O romantismo como éthos em Goncalves Dias

Autor da foto desconhecido, "Gonçalves Dias" (c. 1855)

Djalma Augusto

A primeira metade do século XIX pulsava romantismo em um Brasil redescoberto através das letras e um dos principais responsáveis fora Goncalves Dias (1823-1864), poeta que se tornou uma referência na escrita indianista, formando um éthos nos costumes de uma juventude que se encontrava em um turbilhão de sentimentos e atividades intelectuais. Após a criação da Faculdade de Direito em São Paulo em 1827, filhos da aristocracia rural mudaram-se para São Paulo, praticamente uma vila, com o propósito de se formarem e darem continuidade nos negócios numa égide patriarcal. Em uma sociedade iletrada, a faculdade era uma ilha cultural e de leituras, sobretudo de obras voltadas para o conhecimento jurídico; porém, uma parcela dessa juventude se via embebecida com as obras de Byron e Goethe, atores que impactaram o romantismo no Brasil. Jovens transviados perdiam-se entre poemas para as amadas e goles de vinho nas poucas tabernas que lucravam com a derrama dos sinhozinhos nas Minas Gerais, formando uma nova e promissora intelligentsia dos trópicos.

Alguns deles exageraram nas doses não só da bebida, mas da paciência dos professores, exigindo do reitor a expulsão após a convocação do pai, responsável financeiro e educacional. Gonçalves Dias foi um escritor do seu tempo, envolvido no imaginário mítico dos indígenas como um projeto nacionalista após a independência política do Brasil em 1822. A cultura brasileira estava sendo repensada após uma extensa historiografia jesuítica entre os séculos XVII-XVIII e uma nova linha de pensamento do Iluminismo como embrião entre os arcadistas nas Minas Gerais. Após a chegada da família real em 1808, a Imprensa Régia deu um impulso na produção literária no Brasil. O jornal A marmota fluminense encontrava-se sob a direção do tipógrafo Francisco de Paula Brito (1809-1861), atuante entre 1852 e 1857, com poemas e resenhas de obras literárias dos principais escritores do país. Gonçalves Dias, ciente da publicização da literatura, publicou poemas de sua autoria, trazendo-lhe fama e respeito pari passu a seus pares. Eis um dos poemas do credenciado escritor dos oitocentos:

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
de vivo fulgor;
seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
que falam de amores com tanta poesia,
com tanto pudor.

Completamente apaixonado pela abastada Ana Amélia Ferreira do Vale, o racismo predominou ao tentar desposá-la em 1851, em uma missão oficial, impedindo-o de realizar o seu sonho amoroso. Gonçalves Dias fora um dos primeiros abolicionistas no século XIX, mostrando uma visão republicana e intelectualmente polida. Sua leitura era um Brasil ainda em formação e com um projeto ainda arcaico, desconectado de um mundo em transformação diante de um estado monárquico, escravocrata, na contramão de todo o continente americano, já sob forte impacto de Diderot, Montesquieu, Voltaire e Rousseau na França setecentista, além, é claro, da Revolução Francesa (1789-1799); e ele se via diante de uma sociedade brutalizada na aristocracia rural e nas cidades que ganhavam corpo, entre elas o Rio de Janeiro, a Capital da Corte, Salvador, Recife e, ainda de uma forma vagarosa a pequena, São Paulo. Seu tempo de pesquisa na Europa entre 1854-1858 alargara a sua mente de polímata como poucos em seu tempo por ter sido não só um poeta dos amores, mas também professor de História e latim no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e fundado a revista Guanabara com Joaquim Manuel de Macedo e Manuel de Araújo Porto-Alegre em 1851, revista essa que enaltecia, nas palavras do filósofo Habermas, “a embrionária esfera pública literária”.

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