A luz do cartão postal

Shen Zhou, "Nuvens sobre rio antes da chuva" (sec. XV)
Instituto de Arte de Chicago

Angela Chaves

Já é tarde, hora de luzes apagadas, e, no entanto, Dora não consegue apagar o seu quarto. Nem o seu inquieto coração, que teima em acender lembranças. Fixa o olhar no cartão-postal, espetado no quadro de cortiça, ao lado da cama: a foto mostra um lago enorme, rodeado de árvores, um mar de folhas no chão. No meio da paisagem, quase escondida pelo verde, se encontra Tétis, a deusa das águas. Ela, a única testemunha do acontecido.

Tétis é a mãe dos rios, das fontes, da vida. Água que jorra e cria. Pois a deusa grega, serena rainha do lago, assistiu mais uma vez ao espetáculo da descoberta – e foi igual a tantos outros. Diverso como só um – o de cada um.

Aquele era de Dora, só dela. E a lembrança do acontecido ficou tatuada em cortiça. Não esqueceria jamais, pois naquele lago, pela primeira vez, aprendeu que um olhar não era apenas olhar. Era sorriso.

Foi assim.

Durante uma colônia de férias, visitando o Jardim Botânico, Dora encontrou um amigo para dividir a tarde. Conheceram-se no lugar que havia de ser: o lago do cartão-postal, lago de Tétis e das vitórias-régias. Dora nunca tinha visto uma folha tão grande, roda-gigante na água. A professora aumentou o assombro, dizendo que uma flor branca nascia ao anoitecer, em cima do verde imenso.

“Diz a lenda que a flor é uma indígena que morreu apaixonada pela lua”.

Dora quis saber mais e a professora continuou:

“A menina era muito sonhadora e procurava alcançar a lua. Achava que assim ia morar no céu e virar uma estrela. Subia no mais alto das árvores, em todas as montanhas que encontrava, mas nunca conseguia seu intento. A lua, sempre distante, às vezes fazia pior: sumia do céu. E a filha da terra chorava. Um dia, a jovem indígena viu a imagem da lua refletida num rio. Não se conteve de tanta felicidade: ‘a lua desceu do céu para me encontrar’, comemorou. Sem pensar duas vezes, lançou-se nas águas do rio, que além de largo era fundo. Seu fim foi trágico. A pobre morreu afogada!”, completou a professora. “Mas os habitantes da aldeia contam que a lua, com pena da moça, transformou-a na vitória-régia, essa planta imensa, cuja flor é única e só aparece ao anoitecer. Quando o sol vai embora, a flor se abre, saudando a lua. E todos os dias, com a manhã, ela se fecha”.

“Pena que não posso ver a menina indígena… Falta tanto tempo pra noite chegar!”, suspirou Dora, encantada com a história.

O menino ao seu lado também lamentou. Como seria quando a flor desabrochasse? Queria saber. Sem resposta, o menino apontou um peixe colorido. E os dois, subitamente próximos, ficaram a procurar mais cores; o amor da indígena ao fundo. O tempo foi passando, cada vez mais rápido, e eles não perceberam quando o coração principiou a bater mais forte. Explicação para o fenômeno? Nenhuma. Ou todas. O fato é que ele ria e mostrava o que descobria. Apontava céus e terra; formigas, besouros e folhas.

Um fingia ser caçador; outro, cientista. E seguiam quase mudos. Quem precisa de palavras? Diante de um encontro, as palavras não dizem nada.

Os dois seguiram o vôo da garça. E foi aí que perceberam o recanto escondido: o reino de Tétis. Quem é essa, vestida de ferro, tão isolada aqui, neste lago cheio de amores? Dora pensou: “só pode ser uma fada, tem brilho próprio, madrinha sem par”. Quase perdida entre as folhagens, toda enfeitada de conchas, parece estar à espera de quem se aventure por seu caminho.

“Se ela pudesse me ouvir…”, começou Dora, sonhadora.

“Quem disse que não pode?”, incentivou o menino, seu par perfeito.

Dora pensou: “é mesmo, quem disse?” E, como se fosse a coisa mais natural a ser feita, não hesitou em perguntar:

“Moça, a água nunca para de sair do pote?”

A estátua, sem se espantar por ser indagada, simplesmente abriu a boca e respondeu:

“Água mágica não seca. Enfeitiça corações”.

Os olhos de Dora cruzaram com os do menino: estava surpresa, sem dúvida. Mas logo o estranhamento deu lugar à alegria. Eram cúmplices do mistério, as mais novas vítimas do feitiço do lago. Correram pelo parque, mãos dadas – a deusa viu. E tornaram-se inseparáveis, na menor tarde que já existiu.

Tétis continuou a olhar os dois, sem abandonar o seu posto de madrinha. E, quando percebeu que as portas do parque estavam prestes a se fechar, pensou rápido no que podia fazer para impedir que aquele dia luminoso terminasse sem um final à altura: teve uma ideia! Pediu à moça da aldeia, sua companheira no lago, que aparecesse mais cedo, enchendo o ar com seu perfume de amor. A flor atendeu. Diante do espetáculo, Dora bateu palmas, radiante.

“Que sorte eu tenho de estar aqui!”, disse.

Tétis aproveitou o entusiasmo e soprou coragem no menino: ele então não perdeu tempo e pediu um beijo. A menina, encantada, atendeu.

Um beijo.

“Quem sabe o que acontece no coração depois do primeiro beijo?” Nem Tétis, que sabe muito, que vê bastante, conhece a resposta. Mas desconfia. E se alguém lhe perguntasse, ela diria que o primeiro beijo é igual ao último. Se for de amor.

O tempo não respeita as indagações, nem as descobertas. Quer seguir seu curso sem distrações, passar mais rápido quando menos se quer. E assim passou.

“Cinco horas!”, gritaram os guardas do parque. Hora de ir embora. Dora e o menino se desprenderam, sem nem dizer adeus. E era de fato um adeus: moravam tão longe, numa cidade tão grande! Era o começo do fim. Podiam ter trocado telefones, cartas, e-mails, mas não. Não se deram conta de que podiam sentir falta. Acordaram.

Quando a hora chegou, foi cada um para um lado, cada um num canto, canto da cidade, cidade do mundo, mundo grande, enorme. Nunca mais.

“Nunca mais” significa saudade. Resta o cartão-postal, que Dora comprou na saída, sem maiores explicações. Ao voltar para casa, sentiu que o caminho estava mais longo, que a noite chegou mais rápido. Porém, na mochila, carregava um tesouro. Ou seria um sonho? Não tinha nada escrito no cartão. Ninguém lhe deixou mensagem, nem ela respondeu a um adeus. Vazio, o cartão. E, no entanto, parecia dizer: “nunca mais virou para sempre”.

Noites e noites depois, sozinha em seu quarto, férias acabando, Dora teve uma certeza: este ano não será igual àquele que passou. Nada será como antes, aliás, porque ela, ela mesma, estava diferente.

Desperta para sempre, Dora apagou o quarto, cerrou os olhos. Mas eles continuaram abertos. Havia uma claridade teimosa, que não a deixava dormir.

Era a luz do cartão-postal.

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