Agrapha dogmata

Wassily Kandinsky, "Composição VI" (1913)
Museu Hermitage, São Petersburgo

Jocê Rodrigues

E o manto do poeta lhe foi dado frente a frente
e investido pelas próprias mãos do Senhor
.

Jorge de Lima

1

eu 
tu
Ele
noz
voz
seres
... tudo é Um.

2

a vela do bolo de aniversário,
o fim das férias,
a consulta marcada,
datas e vencimentos
de perdas e ganhos
- o peso de dar e a ânsia de receber.

a velhice que chega,
os cabelos que caem,
as paixões vestidas de estrela cadente
e o medo do espelho que reflete
a miragem de ser apenas fração.

só o que é passageiro
teme o peso das horas.

o que é Eterno não tem pressa.

3

amar por amar.
um mergulho para o alto,
para dentro.

fazer da queda ascensão;
meditar sem usar razão;
cruzar as querências do céu;
não ligar princípio à equação.
amar é cair para cima.
escrever sem tinta uma nova
história dos costumes. traçar
com galho de oliveira sinais na areia
e aguardar, calmamente,
a amnésia do mar.

4

dos fulgores do entrudo
aos vaticínios de bandarra,
grassa sobre a terra
essa vontade de rasgar véus.
vontade de abrir caixas,
de completar metades e
dizer “te amo”. vontade
de ser mais que estação
frente a face do imenso centro-sol.

Praia-palma

Uma, duas horas no máximo.
É o tempo de leitura de um
bom livro de poemas,
de ponta a ponta.

Mas a poesia fica, perdura.
Cria raízes nos olhos de quem lê.

Um livro de poemas é plano
como um mapa. Cheio de sinais,
apontamentos e marcações.

Já a poesia é espaço vazio,
erro de rota, metafísica contradição
onde de ponta a ponta, tudo é praia-palma.

Baldaya

Aprender a ler rastros de estrelas
é tarefa árdua, penosa.
Como traduzir língua desconhecida
em folha de mimeógrafo
reproduzida mil vezes,
na esperança de encontrar traços
legíveis da caligrafia de Deus.
A essência está lá, o cheiro.
Mas aroma não é rosa.
Como estrada não é destino.

Há de ser luz

Há de ser luz esse caminho 
que os pés não tocam.
Esse pomar que a língua
não queima. Esse trigal
que a máquina não colhe.

Há de ser luz esse medo imperfeito.
Esse fascínio de caminhar no fio,
de dizer bom dia no meio da noite.

Há de ser luz esse choro bendito,
esse nascer de filho pródigo.

Há de ser luz, tem que ser luz...

Minerva oscura

O poeta desce ao inferno
em busca de si mesmo.
Tudo fora é dentro dele.
É a própria estrela da sorte
a iluminar caminho de seu duplo.
Todo poeta é fragmento esquizofrênico.
Precisa dividir-se, separar-se,
para depois fundir-se.
Constante solve et coagula
que hora têm barba agreste
e beijo desajeitado,
hora carinho de amante
e voz de mãe.

Sodade

Ânsia de infinito.
De voltar ao espaço
sem contornos,
início, meio e fim.

Luz que emana
e atravessa cortinas
de tempo, carne e pó.
Coração de Coimbras e Pascoaes,
pois ambos são mais de um,
em sístole e diástole de imensidões.

Lingua ignota

Na voz de Santa Hildegarda
calou-se um trovejar.
Mistérios e mais mistérios!

Decifra-me ou te devoro
em forma de santa Cruz.

Compartilhe:

Quem tá vivo leia este livro

Resenha do livro Quem tá vivo levanta a mão de Maria Fernanda Elias Maglio, publicado pela editora Patuá em 2021.

Uma caça

A “voz violenta de suas entranhas”, um poema

Uma entrevista com o sr. Fitzgerald, por F. Scott Fitzgerald

“O escritor sagaz […] escreve para a juventude de sua própria geração, para os críticos da próxima e para os doutores de todas as seguintes”. Entrevista de F. Scott Fitzgerald com ele mesmo, traduzida por Pedro Rocha Souza.

Translate