Religiosidade oitocentista no Rio de Janeiro

Jean-Baptiste Debret, "Rio de Janeiro" (c. 1820)

Pedro Henrique Miranda Fonseca

A igreja católica doutrinou e dominou a vida pública e privada na cidade. Portugal, país profundamente católico, em sua expansão marítima, levou, além da espada, a cruz. E a religião católica sempre atuou ao lado do poder estatal no projeto colonizador com o propósito de conquistar almas para o catolicismo e contribuintes para a Coroa, algo muito bem definido por Camões: “A Fé e o Império dilatando”.

Com a transmigração da sede da monarquia para o Rio de Janeiro, as manifestações religiosas, encarnadas, principalmente, nas procissões, passaram a fazer parte do calendário oficial, representando uma das poucas oportunidades que a população tinha de divertimentos e de participação social.

Os vários viajantes que por aqui passaram no século XIX deixaram registros em seus relatos dessa importante faceta da sociedade, os não católicos com um olhar mais crítico e os católicos descrevendo a cena em sua coloração local.

O culto religioso era motivo para festas e regozijos públicos. As mulheres, que tinham poucas oportunidades de aparecerem em público, aproveitavam esses festejos exibindo toda a faceirice e o luxo de traje e não deixavam escapar a ocasião para se aproximarem do sexo masculino. Muitos namoros tiveram a sua fase inicial na igreja, sob o manto protetor da religião, fazendo, entre uma prece e outra, a mais ardente declaração de amor. Debret observou que nessas festas “o amor-próprio rivalizava com a devoção” tal era o luxo dos trajes e a profusão das joias. A expressão “roupa domingueira”, que tem o sentido de roupa para ir à missa, vem desse hábito.

Um santo muito venerado no Rio era Santo Antônio, considerado pela descendência portuguesa como santo nacional, que em Lisboa recebera até patente militar, a de coronel. Pohl teve oportunidade de testemunhar uma festa dedicada a esse santo e a São João, deixando a seguinte descrição delas: “na véspera de ambas as festas o Rio ostentava festiva iluminação. Entre gritos sempre renovados e jubilosos de viva Santo Antônio ou São João, de cada casa, sobem ao ar, durante a metade da noite, incontáveis foguetes”. Essas manifestações realizadas nas ruas, praças e em frente à porta da igreja dedicada ao santo que se celebrava tinha por finalidade forçar o homenageado a tomar parte ativa nas demonstrações dos seus devotos.

Rugendas também notou o grande número de festividades religiosas e de procissões que eram realizadas na cidade, sendo elas feitas com barulhenta alegria, principalmente entre as classes mais humildes.

O casal Agassiz descreveu minuciosamente uma procissão de São Jorge que presenciou:

[…] ruas por toda a parte com ricos estofos de vivas cores estavam apinhadas de multidão compacta. Vem primeiro a parte religiosa do cortejo: uma longa fila de padres e membros de irmandades conduzindo tochas acesas, pirâmides de flores, estandartes, etc.; depois o Santíssimo Sacramento, sob o pálio de cetim branco bordado de ouro e sustentado por varas maciças; seguram essas varas os mais altos dignatários do país. […] Segue-se a cavalo, no mais estranho contraste, um manequim de tamanho natural representando São Jorge. A imagem tosca e grosseira é acompanhada por escudeiros a cavalo, quase tão grotescos e ridículos. Enfim fecha a marcha certo número de confrarias legais, análogas aos franco-mações ou aos companheiros do dever.

Ao fato de esses viajantes não serem católicos, talvez, se deva as críticas da iconografia da procissão.

As igrejas eram visitadas com frequência, notadamente aos domingos e dias santos. Segundo Pohl, o serviço divino era celebrado com grande pompa e as procissões frequentes sempre celebradas com grande alarde. Os sinos repicavam, subiam ao ar milhares de foguetes e as multidões serpenteantes formavam um espetáculo singular, dentre as quais emergiam imagens de santos em tamanho natural conduzidas em andores ornados. Para Debret, as procissões religiosas eram uma oportunidade de luxo, de divertimento público e de exibição de trajes elegantes para todas as senhoras, que aproveitavam a festa para se mostrarem nos balcões quando o cortejo passava. Observou também a vaidade das irmandades religiosas, que procuravam se distinguir, exibindo, nessas ocasiões, as riquezas dos ornatos que o pintor achou de mau gosto.

John Luccock observou que existiam, em vários pontos da cidade, nichos levantados nas paredes das casas e enfeixados dentro de portas grandes de dobrar. Eles continham imagens de Cristo, representações e estátuas de santos ou alguma das insígnias da religião. As portas se abriam apenas em ocasiões especiais, quando eram rodeadas por uma turma supersticiosa, barulhenta e indecorosa. Em muitas esquinas das ruas, achavam-se também colocadas imagens da Virgem Maria, das quais algumas em grandes redomas de vidro, que ficavam, durante o dia, envolvidas por cortinas que, ao anoitecer, eram puxadas; as pessoas colocavam algumas velas ante cada imagem, obrigando os seus escravizados a comparecerem ali e cantar ave-marias sem a menor sombra de devoção.

Rugendas também observou que as procissões e numerosas festividades religiosas celebradas com alegria ruidosa, principalmente entre as classes pobres nos bairros de Estácio, Gamboa e Santo Cristo, acompanhadas de fogos de artifícios, música e dança; era uma característica dos costumes públicos dos habitantes da cidade. Os fogos são no Brasil uma tradição portuguesa do Minho. Os de vista ou de artifício mais afamados no Rio de Janeiro de então eram os que se soltavam no adro da Igreja do Espírito Santo de Mataporcos, no atual Largo do Estácio.

Thomas Ewbank observou que a vida pública e a privada estavam impregnadas pela religião, sendo os festejos e procissões os divertimentos mais importantes da população. A rotina da cidade era alterada nos dias dessas celebrações, sempre acompanhadas por música, bandeiras, archotes, báculos, turíbulos e varas encimadas por símbolos. O viajante descreve a festa do Divino Espírito Santo, importante festejo religioso realizado quarenta dias após a Quaresma, nas igrejas da Lapa, Santa Rita e Santana. Para financiá-la, organizava-se um bando de pedintes que durante várias semanas percorriam a cidade, os subúrbios e a zona rural pedindo donativos e gritando “esmolas para o Espírito Santo!” Esse bando era acompanhado por músicas.

Verdadeiros teatros da fé, as procissões e os festejos religiosos ocorriam durante todo o ano:

6 de janeiro: dia de Reis;
20 de janeiro: São Sebastião;
procissão de Quarta-Feira de Cinzas;
Domingo de Ramos;
procissão de Nosso Senhor dos Passos;
19 de março: São José;
Lava-pés na Quinta-Feira Santa;
procissão do enterro na Sexta-Feira Santa;
Judas no sábado de Aleluia;
Domingo da Ressureição;
Pentecostes: Divino Espírito Santo;
procissão de Corpus Christi;
em junho, dia do Sagrado Coração, Santo Antônio, São João e São Pedro;
2 de julho: visitação de Nossa Senhora;
21 de julho: Anjo da Guarda do Império;
25 de julho: São Jaime;
26 de julho: Santana;
15 de agosto: Nossa Senhora da Glória;
25 de agosto: Sagradíssimo Coração de Maria;
8 de setembro: Natividade de Nossa Senhora;
15 de setembro: Santíssimo Nome de Maria;
22 de setembro: Nossa Senhora das Dores;
25 de setembro: Nossa Senhora das Mercês;
6 de outubro: Sagradíssimo Manto de Nossa Senhora, com procissão à noite;
9 de outubro: São Pedro de Alcântara, padroeiro do Império;
1º de novembro: Todos os Santos, com procissão de ossos da Misericórdia;
2 de novembro: Finados;
8 de dezembro: Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Império;
finalmente, em 25 de dezembro: Natal.

Quanto às religiões africanas, proibidas e severamente perseguidas, tiveram de encontrar subterfúgios para serem cultuadas. O mais usual era acobertar com a devoção católica as suas manifestações de fé e crença.


Fontes:

AGASSIZ, Louis & AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865-1866. Trad. de João Etienne Filho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975.

DEBRET, Jean Baptiste. Viagem histórica e pitoresca ao Brasil. Trad. de Sergio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia, 1978.

EWBANK, Thomas. A vida no Brasil ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras. Trad. de Homero de Castro Jobim. Rio de Janeiro: Conquista, 1973.

KIDDER, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanências nas províncias do sul do Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo). Trad. de Moacir N. Vasconcelos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Trad. de Milton da Silva Rodrigues. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975.

POHL, Johann Emanuel. Viagem ao interior do Brasil. Trad. de Milton e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1976.

RUGENDAS, Johann Moritz. Viagem pitoresca através do Brasil. Trad. de Sergio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989.

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