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Uma conto-crônica

Johann Jacob Steinemann, c.1835

Ivanes Freitas

Hoje, me deram uma notícia que me acertou bonito. Antes não ma tivessem dado.

À tarde, eu tive de ir ao Centro comprar ração que preste para o Mefisto. Descendo na praça da Prefeitura, dei um esbarrão em um homem que, em me virando para lhe pedir desculpas, reconheci um antigo colega da faculdade. Ele, reconhecendo-me, estampou logo na cara um largo sorriso, apertamo-nos as mãos, dissemos um ao outro o de praxe nessas ocasiões. Depois, franzindo o cenho, numa teatralidade fantástica (nunca o soube ator), me jogou no peito: “sabe o Emílio?” À minha resposta negativa, completou: “se matou, o maluco!” Emílio matou-se, Emílio matou-se, disse-o na minha cabeça, como se, à força de repetição, pudesse enfim apreender o significado do que me dissera, até que caiu a ficha e eu, em choque, deixei escapar um “como!” Meu amigo, não entendendo a interjeição, disse que enforcado.

Emílio era a pessoa mais espirituosa e educada que a vida, sempre desfavorável às suas crias, teve a bondade de me apresentar. Improvisador extraordinário, se lhe déssemos um mote, entregava-nos uma glosa engraçadíssima. Era de fazer inveja a qualquer repentista. Sempre ligeiro, tinha umas tiradas maravilhosas. Se hoje, em uma bebedeira, algum bom vento o trouxesse à nossa lembrança, teríamos assunto para a noite toda.

Se se sujeitasse à inútil tortura do verso, teria sido um excelente poeta, bem melhor do que alguns jabutiqueiros por aí. Nunca escreveu poema algum. As improvisações que fazia, quando fazia, esquecia-as logo que proferidas. Eram os amigos que, não as deixando de molho no Letes, anotavam tudo no bloco de notas do celular. Ele teria sido ainda melhor comediante de stand up se não fosse avesso ao palco, tamanha a facilidade de transformar tudo em piada, da desgraça ao corriqueiro. Tímido, abria-se para nós apenas, os seus amigos, e olhe lá.

Conhecemo-nos na Urca, no Crato. Cursávamos Letras: eu, porque não me via fazendo outra coisa; ele, porque não tirou nota suficiente para entrar em direito. Assistíamos a poucas aulas – Latim, no primeiro semestre, literatura, quando dava; fugíamos à Morfossintaxe como o vampiro ao alho. Quando não matávamos o tempo na praça na frente da Universidade, enchíamos a cara em algum boteco. Não raro perdíamos o último ônibus para Juazeiro e tínhamos de dormir na praça da Sé, o que, pensando bem, era uma loucura.

Amigos da faculdade são amigos da faculdade. Concluído o curso, cada um segue o seu rumo e ninguém volta a se ver, salvo nos raros encontros no Centro ou alhures, como este com o meu amigo (se anônimo, é porque não me lembro de seu nome). Emílio não concluíra o curso, como fiquei sabendo depois (eu já tinha desistido). Trancara-o no quarto semestre. Fez concurso para alguma coisa, passou. Vida estabelecida. Casou-se, teve filhos. Vida dispendiosa, ciosa de tempo. Chegamos a nos ver duas vezes, se muito: uma, no ponto de ônibus na frente da praça Padre Cícero; outra, em um supermercado. Trocamos, nesses dois encontros, alguns cumprimentos frios e só. Mas, embora isso, minha consideração por ele não diminuiu em nada, nem a dele por mim, imagino.

Meu amigo anônimo e eu ainda trocamos algumas palavras. Ele, enfim, percebendo o meu desconforto maldisfarçado por um sorriso amarelo, despediu-se, sem abraços, sem apertos de mãos. Penso tê-lo visto descer à rua São Pedro, não lembro bem. E eu fui à rua São Paulo, no petshop, comprar a ração do gato, sempre com a figura alegre de Emílio na lembrança. Não digo que lhe chorei o suicídio, mas senti-o profundamente. “Morreu como vivera, na dele”, pensei.

É possível que eu não volte a ver esse meu amigo anônimo. E, caso cheguemos a nos esbarrar outra vez, para evitar que me diga notícias desse gênero, fingirei não o reconhecer. Eu, não sabendo da morte deste e daquele, este e aquele continuarão vivos para mim, mesmo que não me lembre de seus nomes ou feições, ou que não associe nomes a caras. A única morte irremediável é a nossa. A dos outros, se não tomamos conhecimento dela, jamais acontece.

Emílio matou-se. É pena.

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