Laura Redfern Navarro
Ser, por si só, é uma categoria inclassificável que habita os espaços do real e do imaginável. Essa é a premissa principal do livro de estreia da professora Paula Nogueira, Uma fechadura ou O livro da linha do abismo (2025), cujos personagens dos doze contos que compõem a obra, apresentados vivendo situações aparentemente cotidianas, de repente revelam ao leitor um mundo interno e complexo.
O livro inicia com um “Prólogo” em forma de poema:
a linha sustenta um peso trêmulo
de um sonho escuro o corpo é êmbolo
oco cavernoso sem fim nem início
diante dos olhos o precipício
confessado o sensível medo do hospício
a linhagem à espreita condena
a menina amarrada deu pena
a mulher no bezerra desfilou sua pele morena
a âncora na linha do abismo com sua mão pequena
o coração na outra para não o perder
se apertar com força cessa o bater
sufoca a vida que faz temer
se relaxar os músculos prestes a se render
desalinha ao escuro profundo o viver
Este texto, além de denunciar o tom insólito que adotam os contos de Nogueira, também traz à tona um tema muito importante – a vulnerabilidade feminina, tanto na infância (“a menina amarrada deu pena”) quanto na adultez (“a mulher no bezerra desfilou sua pele morena”). Logo, o texto revela a diversidade das personagens femininas que habitam as suas histórias, bem como chama a atenção para a violência que as acomete.
Ao mesmo tempo, vale dizer que o “Prólogo” diz algo importantíssimo: o obscuro não é tratado como algo maligno e sim como estado de passagem. Já nos primeiros versos, o eu-lírico diz: “a linha sustenta um peso trêmulo / de um sonho escuro o corpo é êmbolo / oco cavernoso sem fim nem início”, mostrando que há um meio do caminho no qual é possível se movimentar, como um êmbolo.
No primeiro conto, “A chave na fechadura”, temos contato com Delma, uma mulher trabalhadora que decide tomar o café da manhã na padaria, diferente do rumo que toma todos os dias. Ao longo da história, porém, ela não só decide mudar seus planos em relação à alimentação, como também se hospedar em um hotel. Toda a sua rotina é alterada a pequenos passos, o que faz o leitor se perguntar o motivo de ela estar fazendo isso e torcer para dar tudo certo. Ao mesmo tempo, Nogueira também vai deixando pistas e memórias da infância de Delma, trazendo à tona o questionamento do quão real de fato é a situação apresentada.
Se o estranhamento começa em Delma, o conto “Griselda riu e dançou” é um verdadeiro desconforto surrealista. A protagonista, que dá título ao conto, entra em uma crise de riso em que começa a regredir a um estágio infantil, relembrando e incorporando memórias e imagens absolutamente desconcertantes para todos ao redor, especialmente ao seu marido. É um conto particularmente bonito de se ler, como no trecho: “quando Griselda tinha a idade das meninas, campeava paisagens largas e secas, despidas de verde, vida e água, onde os sonhos definhavam de calor”.
Embora as mulheres figurem como as principais personagens de Uma fechadura ou O livro da linha do abismo, alguns contos contam com a presença masculina como protagonista. É o caso de “Damas”, que traz um retrato brutal da irresponsabilidade paterna, em que homens, que dizem “garantir tudo”, não ajudam nas tarefas em casa e, pior, se enveredaram por bares e outras farras. Nesse conto, o estranhamento é mais sutil do que o de Delma e o de Griselda, e envolve a filha do homem que, em um acidente durante uma briga com a mulher, decide rasgar todas as cartas do seu baralho, com exceção de uma dama, e decide se afastar. Esse ato, o de manter apenas a dama, é simbólico, podendo representar tanto uma traição quanto o que restou da própria filha.
Podemos dizer que Uma fechadura ou O livro da linha do abismo é um livro que trabalha com o estranhamento com a intenção de fazer denúncias, visto que há violência nos contos; porém, creio que a ideia de Nogueira seja a imersão em universos que já existem nesses personagens.
Trata-se de um exercício que é feito prioritariamente com a imaginação, que deixa conduzir as histórias ao invés de se voltar somente ao factual. Essa obra não cria nada; ela apenas redireciona o foco do acontecimento externo para o universo interno, adquirindo características de estranhamento e de insólito. Por esse motivo, Uma fechadura ou O livro da linha do abismo é um livro coerente, verossímil e muito inovador aos nossos tempos.