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Quatro poemas melancólicos

Edvard Munch, "Melancolia" (1891)
Coleção privada

Lucas Medeiros

Eu sou como a chuva

Eu sou como a chuva
que sobre meu teto cai, 
triste como a viúva
cuja dor nunca se vai…

No cinza céu nublado 
eu a mim mesmo vejo.
Quando estou deitado,
lacrimejo sem pejo.

Eu caminho sozinho 
tristonho na amplidão,
em meu fraco coração
há apenas burburinho.

Maciças massas de ar,
uma fria e uma quente,
chocam-se! De repente,
o céu pôs-se a chorar.

As trovoadas são choro 
de minha pobre alma 
lágrimas formam coro,
meu rosto mostra calma.

Árduo desassossego,
ao qual nutro apego,
já que de mim ele não sai.
Eu sou a chuva que cai

e o descontrolado
manancial que lento 
flui do desalento
do poeta atormentado.

Eu sou como a chuva
que sobre meu teto cai.

A luz se apagou

Calmo, aprecio o concerto,
até que sinto um aperto.
Uma corda triste se parte
e faz chover escarlate.

De repente, o ar se rompeu, 
tempo e espaço parados,
o ambiente escureceu,
o compasso foi quebrado.

Um caixão surge exposto,
no centro do palco posto,
e as cordas do destino 
juntam-se às do violino!

Seguem seu próprio desejo
e nos desolam sem pensar.
Aproximando-me vejo 
quem no caixão ali está.

Seu rosto tísico jazia
contrastando com a sua feição 
bem risonha do dia a dia –
reflexo de um bom coração.

Percebe-se em sua expressão
palidez de um moribundo 
e a paz convicta de um cristão,
voou para fora do mundo!

Tudo se esvaziou, então
ao pó da terra retornou,
cinzas caíram pelo chão 
e a luz assim se apagou.

Sei que o verei novamente,
das cinzas ressuscitará
junto de todos os crentes
quando o último dia chegar!

Na minha rua há um menino

Na minha rua há um menino
que chora a morte do pai falecido, 
seus berros ressoam como sino, 
vejo-o: ele está esmorecido.

Suas lágrimas salgadas seguem
a sinuosa ladeira que se forma,
como trilhos metálicos de um trem,
enquanto a brisa gentil o conforta.

Na minha rua há um menino
que lamenta a infelicidade
de ter a infância, com impiedade,
pisada como mato campesino.

De repente, o pequenino
arqueia sua cabeça e os céus encara, 
vejo o forte sol nordestino
cessar o pranto que o fortificara.

Na minha rua ainda há um menino
– Ele, porém, não chora mais!

Outrora andei por aqui

Outrora andei por aqui,
vi os mesmos corredores – 
bosques repletos de vida –
que hoje corroídos estão,
prateleiras mortas vazias
como meu triste coração.

Por esses caminhos andei
com o meu pai ainda vivo.
Tanto à minha mãe pedi
o biscoito de goiabada
que encontrávamos só ali
– castelos de areia na praia.

Vou pelo supermercado
– Vejam todos! Liquidações! 
Mas onde estão as flores?
Apenas fito destruição…
Foram-se todas as cores,
resta-nos o sombrio cinza.

Tal estabelecimento
assistiu ao crescimento
do jovem que esses versos, 
em fúnebre canto, entoa
– sou passarinho tristonho
que por essas árvores voa.

Os mistérios do mercado
que nos destroem aos poucos
e avançam sobre as memórias
– este mundo é um moinho.
Saio dali rapidamente,
não aguento mais a visão.

O lugar que eu conheci
se foi, já não existe mais
e eu choro um choro baixo 
em absoluto silêncio
– com as lágrimas vertidas,
um pedaço de mim se vai.

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