A morte do cinema

Caravaggio, "São Jerônimo" (c. 1605-06)
Galeria Borghese, Roma

Louise Estorani

Em 1939, quase um milhão de pessoas se reuniu em Atlanta para as festividades envolvendo a estreia de …E o Vento Levou (as fontes são bastante díspares quanto a esse número: algumas falam em 300 mil, outras em um milhão e meio). Metade da população americana assistiu ao filme, que foi a culminância de uma era de anfiteatros. O cinema, então aos 44 anos, era um adulto que havia passado por suas pequenas revoluções – a do som, no final da década de 1920, e a da cor, na qual o filme de Ian Fleming se inseria – e que havia pouco a pouco estabelecido uma estética e uma linguagem próprias (os close-ups, a cena-contracena, os cortes, o plano-sequência). Na década de 1920, um dos programas preferidos dos cariocas eram as matinês do Cine Lapa, onde se enfileiravam para ver Mary Pickford e Clara Bow. Na década de 1930, 65% da população americana ia ao cinema ao menos uma vez por semana; na década de 1940 (quando Carmen Miranda era a atriz mais bem paga de Hollywood), 60%. Na década de 1960 – quando o Cinema Jussara acomodava um enxame de adolescentes que se amontoava para ver o nu frontal de Norma Bengell em Os cafajestes –,  20%. E esse número foi caindo década a década, até atingir, a partir de 2010, 5%.

A glória do cinema é pretérita. Ele vai desfalecendo: salas de cinemas de rua sobrevivendo às custas de protestos. O aumento exponencial do valor dos ingressos – que aumenta à medida que o público cai – é o que permite que se faça alarde a recordes de bilheteria. Ainda há comércio, ainda há lucro, mas não há público. E quem quer que tenha frequentado uma sala de cinema numa segunda-feira do último mês há de concordar.

Os viúvos do cinema tentam dar nomes aos algozes: os diretores, a estética, os estúdios, a ideologia (ou a falta dela), a Marvel. No fundo, aos apontarem culpados, alimentam a esperança de que uma revolução do fazer do cinema o salvará. Mas essa esperança é vã. A sina do cinema não é a sina de um filho desvirtuado, que se perdeu de seu propósito, é a sina da Arte – ou, antes, da Arte que foi Entretenimento. 

Em Santa Maria delle Grazie, em Milão, há um enorme afresco de Leonardo da Vinci, A última ceia, pintado entre 1495 e 1498. Naquela época, quando a população da Europa era quase toda cristã, quando a ida à missa para ouvir longas ladainhas em latim estava no centro da vida social, o público – servo ou nobre – encarava por horas as imagens tecidas sobre a pedra e o gesso e via ali desvelar uma narrativa, um passatempo. Hoje, os afrescos servem à curiosidade de turistas que pagam 40 euros para analisar por alguns minutos o emblemático João/Maria Madalena de da Vinci.

A partir de 1360, cópias manuscritas do Decamerão de Boccaccio rodaram a Idade Média, tornando a obra um explosivo fenômeno literário. Numa Europa iletrada, trechos do livro, decorados, foram transmitidos oralmente pelos séculos que se seguiram. Nas primeiras décadas de 1600, foi a vez do Dom Quixote de Cervantes, escrito e impresso graças à invenção de Gutenberg; uma obra tão popular a ponto de ser alvo de pirataria.1 No século XIX, os leitores ávidos recolhiam o seu Diário do Rio em busca do capítulo diário de Cinco minutos de José de Alencar. Hoje se lê, é verdade, e nas listas de best sellers há livros que vendem milhões de exemplares. Mas a leitura já não está no centro do burburinho social.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado às peças de teatro (o final do século XVI na Inglaterra viu nascer o Rose, Swan, Curtain, Fortune, Red Bull, Globe, em resposta não só à inclinação particular da rainha Elizabeth quanto à enorme popularidade do teatro entre os comuns), aos programas de rádio, às novelas de Dias Gomes. A essa altura, o argumento está claro. A forma como uma geração se entretém inevitavelmente muda, e inevitavelmente o interesse se bandeia para novas coisas. O que resta de algo que era grandioso, generalizado, difundido – ou massificado – é a Arte dentro de um nicho de apreciadores (e aqui “nicho” deve ser entendido menos como quantidade (afinal, milhares de pessoas vão à Santa Maria delle Grazie e milhões leem livros) do que como um segmento social que se dedica a um passatempo artístico com habitualidade). Parafraseando Otto Maria Carpeaux (que o disse acerca da literatura), a história da Arte é um cemitério a céu aberto.

Pode-se argumentar que há um furo nessa teoria. O cinema, diferente de Boccaccio, nasceu após a Revolução Industrial. É uma manifestação artística profundamente globalizada, de feitura cara e que sempre dependeu da existência de um público grande, não local, para se viabilizar. O ethos do cinema é diferente daquele da literatura, do teatro, das artes plásticas. Mas esse argumento não é suficientemente convincente. O estatuto de cada Arte é único. E embora todas, naturalmente, tenham vindo à luz e se consolidado devido a um contexto material-histórico-social irrepetível, parece haver nelas algo em comum – um furor de juventude, uma velhice soturna, rastejante, até, enfim, a morte.

Tudo morre. Tudo, inclusive o que está para além da vida humana. Mas a morte, quem sabe, seja isto mesmo: um desfazer-se da casca, o fim da beleza, da popularidade, para que ali só sobre alguma essência que alimenta “os vermes que roeram meu cadáver”, mas que dá, de sua maneira, perenidade à vida.


1 Aqui cabe uma discussão interessante. Quando Dom Quixote foi mais popular? No seu lançamento, quando causou frisson e foi largamente lido, ou séculos depois, quando seus leitores se amontoavam em centenas de milhões? Tudo depende do conceito de popular. Para fins da reflexão que se faz aqui, popular deve ser entendido da maneira mais singela possível como algo que é do povo, da forma mais democrática e transversal.

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