Maria de Fátima Cardoso
(Maria Fraterna)
Sei que me lês
Na primeira pessoa do singular (eu)
conjuguei as sílabas repetidas
da devastação do lugar
contive as palavras, as minhas e as dos outros,
Abandonando a retórica, pedi asilo mental
Para esquecer este mundo num caos,
Colori o chão para não cair na escuridão
Tentei em vão chegar ao velho portão
Nas mãos apertei um punhado de papéis
Ah então, no silêncio, eu esperei o ocaso
Para dominar o tempo do verbo partir
Repeti todas as sílabas essenciais sem desistir.
Vi a convenção dos fantasmas e a exaltação dos corvos
procurei encolher-me, não ser notada
Trancando-me nos meus dias,
e distraindo-me do pesadelo,
Desci sem medo ou temor ao âmago de mim própria
Como se tudo pudesse ser recuperado e superado
Depois dos golpes infligidos e
cada dor medrar na ironia que a vestia
Quis esquecer as leis falhadas,
o sistema decadente e a metafísica barata.
Ah então, no silêncio, sinto o novo tempo, e
sei que me lês, mas não ouves, nem vês.
Uma rosa com outro nome
Há rosas que não exprimem emoções
Quase não existem
Entre a luz e a sombra são rosas
Com outro nome
Foram amordaçadas com linhas
repletas de cores
e deixadas cair levemente
na neve do tempo
Há rosas que têm a coroa a encravar
as pétalas
E os espinhos cansados de enganos
Há rosas tombadas no chão
Que não conseguem exprimir a desolação
E logo que morram, morrerás, com elas.
Asas
Ventos e estrelas envelhecem
uma constelação celestial
Que abraça o som áspero do mar
por entre os corais de sangue
Que guardam a cabeça de Medusa.
Não há inocência ali onde
Há asas derramadas do cavalo alado
Na doce ternura do nevoeiro
E na verde rebentação da espuma
Que aplaca a sede da eternidade.
A espuma dos dias
Que a poesia seja infinita
e a pedra de amolar o teu amor
te proteja da maldição dos tecedores de batalhas,
Dos corvos à procura de portões resplandecentes
E dos desertos vazios
O mais é só
Para lá da quietude das águas
Onde a casa era fantasia e ficava longe
Da espuma dos dias
Hei de lá voltar vestida de metáfora
A dissipar-me nas meadas anónimas das linhas
Para te bordar em ponto de cruz
Ou então para simplesmente te falar
De um certo tempo ou de um certo lugar
onde o poema era infinito
E talvez eu nem soubesse bordar.
A lavoura da vida
Não é demagogia é a oração madura do papel humilde nos quintais do silêncio.
Não são folhas de papel a crescer nas árvores
São os grãos pobres que se colhem
Na terra que nada fecunda.
São as sementes plantadas que vingam o pão escravo na eira da mentira
Todos sabem o que se quer dizer com isto
O que é ser embrulhado e distanciado da colheita
Ficar solitário a semear o vazio
dos últimos dias
Tentar esquecer o ruminar do gado, a lavoura pobre
O ferimento
Que não para de crescer,
Tudo é como uma planta morta, não se colhem espigas
Os galos não ajudam
a crescer na hierarquia das galinhas poedeiras
Muito menos a cacarejar o milho da gamela
E, não se faz a justiça
dos que trabalham e querem merecer o melhor grão
Fica apenas a sorte da colheita pobre.