Nota do tradutor

Eugène Delacroix, "A barca de Dante" (1822)
Museu do Louvre
John Ciardi
Tradução de Rafael Rocca dos Santos

Este texto é uma reflexão sobre o ato de traduzir escrito em 1954 por John Ciardi, tradutor estadunidense, para a sua transposição do Inferno, primeira parte da Divina comédia de Dante Alighieri

Quando o violino repete o que o piano acabou de tocar, não consegue produzir os mesmos sons e só é possível uma aproximação aos mesmos acordes. Consegue, no entanto, e de uma maneira reconhecível, tocar a mesma “música”, o mesmo ar. Mas só o faz quando é fiel tanto à lógica própria do violino quanto à lógica própria do piano.

A língua também é um instrumento e cada uma tem a sua própria lógica. Creio que o processo de traduzir de língua para língua é mais bem concebido como uma “transposição” do que como uma “tradução”, pois “tradução” implica um rol de equivalentes palavra por palavra que não existe entre fronteiras linguísticas, assim como não há sons do piano no violino.

A noção de equivalentes palavra por palavra também me parece errônea no que tange à natureza da poesia. A poesia não é feita de palavras, mas sim de complexos de palavras, estruturas elaboradas que envolvem, entre outros, denotações, conotações, ritmos, trocadilhos, justaposições e ecos da tradição em meio à qual o poeta escreve. É difícil em prosa e impossível em poesia manter um tal complexo intacto entre as fronteiras da língua. O que deve ser salvo, mesmo à custa de aprumar quatro cordas em oitenta e oito notas, é o sentimento completo do complexo, da sua fôrma.

A única maneira que vejo de tentar preservar essa fôrma era me aproximar de uma língua tão próxima quanto possível à de Dante, que é, em essência, uma língua esparsa, direta e idiomática, distinguível da prosa somente no que transcende toda a noção de prosa. Não estou insinuando que a língua de Dante é a da fala corriqueira. É algo muito melhor que isso: é o que a fala corriqueira seria se fosse perfeita.

Uma das fontes principais do tom do discurso de Dante é a sua revolta contra a Escola Siciliana de Elegância. Nada seria mais equivocado que afirmar que a língua de Dante é simples. De maneira preponderante, entretanto, ela procura evitar a elegância simplesmente visando à elegância. E, também de maneira preponderante, é uma língua falada.

Na presente tradução, trabalhei, portanto, no sentido de construir algo como o inglês idiomático. E abri mão de usar a terça-rima dantesca, pois parecia claro que alguém traduzindo para o inglês consegue manter a rima ou manter o tom da língua, mas não ambos. São necessárias aproximadamente 1.500 rimas triplas para traduzir o Inferno e, mesmo que muitas dessas combinações possam ser usadas e reusadas, o inglês não possui tais recursos de rima. Inevitavelmente, a língua deve ser invertida, distorcida, preenchida e deixada inexprimível a fim de forçar o verso a surgir dessa rima ternária que tudo consome. Em italiano, em que é somente um pequeno exagero dizer que tudo rima com tudo ou com uma variante de tudo, a rima não é problema: em inglês, é um desastre.

Ao mesmo tempo, é necessário que haja alguma rima, creio, para se aproximar da maneira de Dante caminhar, e as estrofes de três versos parecem absolutamente indispensáveis, pois o fato de o pensamento de Dante tender a se concluir no final de cada terceto (incluindo um número grande de tercetos contínuos) claramente determina o “ritmo” da escrita, i.e., a velocidade com a qual ela se revela ao leitor. Essas foram as minhas razões para me decidir por essa forma. Além disso, não hesitei em usar uma rima deficiente quando a escolha pareceu ser entre forçar uma rima exata e manter a língua mais natural.

Para a minha interpretação de muitas passagens difíceis, escorei-me bastante nos comentários de Biagi e ainda mais nos de Vandelli-Scartazzini. Algumas dessas interpretações estão em desacordo com aquelas expostas em algumas das versões mais comuns do Inferno, mas, sujeito ao meu próprio erro, esta tradução é consistente, em todos os pontos, com os comentários de Vandelli.

Também me apoiei bastante na boa vontade e na sabedoria de alguns especialistas. Dudley Fitts leu a primeira versão pacientemente e na íntegra e fez anotações detalhadas e em geral legíveis. O professor A. T. MacAllister não somente me fez o favor de fornecer um conjunto de notas detalhadas, mas também de se responsabilizar pela introdução histórica, que é muito importante para uma boa compreensão de Dante, e tão brilhantemente apresentada aqui.

O professor Giorgio di Santillana me deu conselhos honestos e sutis em muitos pontos. Meu maior arrependimento é o de que ele partiu para a Itália antes de eu poder tirar vantagem da sua paciência e do seu profundo conhecimento sobre Dante. Gostaria de agradecer também ao professor C. S. Singleton por discordâncias úteis em alguns pontos, ao professor Irwin Swerdlow e ao professor Richard W. B. Lewis pelas horas de escuta paciente, e à minha irmã, a sra. Thomas W. Fennessey, por digitar muitas versões. Penso, também, que eu devo reconhecer uma dívida advinda da coragem emprestada de todos os outros tradutores de Dante; sem as suas falhas, eu nunca poderia tentar as minhas.

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