Cesar Garcia Lima
O espelho me abraça no espaço seco do banheiro, onde caibo pela metade se me coloco junto à pia e vou crescendo em tamanho se me distancio (é uma raridade mundial um banheiro ser seco, mas isso eu consegui ter na vida). Não preciso de outros espelhos no apartamento: espelhos são perigosos por seu apetite sem limites. Eu, ao contrário, quero comer cada vez menos e só aspiro ao odor das essências. Conto os sete buracos da minha cabeça – e vou percorrendo os pelos em sentido ao chão.
Ele entra no campo da imagem sem que eu tenha me dado conta de como isso aconteceu. Parece ter o mesmo corpo de quando nos conhecemos, mais alto, mais forte do que eu, mais veias à mostra, mais tudo. Ainda fica automaticamente íntimo quando fala, uma proximidade instantânea que recua ao primeiro sinal de que vou tocá-lo, como quem seduz e depois se esquiva. São 36 anos desde que nos encontramos pela primeira vez, três voltas completas de Júpiter no zodíaco, quando as promessas de ir adiante, descobrir novos países, esticar a mão e tirar sua roupa eram apenas uma fantasia. Agora é ele que se despe sem pressa e me toca como um ímã. O sangue inunda o corpo cavernoso.
Paris nos uniu, ainda que tivéssemos visões muito diferentes da cidade. Meu fascínio latino-americano pela Torre Eiffel e pelos cafés onde envelheceram escritores e cineastas desapareceu muito depressa, sacolejando no metrô e nos trens lotados em busca de trabalho. O frio do outono penetrava devagar nas minhas narinas e o hálito quase congelado me deixava sem fôlego e sem abrigo, como uma espécie de hippie carente de atenção masculina.
Quando ele chegou, Paris estava aterrorizada pelos recentes ataques terroristas do metrô, já era verão e nosso trabalho no museu trouxe a vontade de usufruir da cidade em todo seu esplendor, mesmo que mal tivéssemos onde cair mortos.
Nós nos revezávamos em turnos de seis horas, das seis da tarde às seis da manhã. Como morávamos longe, passávamos todas as noites por lá e usávamos o mesmo sofazinho gasto para os cochilos durante o turno do outro.
Certa noite, quando meu turno acabou, eu o encontrei deitado em sono profundo, virado para o encosto do sofá, apenas de calção. Não resisti e me abaixei para aspirar seu cheiro um pouco ácido, os cabelos encaracolados e castanhos, ver de perto a pele cheia de sardas, a ponto de contar os sinais esparramados em suas costas. Ele pressentiu minha respiração próxima e acordou devagar, a tempo de que eu me levantasse em direção à mesa onde deixávamos as mochilas. Avisei que era hora dele assumir o plantão e ele se espreguiçou com vontade, bem-disposto, e perguntou se eu conhecia os sonetos de Shakespeare. Eu disse que não, o que soou como uma grande surpresa para ele, menino bem-educado em escolas caras de Munique. Ele começou a comentar os poemas, a recitá-los em voz alta em inglês, e eu disse que preferia falar a língua de Verlaine e Rimbaud. Ele entendeu que estávamos entrando num terreno novo, se levantou sem graça, vestiu a roupa e disse que estava na hora de assumir seu turno. Mas me encarou como se quisesse ter certeza do que estava acontecendo, para saber qual era a minha intenção. Pedi que ele recitasse um dos sonetos, acho que era o que começa assim: “Dos astros não retiro entendimento / embora eu tenha cá de astronomia / mas não para prever a sorte, o intento / das estações, ou fome, epidemia”.
Naquela noite, a galeria ficou um longo período sem vigia na porta da frente.
O verão durou menos tempo do que eu gostaria e o emprego também, para nós dois. Ele ainda me contou histórias de vida nas caminhadas pelo Jardin du Luxembourg, para escapar das ruas turísticas do Quartier Latin. Ele passou outros verões em Paris, a mim restou ser admitido em outros trabalhos noturnos em São Paulo, com vista para o letreiro do relógio da Paulista.
Trocamos algumas cartas e cartões-postais. Ele sempre acrescentava depois da assinatura a expressão que eu tinha dito naquele dia: “prefiro falar a língua de Verlaine e Rimbaud”. Após alguns anos, os correios começaram a devolver os cartões que eu mandava para Munique. Eu o imaginava em uma nova história, lendo os sonetos shakespearianos para algum amigo no calor do Englischer Garten, os dois sem roupa. As notícias que chegaram depois diziam que ele tomou um caminho mais convencional do que eu poderia supor, rumo a Chicago.
Hoje ele ressurgiu sem roupa no meu banheiro, esguio e belo, e parece mais simpático e disposto do que no verão parisiense. Temo que não tenha vindo para ficar.