Poemas de A velha mentira, de Wilfred Owen

John H. Geiszel, "Metralhadores da Rainbow a caminho do fronte" (1969)
World War History & Art Museum
Wilfred Owen
Tradução de Clarissa Desterro
Dulce et decorum est
Curvados ao chão, como velhos mendigos sob fardos,
coxos, tossindo como bruxas, xingávamos através da lama,
até darmos as costas aos assombrosos clarões,
e rumo ao nosso distante descanso começarmos a nos arrastar;
homens marchavam dormindo. Muitos tinham perdido as botas,
mas seguiam mancando, calçados em sangue.
Todos ficaram aleijados; todos cegos;
bêbados de cansaço; surdos até para os assobios
das bombas de gás despencando suavemente.

Gás! GÁS! Rápido, rapazes! – Um êxtase desajeitado,
colocando os toscos capacetes bem na hora,
mas alguém ainda estava gritando, e tropeçando,
e se debatendo como um homem no fogo ou no limo.
E, pela névoa dos visores e a luz verde espessa,
como sob um mar esverdeado, eu o vi afogar-se.

Em todos os meus sonhos, diante de meu olhar impotente,
ele se lança sobre mim, sufocando,
engasgando, se afogando.


Se em algum sonho sufocante você também pudesse marchar
atrás da carroça onde o jogamos,
e ver os olhos brancos contorcendo-se em seu rosto,
seu rosto pendente, como o de um diabo cansado de pecar;
se você pudesse ouvir, a cada solavanco, o sangue
subir em gargarejos de pulmões corrompidos por espuma,
obsceno como câncer, amargo como o regurgitar
de vis, incuráveis feridas em línguas inocentes, -
meu amigo, você não contaria com tão orgulhoso zelo
a crianças ardentes por alguma glória desesperada,
a Velha Mentira: Dulce et decorum est
pro patria mori.
Dulce et decorum est

Bent double, like old beggars under sacks,
Knock-kneed, coughing like hags, we cursed through sludge,
Till on the haunting flares we turned our backs,
And towards our distant rest began to trudge.
Men marched asleep. Many had lost their boots,
But limped on, blood-shod. All went lame; all blind;
Drunk with fatigue; deaf even to the hoots
Of gas-shells dropping softly behind.

Gas! GAS! Quick, boys!—An ecstasy of fumbling
Fitting the clumsy helmets just in time,
But someone still was yelling out and stumbling
And flound’ring like a man in fire or lime.—
Dim through the misty panes and thick green light,
As under a green sea, I saw him drowning.

In all my dreams before my helpless sight,
He plunges at me, guttering, choking, drowning.

If in some smothering dreams, you too could pace
Behind the wagon that we flung him in,
And watch the white eyes writhing in his face,
His hanging face, like a devil’s sick of sin;
If you could hear, at every jolt, the blood
Come gargling from the froth-corrupted lungs,
Obscene as cancer, bitter as the cud
Of vile, incurable sores on innocent tongues,—
My friend, you would not tell with such high zest
To children ardent for some desperate glory,
The old Lie: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

Hino para a juventude condenada

Quais serão os sinos fúnebres para estes que morrem como gado?
— Apenas a monstruosa fúria das armas.
Apenas o gaguejar apressado dos rifles
pode elevar suas apressadas orações.
Nenhum fingimento por eles agora; nem orações, nem sinos;
nem qualquer voz de luto, exceto os corais, —
os estridentes, dementes corais de bombas chorosas;
e clarins que os chamam de seus tristes lares.

Que velas podem ser acesas para guiá-los?
Não nas mãos de meninos, mas em seus olhos
brilhará o lampejo sagrado do adeus.
A palidez nas faces das moças serão suas mortalhas;
suas flores, a ternura de mentes pacientes
e cada lento amanhecer, um fechar das cortinas.

Anthem for doomed youth

What passing-bells for these who die as cattle?
— Only the monstrous anger of the guns.
Only the stuttering rifles’ rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells;
Nor any voice of mourning save the choirs,—
The shrill, demented choirs of wailing shells;
And bugles calling for them from sad shires.

What candles may be held to speed them all?
Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes.
The pallor of girls’ brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.

A parábola do velho e do jovem

Então Abraão ergueu-se, cortou a lenha e foi,
levando consigo o fogo e a faca.
E enquanto peregrinavam, os dois juntos,
Isaque, o primogênito, falou e disse: Meu pai,
eis aqui os preparativos, fogo e ferro,
mas onde está o cordeiro para este holocausto?
Então Abraão amarrou o jovem com cintos e correias,
e construiu ali barricadas e trincheiras,
e estendeu a faca para imolar seu filho.
Quando eis que um anjo o chamou do céu,
dizendo: Não estendas a mão sobre o rapaz,
nem lhe faças mal algum. Vê;
um carneiro, preso pelos chifres num arbusto;
oferece o Carneiro do Orgulho em seu lugar.

Mas o velho não quis fazer isso, e abateu seu filho,
e metade da descendência da Europa, um por um.

The parable of the old man and the young

So Abram rose, and clave the wood, and went,
And took the fire with him, and a knife.
And as they sojourned both of them together,
Isaac the first-born spake and said, My Father,
Behold the preparations, fire and iron,
But where the lamb for this burnt-offering?
Then Abram bound the youth with belts and straps,
and builded parapets and trenches there,
And stretchèd forth the knife to slay his son.
When lo! an angel called him out of heaven,
Saying, Lay not thy hand upon the lad,
Neither do anything to him. Behold,
A ram, caught in a thicket by its horns;
Offer the Ram of Pride instead of him.

But the old man would not so, but slew his son,
And half the seed of Europe, one by one.

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Três poemas

“[O] cotidiano toma de assalto os desenhos do mundo”, três poemas inéditos de Lucas Perito.

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