Boas meninas se afogam em silêncio

Marcel Caram, "Araucárias ao entardecer" (2007)

Andressa Tabaczinski

Prólogo

As árvores caídas, a umidade intensa e o lamaçal eram tudo o que restava daquela que tinha sido a maior tempestade do ano. A adolescente apertou o passo na tentativa de chegar em casa o mais rápido possível, com medo de que pudesse voltar a chover.

“Rápido”, disse para apressar o irmão que vinha despreocupado logo atrás.

Os dois caminhavam desviando dos galhos acumulados por cima da lama. O céu acinzentado aos poucos escurecia com o cair da noite, sem apontar nenhuma estrela.

“Vamos cortar caminho pelas araucárias, mana”, disse o menino, adiantando-se em direção à mata fechada.

Era necessário usar a lanterna do celular para prosseguirem. O menino, mais ágil e habituado a andar por ali, foi se distanciando da irmã até sair de seu campo de visão.

Cautelosa, ela andava devagar, apontando a luz para o chão e tomando cuidado para não pisar em falso e correr o risco de voltar para casa coberta de lama da cabeça aos pés, quando foi atingida em cheio por uma sequência de gritos do irmão. Um calafrio intenso percorreu sua espinha e abriu um vazio em seu estômago. Correu em direção ao som, naquele momento sem se preocupar em se sujar ou estragar o cabelo.

“Meu Deus, o que está acontecendo?”, berrou assim que o encontrou caído no chão, olhando fixamente para a frente.

Com o olhar cravado no que tinha causado a ele tamanho choque, o menino ergueu a mão trêmula e apontou para uma imponente araucária.

A menina, receosa, caminhou devagar na direção indicada, iluminando o caminho com a lanterna do celular. Nunca tinha estado tão apavorada em sua vida, até o momento em que a viu. Seu primeiro instinto, assim como o do irmão, foi o de gritar, sentindo suas pernas fraquejarem enquanto encarava, com os olhos arregalados em uma expressão de horror, uma moça de bruços no chão, coberta por terra até a metade do dorso.

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