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Maquiavel na aldeia

Isack van Ostade, "A parada na estalagem" (1645)
Coleção Widener, National Gallery of Art

Fernando Morato

Pra trás ficou a corte, pra trás a tortura,
o mundo, o grande mundo, pra trás a futura
breve glória já acabada da grande Florença...
pra trás ficou até a inabalável crença
nalguma providência, humana ou divina...

Existe alguma coisa, então, pra frente?
Um vórtice de história, silencioso, entre
a escolha quase cega e a fatalidade.
O que resta parece ser, na realidade,
o jogo de alguns dados que ninguém controla.

Pelas noites me visto com roupas solenes,
para encontrar meus mestres no alto do Hipocrene
e discutir sozinho co’as augustas sombras
que de longe nos chamam, guiam, nos assombram
nas das páginas dos livros, às palavras vivas...

Já de dia, muito além da solenidade,
em meio aos camponeses, longe da cidade
em ruínas, acompanho o verdadeiro jogo
que se joga na aldeia, que diverte e logo
se esquece, porque então a vida puxa à vida.

Ele não reivindica a gloriosa nobreza
ancestral do xadrez, que pretende sua mesa
um campo de batalhas só da inteligência
que controla, pondera, antecipa a iminência
do xeque e que por fim decide o movimento.

Até no tabuleiro há mais diversidade:
com mais que duas cores, a falsa unidade
do espaço se desfaz em ângulos agudos,
pungentes, sanguinários ainda que mudos,
ameaçando as peças que neles se esquivam.

No voo aleatório do futuro néscio
(semelhante ao dos átomos desse Lucrécio
que copiei à mão já faz uns tantos anos)
os destinos se chocam mas não são tiranos
de algum caminho único, fechado ou certo.

As peças se dispõem desigualmente, e então,
no momento em que os dados saltam, o gamão
se torna o verdadeiro tabuleiro-mundo
que materializa o ensinamento profundo
de que o acaso dirige a vida incerta para...

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