentada na calçada e chora
sem ter consolo uma razão sem cura
todo mundo que chora o que é perdido
quem for humano quem for comovido
venha dizer com as lágrimas aqui:
bichinha de você que está sozinha
pobrezinha da vez que não foi minha
coitadinho de mim que lhe perdi.