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Quatro poemas de Matheus Guménin Barreto

Kazimir Malevitch (1878-1935)

Matheus Guménin Barreto

Aquilo que me sou não me é nunca. 
Pensando o que serei no escasso espaço 
de mim, não sei se penso e sou aquilo 
ou se, pensando, passa o tempo e passo 

– se passo e já não sou o que pensara, 
nem o que penso agora e que já passa. 
Não sei se algum momento embosco aquele
que busco ou se descubro-me sua caça.

Cuiabá

Perder a cidade na campina inexata
da memória.

Perder a cidade, os gestos de tios, os doces das avós,
                            a gritaria dos miúdos perder,
                            perder o cumprimento do
                            vizinho no mercado,
perder uma cidade e com ela uma infância,
                            a juventude, a vida adulta.
Perder um lugar que perde em si outros lugares,
perder o calor brando de um quarto azul,
perder uma cidade em cada um que parte,
em cada um que, em parte, mata
quando morre.

Perder inapelavelmente uma cidade,
mas pisá-la.

Tempo

Aquilo que possuo e me possui,
e que, se cerco, ergue cercos outros
em torno aos muros fracos, muros poucos,
que ergui; aquilo que constrói e rui
meu corpo; que já traz numa só mão
meu corpo e aquela morte que é a sua
(se cada corpo nasce já com uma),
meu corpo e aqueles beijos que serão
os seus (se morre sempre sem dar todos);
aquilo, ainda, que me tira tudo
e tudo dá a mim; o que procuro,
mas que me encontra sempre e eu não encontro.
Aquilo, enfim, que dá-me o amor de um homem
de pau em riste – e nos apaga os nomes.

Domingo de praia

Praia de Naufragados
Para Caio Augusto Leite, Luiza Melo e Marcelo Labes
                              (O sol, ele afia
                              o limpo do dia
                              na água do mar).

Os olhos forçando
passagem na lâmi-
na clara do dia
(escuros os ócu-
los), dedos crispando
protegem os olhos,
agarram-se à noite
que há muito escapou.
Debaixo do dia
há o fresco de um tempo
(famílias no ôni-
bus, óculos, cremes,
cachorros que dormem
no colo da moça,
uns risos, uns gritos
cheirando a domingo, 
o ronco do ôni-
bus, outro da velha
que dorme no fundo,
a rádio que toca
ninguém sabe donde),
debaixo do dia
há o fresco de um tempo
que, nem já memória,
promete-se e esgarça,
promete-se e escapa
do olho que o vê
                          (juventude à sombra,
                          juventude azul).

A tarde adiante
ainda nem vinda
já morre esbatida
no muro do cais.

                                                      (Mas, morta a promessa,
                                                      a noite a refaz).

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