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La Santa Compaña: magia e imaginário em terras galegas

Jocê Rodrigues

Prólogo: O medo dos vivos

Em algumas culturas do mundo, os mortos são mais temidos do que amados. Isso porque muitos acreditam que a morte, mais do que o fim absoluto ou um mero fenômeno de transição de um plano para outro, é um estado de existência capaz de exercer enorme influência no mundo dos vivos.

O medo dos mortos é uma das principais motivações para muitos cultos e rituais que fazem parte da história humana. Sob essa perspectiva, temer os mortos é também ter a quem culpar quando algo dá errado. Se a colheita foi destruída por falta ou excesso de chuva, os maus espíritos devem ter alguma coisa a ver com isso. Se uma criança morre de causas misteriosas, pode ser um castigo dos espíritos por alguma transgressão ou desatenção. Talvez porque não foram honrados como deveriam ou simplesmente porque não estavam de bom humor.

Por mais incrível que possa parecer para a mentalidade contemporânea, é assim que sociedades antigas costumavam encarar algumas desgraças do cotidiano. Esse costume foi passado adiante e perdura até hoje em diversos lugares do planeta.

Os mortos, acredita-se em algumas culturas, podem punir fazendo bem mais do que simplesmente trazer doenças e escassez material para o mundo dos vivos. Eles podem machucar de outras maneiras, às vezes físicas, mas, na maioria das vezes, psicológicas. Lembram-nos, por exemplo, da nossa finitude; de que, mais cedo ou mais tarde, nos juntaremos às fileiras daqueles que se foram.

Ato 1: Passeio noturno

Quando o assunto é mitos e lendas, não seria exagero dizer que a Galícia é uma das regiões mais férteis em todo o mundo. O clima chuvoso e nublado contribui para o surgimento de histórias e relatos de espíritos, bruxas, fadas e trasnos. Entretanto, uma outra lenda ganha de longe o título de mais temida entre os seus habitantes: a da Santa Compaña.

Formada por uma procissão de almas penadas, que carregam velas acesas enquanto se lamentam pela noite escura, a Santa Compaña até hoje desperta pavor em pessoas de todas as idades por lá. Ensamio, estadea, estandinha, estantiga, hoste, antaruxada, hostilla e ronda: esses são alguns dos nomes pelos quais ela também é conhecida. Mas, não importa o nome, o pavor é sempre o mesmo.

E não é difícil reconhecê-la.

Durante a noite, os espíritos dos mortos se levantam de seus túmulos e se reúnem na igreja. Ao soar da meia-noite, saem enfileirados pela porta principal, cada um carregando a sua vela. Na frente de todas as almas, uma pessoa viva vai abrindo os caminhos, carregando um crucifixo entre as mãos e um pequeno caldeirão abastecido com água benta.

Em algumas versões, diz-se que é possível enxergar os mortos enquanto caminham, transmutados em esqueletos envoltos em mantas brancas ou negras. Já em outras, afirma-se que apenas a chama das velas que carregam nas mãos pode ser vista pelos vivos. Quem, por acaso, é pego desprevenido por ela, ouve logo o aviso “anda de dia, que a noite é minha”, e é obrigado a se juntar à macabra marcha numa espécie de transe.

Para evitar ser pego por ela, é preciso disfarçar, fingir que não a viu e passar; traçar um círculo no chão e dentro dele desenhar a estrela de Salomão. A pessoa deve ficar dentro dele, imóvel como uma estátua. Como medida extrema, o transeunte desavisado pode também se atirar ao chão, com a boca para baixo e assim se manter até que as almas penadas passem.

A pessoa que, por infortúnio, carrega a cruz à frente da procissão, é sempre uma pessoa comum. De dia, ela leva uma vida normal e, de noite, é levada por uma força irresistível a desempenhar o seu papel.

Quando o passeio noturno termina, ela retorna para a sua casa sem lembrar do que aconteceu. Dizem que é possível saber quando alguém está condenado a guiar os espíritos da Compaña, pois invariavelmente a pessoa desafortunada vai perdendo as forças a cada dia; fica pálida e cansada, como se tivesse andado por longo período de tempo sem nunca parar para descansar.

Ato 2: Um anúncio indesejado

Depois de realizar um parto difícil no vilarejo vizinho, o homem conhecido por seus amigos e pacientes como Doutor Pereira percorria o trajeto de volta para casa. A noite já ia alta e a estrada de terra, margeada por grandes árvores e sem iluminação elétrica, era um cenário solitário e desolador.

Uma breve consulta ao relógio mostraria que já passava das duas da manhã quando o Dr. Pereira avistou uma cena da qual ele ouvia falar desde que era criança. No meio da estrada, já no vilarejo, viu surgir uma fileira com oito figuras vestidas de branco e encapuzadas. Vinham em passos lentos e pareciam ter surgido do nada. À frente ia um homem pálido, de aparência abatida, carregando uma enorme cruz de madeira.

O cheiro de parafina queimada logo tomou todo o terreno. A passos lentos, os caminhantes interromperam sua marcha na frente da casa de um tal Manolo, que era o ferreiro da região. Dominado pelo medo, Dr. Pereira correu em disparada até a sua casa. Ao fechar a porta atrás de si, não tinha dúvidas do que havia visto. “La Santa Compaña”, repetia para si mesmo, ainda ofegante. Quatro dias depois do sinistro avistamento, o ferreiro Manolo morria por conta de um infarto.

Em uma outra história conhecida, fala-se de Sofía Perez, mãe de quatro filhos e respeitada por todos os vizinhos. O encontro aconteceu quando ela tinha oito anos de idade. Na ocasião, ela e sua mãe tinham ido visitar uma amiga durante uma noite de inverno. Para chegarem mais rápido, cortaram caminho por detrás da casa, percorrendo uma estrada que levava ao cemitério.

Ao chegarem perto de uma encruzilhada, Sofía e sua mãe começaram a ouvir o barulho de passos lentos e pesados, como de uma pequena multidão. Atentas, as duas viram descer pela estrada uma procissão, como a de um enterro. Sofía não sabe dizer o número certo, mas se lembra de que eram muitos e que todos se vestiam iguais, com túnicas pretas e capuz da mesma cor cobrindo as cabeças.

Mãe e filha ficaram paralisadas de medo, abraçadas uma à outra, enquanto viam passar as almas. A mãe de Sofía a apertava forte e dizia baixinho para que ela não fizesse barulho. O espanto foi ainda maior quando, no fim da fila, avistaram uma vizinha chamada Tia Preciosa. Sofia a reconheceu pelo modo de andar, já que Preciosa mancava de uma das pernas. Segundo Sofía, a senhora trazia nos braços uma espécie de pedra branca e reluzente como mármore e passou ao lado delas silenciosa como uma alma.

Passados quatro dias do infeliz encontro, chegou a notícia de que Tia Preciosa tinha morrido, ao que tudo indica, vítima de um acidente. Um raio entrou pela chaminé enquanto ela estava na cozinha e a fulminou. Coincidência ou não, não deixa de ser assustador.

Esses são apenas dois dos milhares de relatos de pessoas que afirmam ter visto a Santa Compaña com os próprios olhos. São relatos de origem incerta, mas que fazem parte do imaginário popular sobre um dos eventos sobrenaturais mais temidos pelo povo galego.

Como é possível notar nessas histórias, sua passagem anuncia a morte. É de conhecimento comum entre os galegos que o destino da caminhada sobrenatural é a casa de alguém que irá morrer dentro do prazo de um ano. Diz-se ainda que, em algumas ocasiões, para marcar a passagem por determinado lugar, as almas deixam um caixão ao lado da porta da casa daquele quem foram visitar. É indício inescapável de que o destino daquela pessoa já está selado.

Ato 3: Origem incerta

Lendas que correspondem à Santa Compaña estão presentes em diversas outras culturas: fairy host na Irlanda, sluagh na Escócia e toili no País de Gales. Até mesmo aqui, no Brasil, em diversas regiões, é possível encontrar versões dela. Umas mais elaboradas, outras com elementos distintos, mas exatamente iguais na finalidade: o indesejado anúncio da morte de alguém.

Os historiadores discutem sobre a verdadeira origem da Santa Compaña. Enquanto alguns defendem que suas raízes estão na tradição cristã medieval, outros são da opinião de que esse é um credo muito mais antigo do que a própria cultura celta.

Em tempos remotos, a região da Galícia havia sido colonizada por diversos povos: visigodos, celtas e romanos. Por isso, toda tentativa de dissecar e unificar todos os aspectos do fenômeno da Santa Compaña se mostra falha e incompleta ao final. Mesmo os estudos de grande fôlego, como o do célebre antropólogo galego Carmelo Lisón Tolosana, não conseguem abarcar toda a pluralidade e heterodoxia dessa caminhada das almas.

Cada aldeia galega possui a sua própria versão dela, com detalhes e elementos que diferem umas das outras.

Para os mais incrédulos, a redução drástica do número de relatos de aparições da turba demoníaca de algumas décadas para cá se deve ao fato do crescimento de áreas rurais com estradas asfaltadas e bem iluminadas, gerando um enfraquecimento dos aspectos mais rústicos que propiciavam o ambiente perfeito para que a mente dos habitantes das áreas rurais produzisse certos “delírios”.

Já para os galegos mais velhos, o declínio das aparições está diretamente ligado ao fato de que mais missas passaram a ser feitas para as almas, pois existe ainda a versão de que as almas que compõem a sinistra procissão não conseguem descansar porque não são lembradas por seus familiares e o esquecimento seria como uma segunda morte (talvez ainda mais dolorida para quem já partiu).

Epílogo: Não é sobre morrer

O escritor galego Xoan Rof Carballo, no livro Mito e realidade da terra Nai, diz o seguinte:

A Santa Compaña, que nossos campesinos temem encontrar pelas estradas quando a luz do dia já se extinguiu, não é uma fantasia das suas mentes, mas algo que realmente existe e que todos os seres humanos temem profundamente.

O que se teme não é a morte, nem o desamparo afetivo que ela deixa. O que tememos é o seu aspecto impalpável, a sutil tirania que a morte exerce sobre nós, desorganizando o mais profundo de nossa estrutura anímica. (tradução minha)

Morrer, portanto, não é o grande problema aqui. De certa forma, todos nós sabemos, em nosso íntimo, que um dia a nossa hora vai chegar. O problema, me parece, é sermos lembrados disso, principalmente quando essa lembrança incômoda nos chega por meio daqueles que já se foram.

O que dói não é o morrer em si. O que dói é lembrar que tudo chega ao fim. Amor, dinheiro, poder, felicidade e a própria vida: nada parece ser feito para durar.

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