Resenha de Os interiores de João Matias

Aurélio Zimermann, "Pouso no sertão" (1920)
Museu do Ipiranga (USP)

Caê Guimarães

A brincadeira com o título do filme do Francis Ford Coppola, adaptado do livro Coração das trevas, de Joseph Conrad, bem caberia em Os interiores (Patuá, 2025), do cearense João Matias. O autor nos conduz a uma vertigem cinematográfica pós-apocalíptica pelas mãos de Tieta, uma mulher que acerta contas com o seu passado e mergulha em uma espiral distópica de violência e desterro. Ecos da brutalidade seca e direta de Marçal Aquino e Quentin Tarantino salpicam cada página com a tinta vermelha do sangue, a secura da terra esturricada e a fuga, travestida em busca, que a personagem principal empreende após cometer um assassinato.

Em um nordeste imaginário, entre a memória da extinta Sertão Novo e a dura realidade de sua substituta, Nova Brasília, Tieta testemunha o flagelo do abandono, personificado em zumbis ao longo da estrada, lida com militares decadentes, milícias políticas — ambos soam familiares, não? — e uma colossal e onipresente voçoroca, fenômeno geológico provocado pela erosão dos solos em áreas com pouca vegetação, impactados por tempestades que os deixam desprotegidos. Originária da expressão tupi-guarani correspondente a “terra rasgada”, a voçoroca engole terras e casas, assoreia rios, desmorona histórias. E vem sendo sistematicamente agravada pelo desmatamento e as mudanças climáticas.

Matias escolheu a dedo e tratou com mãos precisas a metáfora de um país cingido, erodido, engolido por crateras que são muito mais do que escaras na terra. Em Os interiores, a intensidade do ritmo e a aridez do cenário oferecem uma atmosfera túrgida, fraturada, dolorida. Real, demasiadamente real. Como as voçorocas, a escavar vastos vazios dentro da gente.

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