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Três poemas

Jasper John, "Em memória de meus sentimentos" (1961)
Museu de Arte Contemporânea de Chicago

Lucas Perito

A vida não

A vida não.
Equidistante porque forjada na memória.
Diuturnamente o corpo não
porque as casas ainda grávidas de passado alinham-se agora
e toda esquina dobra antigos rostos, ingrávidos, 
no seu deslizar por dias gastos. 
A vida não,
porque roída pelas margens.
O corpo não, 
porque mapa da desorientação em busca do invisível.
Toda noite é um ventre e os dias caem entre;
E é sempre hoje
com essa memória de casa, essa memória de mãe e essa memória menor: memória de roupa, memória de doce, memória do toque;
e é sempre hoje,
como a serpente com o corpo todo na boca 
e a polia que já não traz novidade.
Agora que os cachorros latem o dia,
o cotidiano toma de assalto os desenhos do mundo, 
a rua adentra a casa 
e na frente passa uma linha contínua que parte de lugar nenhum.
Sobra apenas um eco banal:
“quem pode encarar o futuro esvaziado de passado”?

O apaixonado

Esse desentendimento nada mais é que
a tua capacidade de me entender e ao mesmo tempo não me entender.
E isso, por motivos diversos e distantes da lógica.  
Por mais que eu espere que estabeleçamos algum tipo de comércio nesse meio tempo,
falamos de duas ausências,
como dois astros apagados, separados
dessa vida e de outra não menos triste.

Enquanto uns caminham sem intenção
a morte acaba de vestir mais um dia.

Como me sobra tempo, 
falo de uma outra ausência, agora
um ritual sobre astros e planetas,   
pois não há poema mais belo do que aquele que começa na terra e termina no espaço.

Gestos

Esses são aqueles gestos impossíveis que tanto dizem e por isso imperdoáveis.
Com punhos cerrados ganham a sorte de cada dia e
cheiram uma memória desvinculada do que ocorre.   
Já a voz necessita de eco para fincar seu lugar no espaço
e a visão vaga sem repetição para sua existência.
Então, o ouvido, que não se agarra a nada, vira túnel contínuo 
entre as coisas e seu verdadeiro sentido; 
e assim vão desordenando o mundo.

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