Fernanda Mellvee
Sentei-me no sofá, reparando o quanto a sala vazia lembrava um hospital ou mesmo um cemitério. E então um som enlouquecedor rasgou a tarde. Um arrepio percorreu todo o meu corpo com aquele que foi o primeiro de muitos gritos. Como não é qualquer crise de loucura que consegue barrar a minha curiosidade, olhei para os lados e, sem enxergar nem a sombra da dona Alzira, subi a escada bem devagarinho, ouvindo aqueles berros mais assustadores à medida em que eu me aproximava.
“Senhorita Melina… Não…”
Fingi que não ouvi quando a empregada surpreendeu a minha fuga. Sei que a minha intenção não era das melhores, mas não consegui conter o meu ímpeto aventureiro. Além do mais, achei que tivesse o direito de conhecer a minha rival – que coisa ridícula uma mulher chamar a outra assim –; posso garantir que agi somente por curiosidade. E então dentro do quarto pude testemunhar algo muito mais grotesco do que eu estava esperando.
Beatriz, sentada numa cadeira ao lado da cama, segurava a mão da mãe. A força com que a mulher apertava a mão da filha dava a impressão de que os ossos da guria fossem quebrar a qualquer momento. Rubens as observava de pé, próximo à porta. Seus olhos estavam vermelhos e seu rosto branco como se tivesse visto uma assombração. E, de fato, eu era a assombração: a amante surgida do nada, no meio de uma crise da esposa. Pela maneira como ele olhou para mim, pensei que fosse me expulsar do quarto, mas Rubens não teve reação nenhuma. O show de horrores ficou por conta de d. Inês. Não consigo tirar da cabeça a imagem daquela mulher esquálida, vestindo um camisolão branco, com aqueles cabelos longos e muito negros desgrenhados. Quando a vi, pensei no conto Aparição, de Maupassant, cujo protagonista entra num dos cômodos de uma casa abandonada e dá de cara com uma mulher fantasma vestida de branco. Essa imagem fantasmagórica criada pelo autor deve ter servido de inspiração para muitas cenas de filmes de terror e para outras obras literárias. Para mim, a mulher-assombração de Maupassant é a rainha dos fantasmas.
Porém, longe de me entregar um pente e de pedir que eu desembarace as suas maçarocas, a coadjuvante da minha história, mas a protagonista da tarde, fez uma gritaria que acho que deu para ouvir até em 2020. Suas palavras em minha direção foram “sua meretriz”, “prostituta imunda” e todos aqueles xingamentos que as beatas proferem às inimigas nas novelas de época da Globo. Confesso que foi bastante constrangedor ouvir todos aqueles elogios. Ela só não me chamou de santa porque eu não sou. O melhor de tudo foi que eu não desci do salto, mas, também, com que jeito eu iria retribuir os xingamentos se eu não conhecia nenhum à altura, ou pelo menos, nenhuma ofensa típica de 1900? Vontade não me faltou responder o “sua meretriz” com um “vadia louca” ou o “prostitua imunda” com “é a tua mãe”, mas ficaria muito chato para a minha cara brotar do nada no meio do quarto dos outros, sem ser convidada, e mandar a dona da casa ir à puta que a pariu.
O gran finale foi a aparição de Maupassant ter se transformado na guria de O exorcista. A criatura conseguiu se desvencilhar do braço da filha, que àquela altura já estava todo lanhado, e saltar da cama com uma rapidez descomunal. Primeiro, ela disse que eu era o mal e que levaria a sua família à ruína. Por fim, me chamou de demônio e tentou esfregar um crucifixo na minha cara. Então pensei: não atravessei um século inteiro para vir parar num culto neopentecostal.
É claro que eu não reagi. Fiquei atônita, esperando que o marido e a filha a contivessem, o que aconteceu somente depois de muito esforço de ambos. Me despedi dos dois, que se desculpavam sem parar, dizendo a eles que estava tudo bem, que eu compreendia, seguido de um “pobre dona Inês, espero que ela se recupere logo…” E voltei para a minha casa através da primeira porta que encontrei aberta. Depois de tudo o que aconteceu nessa tarde, 2020 nem me parece tão ruim. Agora, pensando bem, procurar por ele justo na casa onde mora com a família me parece a rainha das ideias estúpidas.