Poemas inéditos

Pierre-Auguste Renoir, "Rosas" (1885)
Coleção particular
Maria de Fátima Cardoso
(Maria Fraterna)

Sei que me lês

Na primeira pessoa do singular (eu)
conjuguei as sílabas repetidas
da devastação do lugar
contive as palavras, as minhas e as dos outros,
Abandonando a retórica, pedi asilo mental
Para esquecer este mundo num caos,
Colori o chão para não cair na escuridão
Tentei em vão chegar ao velho portão
Nas mãos apertei um punhado de papéis
Ah então, no silêncio, eu esperei o ocaso
Para dominar o tempo do verbo partir
Repeti todas as sílabas essenciais sem desistir.
Vi a convenção dos fantasmas e a exaltação dos corvos
procurei encolher-me, não ser notada
Trancando-me nos meus dias,
e distraindo-me do pesadelo,
Desci sem medo ou temor ao âmago de mim própria
Como se tudo pudesse ser recuperado e superado
Depois dos golpes infligidos e
cada dor medrar na ironia que a vestia
Quis esquecer as leis falhadas,
o sistema decadente e a metafísica barata.
Ah então, no silêncio, sinto o novo tempo, e
sei que me lês, mas não ouves, nem vês.

Uma rosa com outro nome

Há rosas que não exprimem emoções 
Quase não existem
Entre a luz e a sombra são rosas
Com outro nome
Foram amordaçadas com linhas
repletas de cores
e deixadas cair levemente
na neve do tempo
Há rosas que têm a coroa a encravar
as pétalas
E os espinhos cansados de enganos
Há rosas tombadas no chão
Que não conseguem exprimir a desolação
E logo que morram, morrerás, com elas.

Asas

Ventos e estrelas envelhecem
uma constelação celestial
Que abraça o som áspero do mar
por entre os corais de sangue
Que guardam a cabeça de Medusa.
Não há inocência ali onde
Há asas derramadas do cavalo alado
Na doce ternura do nevoeiro
E na verde rebentação da espuma
Que aplaca a sede da eternidade.

A espuma dos dias

Que a poesia seja infinita 
e a pedra de amolar o teu amor
te proteja da maldição dos tecedores de batalhas,
Dos corvos à procura de portões resplandecentes
E dos desertos vazios
O mais é só
Para lá da quietude das águas
Onde a casa era fantasia e ficava longe
Da espuma dos dias
Hei de lá voltar vestida de metáfora
A dissipar-me nas meadas anónimas das linhas
Para te bordar em ponto de cruz
Ou então para simplesmente te falar
De um certo tempo ou de um certo lugar
onde o poema era infinito
E talvez eu nem soubesse bordar.

A lavoura da vida

Não é demagogia é a oração madura do papel humilde nos quintais do silêncio. 
Não são folhas de papel a crescer nas árvores
São os grãos pobres que se colhem
Na terra que nada fecunda.
São as sementes plantadas que vingam o pão escravo na eira da mentira
Todos sabem o que se quer dizer com isto
O que é ser embrulhado e distanciado da colheita
Ficar solitário a semear o vazio
dos últimos dias
Tentar esquecer o ruminar do gado, a lavoura pobre
O ferimento
Que não para de crescer,
Tudo é como uma planta morta, não se colhem espigas
Os galos não ajudam
a crescer na hierarquia das galinhas poedeiras
Muito menos a cacarejar o milho da gamela
E, não se faz a justiça
dos que trabalham e querem merecer o melhor grão
Fica apenas a sorte da colheita pobre.

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