Daniel Manzoni
Cena I – Quarto de Virgínia
É um quarto amplo e de luxo. Há uma cama de casal grande ao centro. Animais de pelúcia estão espalhados pelo quarto. Ao fundo, em uma parede, há uma bandeira do Brasil pendurada. Há um sentimento patriótico exacerbado. Ao mesmo tempo é um ambiente infantilizado com a presença de cor-de-rosa e branco. Virgínia, apesar de ter mais de vinte e cinco anos, mantém uma postura de uma garota mimada e infantil. Há ainda pôster de grupos de rock em algumas paredes. Virgínia entra em cena, no quarto, com o aparelho celular em mão. Atira a bolsa, irritada, sobre a cama. Disca alguns números no aparelho faz uma ligação
VIRGINIA
Vamos matar o professor, não há outra opção!
[Pausa]
Sim! Já tentei de tudo e aquele idiota está preso em convicções que ele não vai ceder.
[Pausa]
Sim! Já tentei. Eu estou vindo da Universidade agora. Acredita que eu ofereci ao idiota cinco mil reais e ele não aceitou?
[Pausa]
Cinco mil reais! Eu vi que ele ganha quase isso por mês. Trabalha o mês todo por quase cinco mil reais e nega ganhar mais cinco por nada! Como ele não pode aceitar um salário a mais para limpar a barra de dois alunos? É um idiota!
[Pausa]
Um idiota, preso em valores éticos que nem existem mais. Merece morrer mesmo!
[Pausa]
Não há conversa, Peter! E a única saída que temos é dar um fim nesse cara, ou você vai querer enfrentar seu pai? Ele vai cortar seus cartões de crédito! O meu vai fazer isso! Já quase fez isso no ano passado quando eu ia reprovar em fisiologia humana. A sorte é que aquela morta de fome da professora Isabel não sei das quantas, nem sobrenome memorável a infeliz tem, aceitou os três mil contos, dinheiro de uma balada de uma noite nossa, para me passar calada na disciplina dela. Agora esse tal de Roger Figueira (olha o nome!) não quer nem conversa com a grana que eu descolaria para ele. Professor de Ética! Para que serve essa disciplina?!
[Pausa]
Foda-se o conselho federal de medicina que exige esse tipo de formação para nós. Eu quero ser dermatologista, meu pai vai abrir a minha clínica e só preciso saber como fazer os procedimentos estéticos. Eu vou lá precisar saber quem foi esse bando de filósofos defuntos que só falam de comunismo o tempo todo?
[Pausa]
Claro que é comunista! Eu já olhei nas redes sociais dele. Todo engajado na esquerda maldita que vai levar esse país ainda mais para o buraco! Comunista!
[Pausa]
Não, eu não vou meter o deputado amigo do meu pai do partido nessa história para dar uma prensa nesse merdinha comunista. O deputado é dos nossos e não tem como interferir com esse comunista.
[Pausa]
Sim, estou ligada que é LGBTQ sei lá mais o quê. Veado mesmo, quer saber! Digo com a boca cheia. Oh, raça! Essa gente é perigosa, Peter! Eu estou falando. Não tem outro jeito: vamos apagar esse cara.
[Pausa]
Cara, o miserável me deu a maior lição de moral hoje quando fui falar com ele. Cheguei toda calma: “professor, eu sei que não me dediquei o suficiente esse ano na sua disciplina. Haveria alguma forma da gente conversar e aliviar meu lado?” Me olhou com uma cara de nojo, como se eu fosse uma barata, cara! Aquele merda comunista se achou melhor do que eu! E eu: “cinco mil reais, professor para me passar na sua matéria”. Você precisa ver como me tratou.
[Pausa]
Sim, disse que iria me denunciar na universidade porque eu estava tentando corrompê-lo…
[Pausa]
Claro que nem deu tempo de eu falar no seu caso também, o cara quase me engoliu só de eu falar de mim, imagina se eu falar de você. Veio com aquele papo de Paulo Freire e o caralho a quatro. Deu vontade de mandar enfiar Paulo Freire, outro comunista do caralho, no cu dele. Saí de lá vazada; vai que estivesse gravando alguma coisa. Mas prometeu levar adiante e disse que iria na coordenação, reitoria, sei lá mais onde para falar sobre o que havia acontecido. Por isso estou falando, Peter, que precisamos matar esse filho da puta antes que ele abra o bico.
[Pausa]
Se ele abrir o bico não serão só os cartões de crédito que iremos perder, não. Você está ligado nas férias em Ibiza, não é? Vão melar de vez. Teu pai não vai ceder o jatinho para nós. Você ainda é filho de norte-americano, vai conseguir ir passar o verão em Miami. Eu não! Meu pai é nordestino, cara. Vem com toda aquela história de como venceu na vida para pagar essa faculdade de medicina para mim e vai me prender em casa sem grana nenhuma.
[Pausa]
Vamos dar cabo desse cara entre hoje e amanhã!
[Pausa]
Ninguém vai nem suspeitar da gente, Peter! Quem vai suspeitar que dois estudantes de um curso de medicina que a mensalidade é salário de executivo de multinacional nesse país matou um professor Zé-ninguém? Um país violento desses que morre gente todos os dias por conta de um celular, um a mais não vai acontecer nada.
[Pausa]
Não, não vamos mais envolver ninguém nessa história. Será só você e eu para não dar merda.
[Pausa]
Claro que não vai dar nada. É um professor! Um professor! Não vale nada, ninguém vai dar falta. Claro, vão fazer um chororô na universidade por uns dois dias. Vai rolar uma homenagem e tal, mas, depois de uns três dias, você vai ver, ninguém nem vai lembrar mais…
[Pausa]
Exato! Você lembra o ano passado que aquela professora mais velha, chata pra caralho, de prática hospitalar morreu de um AVC e o corpo docente teve até que comprar uma coroa de flores para a infeliz. A universidade não teve coragem de dar uma coroa de flores para a pobre! Uma coroa de flores! Imagina se vão dar falta de um professor veado de ética! Se ao menos fosse uma disciplina importante pra formação de um médico, como as disciplinas científicas, até vai lá, mas ética? De um professor comunista ainda? A universidade está louca para se livrar de gente como esse cara e não sabe como. Nós faremos um favor, isso sim! Deveríamos ganhar para fazer isso por eles.
[Pausa]
Como faremos? Eu preciso pensar… revólver? Teu pai tem um que podemos usar?
[Pausa]
Você tem razão: podem descobrir a origem da arma pelas balas. Punhaladas mesmo. Vamos de punhal. Meu pai tem vários que usa nas pescarias. Um que eu pegue não sentirá falta.
[Pausa]
Eu sei que ele é grande, mas também não é muito forte. Nem dinheiro para pagar uma academia, deve ser infeliz. Ai, que ódio e ainda rejeitar minha oferta. Vai nos obrigar a fazer isso, mas quem mandou ser idiota? Nasceu pobre, foi estudar coisas de humanas e ainda escolheu ser professor. É burro mesmo! Merece morrer sem dó. Cansada dessa gente. Achei que o presidente que votamos e elegemos seria mais rígido com essa gente, mas não! Deixou que tomassem fôlego com esse discurso de direitos humanos e mais não sei o quê. Direitos é para homens direitos como nós…
[Pausa]
Sim, Peter, já sabemos que essa disciplina não serve de nada, mas o filho da puta vai nos reprovar. Vai ter a ousadia de nos reprovar e vamos perder grana! Meu pai não vai entender. É cheio de histórias e regras como o tal professor Roger.
[Pausa]
Ainda é cedo, Peter; vamos matar o professor ainda hoje à noite…
Cena II – Cenário neutro
Apenas uma luz em Virgínia que a segue em todos os lugares que ela anda pelo palco. A interação dessa cena é entre o público e a Virgínia
VIRGÍNIA
Quem vai sentir falta de um professor?
[Pausa]
Aposto que ninguém.
[Pausa]
Tantos já passaram pelas vidas de tantos outros que ninguém percebe. Todos os anos vários professores passaram, ensinaram uma coisa ou outra que quando a vida da gente avança a gente nem mesmo se lembra que foi aquele ou aquela professora que nos ensinou isso ou aquilo que para o professor é banal, não é mesmo? Eu não estou fazendo nada de errado. Eu preciso preservar o que é importante para mim e para meu namorado, Peter. Nós não podemos reprovar e perder um ano a mais fazendo esse curso por conta de uma disciplina sem importância. Ética…
[Pausa]
Para que serve essa disciplina? Um ano lendo textos abstratos, velhos, que não tem qualquer diálogo com a realidade. Para que serve para eu abrir meu consultório de estética dermatológica no futuro? Em verdade só vai atrasar a minha formatura como médica. E convenhamos: uma médica tem mais peso aí fora do que esse professor. Meu trabalho será mais importante. Quem não pagaria por uma consulta com uma dermatologista estética, o preço que for, ao invés de uma aula de ética? Tecnologia! Eu vou trabalhar com a tecnologia mais avançada em medicina. Isso é muito mais importante do que uma aulinha de um professor comunista.
[Pausa]
Imagina quantas vidas eu posso impactar trazendo beleza, restaurando a autoestima das pessoas? É isso que elas querem: estética! Eu vou entregar o que elas querem: beleza, aparência! Eu vou atender pessoas famosas que vão pagar o que eu cobrar para deixá-las com beleza. Imaginem só como será poderoso o meu consultório… meu pai irá construí-lo em um bairro de classe média alta em São Paulo. Antes mesmo de me formar eu já tenho uma carteira de futuros clientes.
[Pausa]
Vocês acham que é justo eu deixar ou atrasar o exercício desse meu trabalho para fazer mais um ano de uma disciplina teórica que não tem nenhuma importância? Jamais! Eu só preciso encontrar uma forma rápida de matar esse professor… Peter e eu já decidimos que não vamos usar um revólver. Deixa muitas evidências. Vamos usar um punhal de pescaria do meu pai. Ele tem vários e não tem como saberem de onde veio. O que acham? O Peter é mais forte que o professor.
[Pausa]
Ele é gay, Peter vai chamar ele para tomar um drink, e eu tenho certeza que ele vai aceitar. Não vi nas redes sociais dele que tem namorado ou coisa assim. Apesar que esses gays são todos promíscuos, contra família, que qualquer macho com pau grande chamando para tomar qualquer coisa estão aceitando… nojentos!
[Pausa]
Eu já o vi olhando para o Peter, olhando para as partes íntimas do meu namorado foi a primeira vez que eu senti vontade de matar esse cara… Eu vi desejo nos olhos dele pelo Peter; vai merecer levar umas punhaladas! Depois que o Peter conseguir convencer ele de entrar no carro, eu estarei com meu carro logo atrás, seguindo, até o Peter levar ele para algum ponto escuro do parque do Jardim do Éden e apunhalá-lo. Vamos jogar o corpo ali mesmo no matagal do Jardim do Éden. Com toda certeza vão achar que foi algum ataque homofóbico.
[Pausa]
Já posso ver as notícias nas mídias: “professor é morto no matagal do parque do Jardim do Éden pelo ataque de algum maníaco”. Imagino o rebuliço da militância LGBT sei-lá-o-que-mais fazendo barulho, protesto pela cidade: “Roger vive!”, “justiça para Roger!” Ninguém nunca vai desconfiar de nada! Gay está sempre se metendo em apuros por aí. É o país que mais mata veado e travesti no mundo: quem vai achar que fomos nós? Ninguém! Nós somos ricos, brancos e heterossexuais: quem vai desconfiar de nós? Peter é filho de norte-americano! Isso sim é ética, não essa baboseira que ele ensina nas aulas dele, nós só precisamos arrumar um álibi. Cinema? Não, detesto, teatro muito menos. Coisas inúteis.
[Pausa]
Onde a gente disser que estávamos vão acreditar. As pessoas acreditam em tudo que o presidente da República diz com a maior cara lavada; estou mentindo? Não agora. Estou sendo pela primeira vez sincera e verdadeira.
[Pausa]
Está tudo decidido. Vai ser ainda hoje. Vamos matar o professor Roger ainda hoje. Será que ele tem família? Quantos amigos? Quem poderá reclamar o sumiço dele? Quanto tempo levarão para descobrir o corpo dele no mato do Éden? Quem vai reclamar por ele? Isso não será problema nosso. O que tem que resolver logo é a nota não ir para o sistema e nós constatarmos como reprovados na disciplina. Será que esse veado já lançou essas merdas de notas?
[Pausa]
Acho que não. Ouvi hoje ainda na universidade, antes de sair de lá, que o clima na sala dos professores não estava nada bom. Era semana de demissões de professores e alguns haviam sido demitidos ao terminar o semestre. O nosso azar era que o professor Roger não tinha sido demitido. Azar, azar! O que precisa ser perfeito é esse cara morrer e essas notas não irem parar no sistema. Vamos ganhar um tempo até constar qualquer coisa. Vão ficar por uns dias igual umas baratas tontas na universidade. É o tempo da gente conseguir descobrir quem será o professor substituto e a gente conseguir convencer a não lançar essa reprovação.
[Pausa]
Uma ideia é tentar aproveitar essa confusão e tentar roubar os documentos do professor Roger para que nessa história toda nossas notas não sejam contadas. Para isso, o Peter tem que atrair o professor Roger com o material. Como ele pode fazer isso? O Peter vai ter que ir até a casa dele. A abordagem do professor Roger pelo Peter terá que ser na casa dele. É isso! Nós o matamos lá e depois desovamos o corpo lá nos matos do parque do Jardim do Éden! O professor Roger não vai resistir à investida do Peter; vai ser fácil de convencer. O Peter será perfeito, pois o professor Roger não está desconfiado dele. Nem cheguei a falar do Peter. Não consegui. Aquela besta já havia me dado toda uma lição de moral na base do comunismo…
[Pausa]
Comunista do caralho! Essa gente precisa ser eliminada da face da Terra! Eu vou fazer um favor para o mundo. Apesar que naquela sala dos professores o que mais tem é comunista. Meu Deus! Cheio deles. Vai ser uma choradeira imensa quando descobrirem que o colega comunista deles partiu para uma melhor. Já imagino a professora Vera de anatomia humana fazendo discurso emocionada; já imagino o coordenador do curso criando uma placa de homenagem ao professor Roger como exemplo de homem reto, ético e dedicado à “preciosa educação brasileira”.
[Pausa]
Bando de idiotas! Dá até uma náusea de pensar nas bobagens dessa gente! Vão gastar o pouco que ganham comprando flores, coroa de flores para esse inútil. Essa gente pensa que é rica? Não ganham nem cem reais por hora-aula, menos que uma consulta que eu vou dar no futuro, e vão gastar dinheiro com flores. Eu preciso pensar rápido em como e em quem vou me aproximar naquela faculdade para tumultuar esse fechamento de ano letivo e não constar como reprovada. Eu e o Peter nós somos importantes demais para perder tempo com uma reprovação: nossos nomes foram o passado desse país infeliz e nós agora somos o futuro…
Cena III – Sala de aula da universidade
Virgínia entra na sala de aula vazia. Há algumas cadeiras e mesas. Na frente da sala, há a mesa do professor. É uma mesa tão grande que Virgínia sobe nela. Ela vai caminhar pela mesa, deitar e rolar o tempo todo da cena. É o lugar de domínio dela
VIRGÍNIA
Pra quer ler a porcaria dos livros do tal Paulo Freire?
[Pausa]
Eu odeio ter que estudar. Eu quero logo meu diploma para ganhar dinheiro. Para que ficar aprendendo todas essas coisas que eu não vou usar?
[Pausa]
Ética… para quê? Tudo teoria que não se aplica. No dia a dia é contabilizado o dinheiro que os clientes, ops, os pacientes, vão me pagar. Ou essa universidade pensa que eu vou querer atender gente pobre em hospital de periferia?
[Pausa]
Jamais. Eu quero me formar médica para atender gente rica.
[Pausa]
Olha isso! Olha o que esse cara quer que a gente fique lendo para fazer uma prova ridícula. Eu coloquei qualquer coisa na primeira prova e por isso esse veado quer me reprovar.
[Pausa]
Ele não vai conseguir me reprovar porque eu não li a porra de Platão, de Aristóteles… Paulo Freire!!! Eu li cinco páginas do tal Pedagogia do oprimido e me deu sono. É só vitimismo de ponta a ponta naquela porcaria. Só está pobre nesse país quem não quer trabalhar, como essa gente toda que quer ficar pendurado nos benefícios do governo.
[Pausa]
Eu não vou ler nenhum desses textos. Esse cara vai morrer antes de eu ter que fazer qualquer prova dessas bobagens todas. Quando eu o estiver matando, eu quero olhar nos olhos dele e fazer ele se arrepender de ter me feito ler Paulo Freire. O último suspiro que ele vai dar será sentindo o gosto amargo de me ter feito ler essas porcarias.
[Pausa]
Se ele quiser me envenenar com o “amor freireano”, eu vou devolver o meu fel na ponta do punhal para ele morrer se arrependendo. Eu preciso colocar as mãos na massa, no sangue, na carne dos corpos. Um médico é isso. Quem vai escutar reclamações dos pacientes é a enfermagem.
[Pausa]
E essa universidade vem com esse papo furado de interdisciplinaridade, de empatia e humanização na educação. Tudo bobagem, ninguém aprende nada. Olha a educação básica desse país! O que o povão precisa é aprender a ler, escrever e fazer as contas básicas. O governo gasta uma grana enorme com disciplinas que não têm nada com a vida prática, como história e filosofia, e aí criam pessoas como esse professor maldito que quer me reprovar porque não leio essa porcaria de filósofo “patrono da educação brasileira”.
[Pausa]
Eu quero que se foda. Por conta dessa porcaria toda eu vou ter que sujar minhas mãos com o sangue desse cara. A filosofia nunca deixou ninguém rico nesse país. Educação só serve se for para deixar as pessoas ricas. Do resto só serve para formar militantes de direitos humanos, mas os direitos devem ser para humanos direitos, isso sim, e não para bandidos e desocupados como esse pessoal de universidade.
[Pausa]
E, pelo lado positivo, será que a morte desse professor vai dar uma lição nessa galera? Quem sabe assim vão trabalhar e parar de ler Paulo Freire…
Cena IV – Sala de jantar da mansão da família de Virgínia
É noite, a noite do crime. Há uma mesa grande de 12 lugares. Está pronta para um jantar refinado. Uma ponta da mesa está marcada para o pai, Josué, de Virgínia e a outra ponta fica a mãe, Estela. Virgínia entra na sala de jantar. Está tensa e ao mesmo tempo feliz, radiante
VIRGÍNIA
Um jantar lindo, luxuoso.
[Pausa]
Olha esses detalhes: luxo puro! Olha o brilho que esses objetos emanam. Olha essa casa. Como eu amo tudo isso. Eu não vou perder nada desse privilégio. Não vou perder nada disso por conta de um professor sem noção e de vida pequena.
[Pausa. Olha para a cadeira vazia no lugar do pai]
Eu vou ser uma médica que você terá muito orgulho de mim; famosa! A sua menininha, que não erra e nunca vai errar, que vai ser muito famosa como médica.
[Pausa]
Você lembra quando eu era pequena e você dizia que eu era sua princesinha?
[Pausa]
A princesinha do seu castelo?
[Pausa]
Tudo era para mim. Você me dava tudo que eu queria, e eu queria muito. Eu quero, ainda, muito. Eu quero o mundo para mim.
[Pausa]
Você disse que me daria o mundo se eu fosse uma boa garota. E eu sou uma boa garotinha, não sou, papai?
[Pausa. Olha furiosa para a cadeira da mãe]
Mesmo quando você decide atrapalhar tudo! Se meter em tudo! Querer tomar o que é meu de direito!
[Pausa. Volta a olhar para o lugar do pai]
Eu lembro quando você me deu um peixinho dourado. Ele era lindo. Eu fiquei por horas olhando vidrada para ele dentro daquele aquário pequenininho, a luz daquele dia de sol deixava ele ainda mais dourado. Parecia uma pequena pepita de ouro.
[Pausa]
Igual à primeira pepita de ouro que você me deu quando eu completei quinze anos. Está lá no cofre do banco. Sempre quando eu quero me sentir poderosa eu vou até lá só para sentir ela na minha mão, entre meus dedos.
[Pausa]
Em verdade, papai, aquele peixinho dourado foi a primeira pepita que eu senti na minha mão. Eu o tirei de dentro do aquário e senti ele na palma da minha mão, tentando respirar, tentando puxar ar, até eu fechar aos poucos os meus dedos e apertá-lo bem forte até sentir ele virar uma gosma, vermelha, escorrendo entre meus dedos…
[Pausa]
Que poder eu senti ali…
[Tira de dentro da bolsa o punhal]
É a mesma excitação que eu estou sentindo hoje. Queria ter tido tempo de ir ao banco para sentir aquela pepita de ouro entre meus dedos antes de cravar o punhal no coração daquele miserável. E tiveram outros peixinhos dourados. Você nunca entendia o porquê de eles sumiam rapidamente. Era um atrás do outro.
[Pausa. Raivosa, para a cadeira do lugar da mãe]
Até você contar para ele que havia descoberto o que acontecia com os peixinhos dourados! Você nunca gostou de mim. “Você é uma menina sem graça, minha filha”, “você não sabe se vestir, Virgínia”, “você não vai despertar o desejo de nenhum homem na vida desse jeito, minha menina”, “olha esse cabelo, nem parece de mulher”, “você não puxou nada a mim, querida”, “você não é bonita, Virgínia”, “você é um nada!”
[Pausa. Volta a olhar para a cadeira do pai]
Eu não queria ter seu sangue, em verdade. Sangue nordestino, de retirante, sem prestígio…
[Pausa]
Eu tinha vergonha na escola de dizer que seu nome era Josué. Nome de pobre, de gente ralé.
[Pausa. Vira-se para o lugar da cadeira da mãe]
Já o seu dava um orgulho: Estela! Nome que soa bem no ouvido. É a única coisa que me faz ainda te chamar de mãe: pelo nome que me soa bem no ouvido.
[Pausa]
“Você nunca vai ser ninguém na vida, Virgínia”, “você nunca vai chegar a ser nem dez por cento do que eu sou”. Eu sou capaz de coisas grandiosas, mamãe.
[Pausa]
Há coisas tão grandiosas que sou capaz de fazer que não vão te deixar orgulhosa, mas vai fazer você ter medo de mim. Se você não vai me amar pela beleza, vai me temer pela coragem.
[Pausa]
A coragem foi a única coisa que escapou de você triturar em mim. É essa coragem que me trouxe até a noite de hoje.
[Pausa]
Em verdade, você foi uma má estrategista, mamãe: não matou o mais potente, a coragem. Deixou-a circular livre dentro de mim como água corrente. Eu a sinto nas minhas veias, correndo, em velocidade máxima. É um poder inimaginável e que você subestimou.
[Pausa]
É essa energia da coragem do meu peito que vai fazer eu levantar esse punhal, custe o que custar, para eu ter o que me é de direito, meus peixinhos dourados que eu tinha prazer em esmagar. [pausa] Você não tinha coragem de esmagar os peixinhos, não é mesmo? Você, pelo contrário, tinha o prazer de me esmagar, o seu peixinho dourado, com palavras.
[Pausa]
Palavras que eram como dedos se fechando e me espremendo até eu virar uma massa gosmenta na sua mão.
[Pausa]
Mas eu sobrevivi porque você não esmagou a minha coragem.
[Pausa. Vira-se para o local da cadeira do pai]
Que eu junte a coragem que me sustentou com o seu amor e me ajude a ter a mão bem firme e forte para tirar do meu caminho aquele verme; que não me falte nada, que nada me pare, que minha mão não fraqueje, que eu esmague mais esse peixinho dourado…
[Pausa. Vira para o lugar da cadeira da mãe]
“Essa menina não presta”.
[Vira para o lugar da cadeira do pai]
“Deixa de implicância com a menina, Estela”.
[Vira para o lugar da cadeira da mãe]
“Ela matou todos os peixes, Josué!”
[Vira para o lugar da cadeira do pai]
“Ela só estava brincando, Estela”.
[Vira para o lugar da cadeira da mãe]
“Ela fez por prazer!”
[Vira para o lugar da cadeira do pai]
“Ela é só uma criança!”
[Vira para o lugar da cadeira da mãe]
“Uma criança que sente prazer por matar um animal, Josué!”
[Pausa]
E quem não tem prazer em ver a queda do outro?
[Pausa]
Todos os peixinhos tinham nome antes de morrer. Eu fiz questão de colocar nome neles. Eu queria que soubessem, de alguma forma, que existiam e tinham importância para mim, que de alguma maneira existiram em linguagem. Era só isso que podiam fazer antes de serem um nada.
[Pausa]
O professor é um nada. Tem nome. Tem profissão, mas não tem importância.
[Pausa]
Não tem importância alguma! Quem vai se importar com um professor? É igual à minha mãe: não se importava com os peixinhos que eu esmagava; enfim, mas era o que eu podia representar.
[Vira para o lugar da cadeira da mãe]
Quantos peixinhos foram? Nunca soube responder, porque não se importou. O professor Roger será mais um peixinho…
[Pausa. Vira para o lugar da cadeira do pai]
Se tudo vier à tona, eu ainda serei apenas a sua criança? Você vai me defender?
[Pausa]
Eu não estou fazendo nada mais do que colocar a única coisa que me resta, que é a coragem. Uma coragem agora indomável e que quer ganhar o mundo! Sai do meu corpo sem que eu perceba, está ganhando lugar no mundo, é o que eu posso produzir, é o que você me deu, entende? Foi o seu amor que me deu essa coragem. Me deseje sorte hoje. Eu não posso controlar a sorte, eu não posso comprar a sorte.
[Pausa]
Eu quero a sorte só para mim essa noite: a sorte dos corajosos sem limites…
CENA V – Local do crime: o parque jardim do Éden
É um cenário neutro. O imaginário para essa cena é que seja alguma parte do parque (fictício) do Jardim do Éden, próximo a um matagal no qual Peter está deixando o corpo do professor Roger, o qual Virgínia e ele acabaram de assassinar. Entra Virgínia com o punhal ensanguentado na mão
VIRGÍNIA
País de miséria: quase sou vista por um mendigo. É essa miséria humana por todos os lados. Todos os cantos dessa cidade há essa gente pelo chão. Pedindo, intimidando. Não se pode mais tomar um copo d’água em paz que logo vem pedindo. É fruto da corrupção nesse país que leva essas pessoas a não quererem trabalhar e viver de trocados do governo. Essas pessoas se vendem por qualquer trocado, qualquer esmola dada pelo governo. O governo? Adora esse tipo de pessoas, levam no cabresto, tem voto garantido por conseguir dominá-los. Não querem trabalhar, querem vida boa, vida fácil, mamar nas tetas do governo. Vão trabalhar! Vão estudar! Estudar? Querem universidades públicas, querem bolsas de estudo! Ninguém quer se esforçar. Querem educação de graça, tudo de graça. A universidade é para quem merece, quem se esforça, estuda, passa no vestibular e não para quem se faz de vítima. O sol nasce para todos da mesma maneira. Por que não se esforçam para conseguir seu lugar na sombra? Só querem saber de festas, carnaval, feriados. Só há feriados nesse país. Não sei por que tantos feriados. Nos EUA têm poucos e todo mundo se esforça por lá. Aqui só pensam em leis trabalhistas. Vai falar algo assim para as empregadas domésticas agora: viram feras, vomitando “direitos, madame”. Nem falar certo sabem. Ninguém mais sabe o seu lugar. Petulantes, reclamam de tudo. Escoria de pretos, bichas, índios! Atraso do país! Cansei…
[Pausa]
Onde está o Peter? Que demora para desovar o corpo desse cara. Nós combinamos que jogaríamos o corpo em alguma vala no meio da mata, mas não precisava ser tão profunda. O corpo precisa ser achado para o plano dar certo.
[Pausa]
Peter, onde está você?
[Pausa]
Eu mesma teria arrastado o corpo do professorzinho para o mato se o infeliz não fosse tão pesado. Espirrou tanto sangue que sujou a minha roupa. Não tive nem tempo de limpar…
[Pausa]
O idiota não resistiu quando Peter o chamou para o drink pegando na rola dura. Não pensou duas vezes e já entrou no carro. Ali eu já estava escondida no banco de trás. Foi numa fração de segundo que desacordei ele com um pano com éter e não sei como tive força para puxá-lo para o banco de trás.
[Pausa]
Eu dei as primeiras punhaladas, Peter continuou. Perdi as contas quando ele deu o último suspiro. [Pausa] Agora é esquecer isso e focar no semestre concluído. Chega de preocupação! Isso estava me matando. Vida que segue!
[Pausa]
Peter, você está demorando… Eu tenho medo de que alguém nos veja. Já quase fui abordada por um mendigo que perambulava pela rua. Escondi o punhal atrás de mim, mas eu percebi nos olhos dele que ele havia notado o sangue em mim.
[Pausa]
Mas por que me preocupo: é só um mendigo, bêbado, que não tem onde cair morto. Se falar alguma coisa ninguém vai acreditar. Quem vai acreditar na palavra de um morador de rua ao invés da palavra de uma estudante de medicina? Minha voz tem mais peso, com certeza…
[Pausa]
Peter, é você?
[Pausa]
Eu não consigo ver nada, está tudo muito escuro. A noite está assombrosa.
[Pausa]
Eu não consigo nem sentir medo, nem um arrepio na espinha. O que era para ser feito, nós fizemos para garantir o que era nosso. O professor Roger com certeza está bem melhor que qualquer um de nós agora. Era outro miserável, salário de fome. Vai estar melhor que os colegas.
[Pausa]
só vi pavor nos olhos do Peter. Ele não é feito de coragem, é feito de desespero e isso atrapalha. Deve estar desesperado na mata, por isso a demora. Já deve estar batendo o arrependimento. É fraco no fundo. Fraco de coração. É apaixonado por mim demais. Não questionou a minha proposta, foi aceitando, foi aceitando… Mas como não aceitar? Não havia saída: ou era isso ou a perda dos nossos privilégios. Antes isso que eu perder o que é meu de direito.
[Pausa]
Na verdade, eu queria era fazer isso com todos esses miseráveis. Eu queria uma cidade mais bonita, queria tudo muito bonito, como em um conto de fadas. Tudo muito limpo, de cristal. Eu não suporto esse cheiro de mijo, essa poeira cinza impregnada na arquitetura, as pessoas fedidas. Eu quero a beleza dos contos de fadas. Eu quero o perfume dos castelos. Eu quero um príncipe encantado…
[Pausa]
Eu não quero lidar com a miséria, com a fome, com a miséria humana.
[Pausa]
Minhas mãos estão sujas com o sangue desse comunista miserável. Que todos esses parasitas do Estado morram! Que só pessoas lindas, limpas possam ter o direito de estar no mundo.
[Pausa]
Peter, por que demora tanto?
[Pausa]
Quem mais está aí com você?
[Pausa]
Por que você não volta logo?
[Pausa]
Essa espera é mais assustadora que o que fizemos.
[Pausa]
Eu não suportaria ser abandonada sem motivos.
[Pausa]
Por que não vem logo para irmos para um restaurante?
[Pausa]
Fome, sim, sinto fome. Uma fome imensa me tomou nos últimos minutos. Eu comeria um boi inteiro, cru…
[Pausa]
Acho que nunca conseguiria dormir mais de tanta agitação. Não é culpa. É agitação, tremor de emoção.
[Pausa]
Que emoção é essa que me toma o corpo? Parece que irradia e me sinto enorme como uma estátua de um Cristo Redentor no topo de uma montanha, do mundo! Me sinto poderosa…
[Pausa]
Venha logo, Peter! Quero fazer amor com você.
[Pausa]
Um amor bem romântico. Eu sinto que te amo. Eu quero sentir você dentro de mim, me tomando inteira. Vem se satisfazer em mim. Eu te amo e isso eu não posso e nem consigo mentir agora…
[Pausa]
Já menti sobre antes. Agora só sinto que quero você por cima de mim, depois que eu te seduzi.
[Pausa]
Diga que sou sensual, diga que você me deseja, que você tem atração por mim, que eu sou a única mulher que você ama e deseja nessa sua vida medíocre.
[Pausa]
Vida que você tem emoção apenas por minha causa: eu sou a rainha da sua vida, já não sou mais a princesinha do papai: agora eu sou a rainha, sou sua rainha! Nós podemos ter o mundo aos nossos pés, na nossa monarquia. Nos livrar dessa gente horrorosa, feia, suja e desprezível!
[Pausa]
Escutei algo. É você, Peter?
[Pausa]
Por um instante eu parecia ter ouvido o último gemido do Roger novamente. Eu acho que nunca vou esquecer esse som…
[Pausa]
Quem está aí? Quem está aí? Peter não me assuste. Venha me buscar desse lugar. Eu estou começando a sentir medo. Medo de ser descoberta. Não foi isso que combinamos, que planejamos. Venha logo para a gente aproveitar nossa vitória pelo fim do nosso ano letivo. Logo será a nossa vitória por ser formados.
[Pausa]
Será que dará tempo de eu chegar ainda no jantar que meus pais estão oferecendo em casa para os amigos? Como eu vou chegar vestida? Minha roupa está suja de sangue. Eu preciso pensar nisso para o meu bem.
[Pausa]
Peter, vamos embora? Eu não quero mais ficar aqui. Eu quero ver a vida continuar, a minha vida vai continuar, eu tenho um futuro. É o Roger que não tem mais. Eu fico feliz que não terei mais que ouvir as bobagens das aulas dele. Eu acho que muitos vão ficar. Outros vão protestar: “uma voz da educação que se calou”.
[Pausa]
Ainda bem. Esse país precisa calar essa gente antes que esse país vá para o buraco.
[Pausa]
Gente violenta…
[Pausa]
Peter, eu tenho fome. Quero um hambúrguer… Vamos… vamos…
CENA VI – Delegacia de polícia
É um cenário neutro com apenas uma cadeira e uma mesa de escritório dando a ideia de uma sala de delegacia, uma sala de interrogatório. Virgínia já está na sala. Está detida como suspeita pela morte de Roger
VIRGÍNIA
Como eu poderia fazer isso, doutor? Eu sou cristã. Fui criada em uma família que segue e prega o Evangelho. É Deus acima de tudo.
[Pausa]
Está havendo algum engano sério. Como a palavra de um mendigo pode ser mais forte que a minha?
[Pausa]
Ele disse que me viu com um punhal na mão cheio de sangue e próximo ao local que o corpo foi encontrado. Vocês vão acreditar em um morador de rua?
[Pausa]
Ele não é um morador de rua?
[Pausa]
Ele é um professor que estava indo para o ponto de ônibus depois do trabalho…
[Pausa]
Mas ele estava mal vestido, com uma mochila nas costas, me olhou com olhos de pedido.
[Pausa]
[pausa]
Na verdade, eu estava lá passeando; isso, passeando. Eu não aguentaria o jantar para os convidados chatos que meus pais iriam receber naquela noite. Eu sempre amei andar pelo parque do Jardim do Éden à noite. É um lugar animado, há muitos gays ali, é um lugar divertido.
[Pausa]
Se ele é professor também vocês já perguntaram para ele se não foi ele quem matou o colega? Esse pessoal é muito conflituoso entre eles, vivem brigando. Veja o sindicato dos professores. Um inferno! Não dá paz! Cada semestre é uma greve diferente. Esse pessoal é perigoso, doutor! Professor é uma raça perigosa! Averigue, investigue! Ele deve ter sabido que uma estudante do meu nível foi trazida para ajudar nas investigações; sim, eu estou só ajudando nas investigações, não é mesmo, doutor? E deve ter vindo se vingar. Eles sempre acham que são vítimas, que nós somos as pessoas más que não valorizamos o trabalho da educação e todo esse blá-blá-blá.
[Pausa]
Você sabia, doutor, que a empresa do meu pai faz doações, não sei ao certo de quanto, para ajudar umas escolas lá da periferia, não sei onde, para as crianças comerem melhor na merenda? Você sabia que eu estou com planos, quando eu me formar, de disponibilizar uns horários no meu futuro consultório para atender as pessoas carentes? Sim, haverá isso no meu consultório, doutor. O social é muito importante. Você sabia que quando eu tinha dezoito anos, nas minhas férias do primeiro ano da faculdade de medicina, eu fui fazer um trabalho voluntário, missionária, na África. Foi no Quênia, mais precisamente. A África é muito grande e muito cheia de miséria. Foi excelente! Eu me senti muito purificada de ter feito esse trabalho de amor. A caridade é muito importante para mim. Veja as fotos nas minhas redes sociais. Foram as que tiveram mais engajamento nos últimos anos, acredita?
[Pausa]
Como eu posso ser a suspeita de matar a punhaladas um professor de ética, doutor? Meu professor querido, genial! Qual o motivo que eu teria para matar um professor que é tão importante para a sociedade?
[Pausa]
Como é? Peter já confessou na outra sala?
[Pausa]
Confessou o quê?
[Pausa]
Ele está mentindo, doutor! Está mentindo! Eu ameacei terminar o namoro com ele e está me colocando nessa enrascada.
[Pausa]
O que ele está dizendo?
[Pausa]
Imagina que eu planejei e matei o professor Roger porque estava com medo de perder os cartões de crédito da minha mesada do meu pai, que loucura! Isso lá é motivo de alguém matar um professor nesse país? Professor vale muito, doutor!
[Pausa]
“Vale tanto que você matou para continuar com seu dinheiro…”, que fala acusatória sem fundamento, doutor… Eu sou inocente. Tudo que ele está dizendo é mentira de um homem ressentido.
[Pausa]
Eu sou uma mulher que sofre machismo e misoginia, sabia, doutor? Peter é um homem violento! Eu sou vítima de violência doméstica. Já me bateu várias vezes.
[Pausa]
Investigue, que eu participo do grupo de feminismo na faculdade, eu tenho lugar de fala para dizer que sofro violência desse homem. Agora eu estou sofrendo mais essa.
[Pausa]
Como estão as redes sociais com esse caso, doutor?
[Pausa]
Não se fala de outra coisa: “os estudantes que mataram o professor para continuar passando o cartão de crédito do pai”. Que horror! Isso é calúnia e difamação desse pessoal de esquerda nesse país, doutor. É a esquerda maldita que está criando fake news. São invejosos, não suportam ver pessoas que cresceram na vida trabalhando e ganham seu dinheiro honestamente. Por que eu não posso ser rica, doutor?
[Pausa]
Cadê meu pai com meu advogado?
[Pausa]
Está hospitalizado depois da notícia que vim para a delegacia sob suspeita…
[Pausa]
Meu Deus, tudo isso vai destruir minha família, nosso patrimônio! Acusações sem sentido, eu vou provar minha inocência.
[Pausa]
Então, o Peter disse que fui eu que dei todas as punhaladas? Que fui eu que tive a ideia de matar o professor Roger para tentar impedir a nossa reprovação na universidade?
[Pausa]
Vocês já acharam o punhal…
[Pausa]
O tal professor já me reconheceu…
[Pausa]
Vocês já encontraram minhas roupas com sangue na apreensão na minha casa…
[Pausa]
O Peter já confessou a participação no assassinato do professor Roger…
[Pausa]
Eu estou presa! E cadê meu advogado? Cadê a ajuda da minha família?
[Pausa]
A única que está aqui é a minha mãe? Ela me detesta, doutor! Não acredite em nenhuma palavra que ela disser sobre mim. Eu venho de um histórico de abuso infantil por essa mulher, sim, é verdade doutor.
[Pausa]
Ela disse isso? Que eu devo apodrecer na cadeia…?!
[Pausa. Depois, Virgínia fica transtornada]
Quem ela pensa que é? Vai me deixar aqui e aproveitar de tudo que é meu lá fora? Jamais! Tudo isso é meu! Todo esse dinheiro é meu! Eu não fiz tudo isso para ela ficar com meu dinheiro.
[Pausa]
Sim! Quer saber mesmo, doutor? Eu matei esse infeliz desse professor idiota porque ele não quis aceitar cinco mil reais para mudar minha nota e me aprovar! Eu não sou uma idiota, eu sou uma menina inteligente. Eu não sou burra de perder meu dinheiro para esses idiotas parasitas do governo! Matei mesmo, punhaladas bem no coração! Depois o Peter arrastou o corpo para dentro do matagal e deixou lá. Gostou de saber, não é mesmo?
[Pausa]
Quem é ela para dizer o que deve acontecer comigo? Vir aqui me ver na delegacia e tripudiar de mim. Eu não sou fraca, não, doutor. Fazer isso é para pessoas fortes e não fracas como ela. Pode dizer isso para ela lá fora!
[Pausa]
A menininha fraca dela é uma mulher corajosa e poderosa! Coisa que ela nunca foi e não será às minhas custas.
[Pausa]
Deus irá me perdoar pelo que fiz. Ele, sim, sabe que fiz por uma causa maior. Qual igreja não tem ex-assassinos? Eu serei mais uma que logo ninguém vai lembrar do que eu fiz, mas eu sim lembrarei do que fiz.
[Pausa]
Lembrarei da coragem que é fazer algo para defender o que se quer na vida. Isso é mérito, doutor! Que mérito essa fulana tem na vida além de ter sido uma sanguessuga do meu pai a vida toda? Que mérito tem esse professor morto para querer ser símbolo de “luta e resistência”? E esse professor que me viu lá próximo ao matagal, vai virar herói de toda essa gente…
[Pausa]
O herói da educação brasileira. Patrono da educação! O que ele quer é um busto na porta da faculdadezinha que ele dá aula, isso sim, e às minhas custas, como toda essa gente vive às nossas custas nesse país. [Pausa] Esse país está afundando com a toda essa violência.
[Pausa]
Eu ainda terei a minha voz ouvida, doutor…
[Pausa]
Quando eu me formar médica eu vou ajudar esse país a ser melhor, você verá, serei deputada, senadora ou até mesmo presidente desse país…
[Pausa]
Eu estou exausta. Agora que vocês tiveram tudo que queriam de mim, eu posso tomar um café?