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Morte palavreada

Edvard Munch, "A menina doente I" (1896)
Instituto de Arte de Chicago

Dylla Vicente

Hoje te vi através do cortinado cinza no céu. Vi teu sorriso rítmico ao falar dos afetos, teus cabelos ondulantes paliavam minha verdade.

Receio ser inútil aos detalhes, pois sobre detalhes tu eras toda maestria. Recordo-me do detalhar em verso sobre a inquietação do teu espaço…

E que saudade sinto deste versar descontrolado, deste olhar mareado que as ondas levam embora…

Falava-me de saudade sem medo da imensidão e da falta que hoje me fazes.

Falava-me da infelicidade, do rasurar desesperador que o sufixo me traz.   

Nada mais importa, não?   

Ainda que tudo seja uma contradição da contrapartida, eu te amo! 

E amor, embora substância, não passa de um substantivo, logo…

Não busque nomear as coisas. Sinta. Exista. 

Lembre-se de Sêneca e os 365 dias. Saudade é uma casa sem portas, pai.

Permeia em mim a metáfora surda que destila sem fim. Sou muito do tempo. Sou muito sem ti. Presa estou no cortinado cinza do céu e nada, nem a tua voz substantivada de lembrança, poderá me salvar da morte palavreada.   

Ficaste neste corpo transido de letras clandestinas e devo aceitar-me ser, enquanto saudosa, um prefixo infeliz para tua voz calada. 

Tempo e silêncio são os nossos abrigos demonstráveis da chuva:

Queria abrigar-me, pai. 

E tu, indispensável nome, direcionou minha angústia para tua proteção tônica, hoje enfraquecida.  

És chuva intocada na simbiose deste espaço… Longínquo, abafado.

Enquanto a chuva cai, eu queria apenas abraçar-te e, mesmo que não sintas, saiba que tu és sol, e o sol nesta memória é raio que nunca se põe.

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