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História de um gato célebre

Edouard Manet, "Gato enrolado, dormindo" (1861)
The Metropolitan Museum of Art, Nova York

Antônio José Vitorino de Barros

Antônio José Vitorino de Barros (1824-1891) foi um jornalista e escritor brasileiro, poeta e prosador, além de dramaturgo. A História de um gato célebre é uma sátira política dos tempos da Guerra do Paraguai e foi publicada no periódico Semana Illustrada em 1865. Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência.

I

Em certo tempo houve um gato,
orgulho da gataria,
melhor que o melhor de quantos
pela ração hoje mia.

Era bichano polido,
tão aferrado ao asseio
que de lamber-se já tinha
a língua cava no meio.

Tinha malhas cor de havana
em pelo cor de bonina,
olhos gázeos, nariz chato,
breve boca, barba fina.

Tinha pés de jovem tigre,
cabeça e cangussú,
ventre ao lombo quase rente,
cauda de nós à tatu.

Era nobre, descendia
de gordo gato maltês,
de sorte que a ser bravio
seria gato montês.

Possuía tanto faro
que era bastante fungar
para a dez ou doze braças
camundongos farejar.

Com tais prendas e atributos,
o aristocrata felpudo
se quisesse, entre seus pares,
pudera ser rei, ser tudo.

Porém modesto, virtuoso,
modelo de probidade,
das missas de velhacadas
não sabia nem metade.

Gozava de tal conceito
entre seus concidadãos
que foi eleito eleitor
sem ligeireza de mãos.

Confiou, pelo seu voto
de muitíssima influência,
o mandato a gatos sérios,
a gatos de sã consciência.

De chapas - não tomou nada -
circulares - não as lia -
escaldado tinha medo
até mesmo de água fria.

Serviu de juiz de paz
em quadriênios seguidos,
julgou dívidas de alçada
com mais de vinte sentidos.

Exerceu a venerância
por três o quatro eleições,
não se servindo do cargo
para compra dos feijões.

Ao contrário, sempre viu
nesse lugar puro osso
e não, qual outros o atendam,
fértil mina de caroço.

Três vezes apresentou-se
candidato a deputado,
em seus méritos fundando
venturoso resultado.

Mas a pérfida cabala,
que mercadeja em segredo,
outras tantas vezes fez
com que chupasse no dedo.

Quis também ser senador,
que não é má guloseima;
a taboca foi o pago
que recebeu nessa teima.

Tesoureiro procurado
p'ra mais de uma associação,
deu contas muito diversas
das que dá grã-capitão.

Diretor de quatro bancos,
além de cinco tripeças,
nem ganhou para por tílburi
quanto mais para caleças.

Chefe de repartições,
ameno e sempre polido,
era de entre os empregados
o empregado mais querido.

Gato ladino odiava
pedantesca primazia;
detestava a violência,
tinha horror à vilania.

Cônscio de ser fabricado
da massa dos outros gatos,
ninguém o apanhou descalço
na finura de seus tratos.

Cheio de honras, de comendas,
não querendo ser barão,
deixou um dia os empregos,
foi viver em solidão.

Tendo no longo exercício
dos cargos da gataria
ajuntado documentos
de imensa patifaria;

cronista de prima força,
língua de buída navalha
contra espoliações do estado
por da cá aquela palha;

conhecendo muito a fundo
os barrigudos de então,
entretinha-os em passar-lhes
sapecas e de enche-mão.

Era a mofina do gato
a zurzir o barrigudismo,
voragem das rendas públicas,
imensurável abismo.

II

Pela imprensa vomitava
contra essa praga fatal
ondas de fel acendidas
no amor da terra natal.

Os devoristas, que são
machacazes de tremer,
juraram a todo o transe
o nobre gato perder.

Neles, que sabem tirar
azeite mesmo de pedra,
recurso uma vez tentado
é coisa que logo medra.

Ajeitaram quatro gatas
com lisonjeiros bis bis,
quatro mitradas peludas
das mais chiques do país.

Impuseram-lhes preceito
de apaixonarem o bicho,
de fazerem do pimpão
gato sapato a capricho.

Se bem o recomendaram,
elas melhor o fizeram.
Dali por diante o gato
num corrupio trouxeram.

Iam buscá-lo ao borralho,
ao telhado, onde arejava,
ao quintal, onde murganhos
por desfastio caçava.

Deram miaus derretidos,
o toutiço lhe babaram,
com as caudas as ilhargas
docemente lhe afanaram.

"Rei dos gatos, belo gato,
gato do meu coração",
miava uma após a outra
ao severo gatarrão.

"Tens um trono em nosso peito,
cetro de ouro em nosso amor,
que outros gatos solicitam
como sublime favor.

"Tuas grandes qualidades,
gato heroico sem rival,
roubaram a liberdade
de nosso arbítrio gatal.

"Anda, bichano, profere
esperançoso miau;
para quatro gatas meigas
não sejas agora mal".

"Sape! Sape! Minhas ricas",
bem inteirado da astúcia
foi a resposta primeira
que ele deu àquela súcia.

À carga as gatas voltaram
fazendo gaifonas mil
à semelhança das gatas
cá do império do Brasil.

Mas o felino Xenócrates
às quadrúpedes arteiras
continuava a dizer:
"sape! Velhacas! Brejeiras!

"Não sou gato pagodista,
já estou aposentado;
outro ofício, sirigaitas,
passem bem, sou seu criado".

As requestantes ardendo
co'a imprevista rebeldia
votaram ódio de morte
ao Newton da gataria.

De convícios o cobriram,
gato de pedra o chamaram;
de vilão, de rameloso,
até de feio o xingaram.

Vendo burlada a missão
que prometeram cumprir,
além daqueles doestos
desfizeram-se em carpir.

Reza a crônica de então
que essas quatro carpideiras
afinal envergonhadas
sentaram praça de freiras.

Barrigudos não desmaiam
em presença de um revés;
quando um plano lhes aborta
já têm em mira outros dez.

Estava em guerra o país
armada de supetão
por um estado vizinho
traiçoeiro e fanfarrão.

Contra as hordas dessa terra
a briosa gataria
tropa e bélicos petrechos
constantemente expedia.

Que mina para os pançudos,
vorazes fornecedores
e toda a casta de ratos
famintos e roedores!

Que melgueira de sapatos!
De capotes, de barracas!
De espingardas, de ambulâncias!
De cavalos, bois e vacas!

Que pechincha de baetas!
De brins, panos e algodões!
De cobertores e de outras
não faladas munições!

Dos ratos fornecedores
as panças se arredondaram
à custa dos bens do estado,
que a seu talante sangraram.

E os probos governadores
da opulenta gataria
davam-se a perros em face
de tanta patifaria!

III

Quiseram punir os melros,
mas não puderam puni-los.
A pele dos barrigudos
é lixa de crocodilos.

São tão destros na ciência
de avolumar a barriga,
têm tais lábias, sabem tantos
bonitos pés de cantiga,

que quando comem deveras
apetecido bocado,
quem lhe o deu para comer
inda lhes fica obrigado.

Era pois a quadra própria
à vingança pançudal
contra as vis mordas do gato
inesgotável, fatal.

A governança do estado,
para fiscalização,
de comissários do exército
nomeou uma porção.

Caiu a sopa no mel
do pançudíssimo feroz;
soou-lhe a hora aprazada
de cara vingança atroz.

Escreveu-se pela imprensa
que o gatarrão de espavento
para o exício dos ratos
era o melhor instrumento.

Que ele, de unhas aceradas
e de dentes muito agudos,
podia em menos de um mês
dar cabo dos barrigudos.

Que sendo bom cidadão,
grande azorrague do vício,
não devia recusar-se
a servir com sacrifício.

Que se lhes desse a patente
de comissário geral
antes que mais avultasse
o tão volumoso mal.

Todos os gatos de bem
aplaudiram a lembrança,
não supondo verem nela
armadilha de vingança.

Tocada a corda sensível
do gato - o patriotismo -,
caiu no laço ardiloso
do fero barrigudismo.

Aceitou o rude encargo,
prestes pra guerra partiu:
chegou e de ratazanas
o almíscar logo sentiu.

A inquéritos discretos
procedeu constantemente;
descobriu série de horrores
que lhe turvaram a mente.

Expediu ordens sobre ordens,
ia tudo inspecionar;
tinha o dom da ubiquidade,
estava em todo o lugar.

Nenhum camarão queria
que lhe escapasse da rede;
contra qualquer maganeira
metia os pés à parede.

Os soldados já comiam
a ração quase completa,
os doentes já saravam
com regalo de dieta.

O sulfato de quinina
sal amargo já não era;
as barracas de filó
por lona trocar fizera.

Outras muitas providências
em prol do pobre soldado
deu o ilustre comissário
com zelo e assíduo cuidado.

Ora, um gato desta têmpera
nesses tempos de ganância
não podia achar amigos
nos amigos da filância.

Se fosse agora outro galo,
então ao gato cantara:
a probidade hoje em dia
porventura é coisa rara?

Não é tal, há tantas peças
nas lojas desta fazenda
que já por meia pataca
o metro se expõe à venda.

Porém vamos ao que serve.
O severo gatarrão
era o tutú dos larápios,
dos filantes cabrião.

Prevenidos esses guelas
pelos sócios de aquém mar,
trataram de xeque-mate
ao gato implacável dar.

Formaram muitos conselhos
sobre sacos de feijões,
em barricas de bolachas
e sobre outras munições.

Por escrutínio secreto
o bicho à morte votaram,
à exceção de dois ratos,
que risco na empresa acharam.

Pra não erguerem suspeita
de seu plano abominável,
cada rato com o gato
jurou fingir-se tratável.

Quiseram inda essa vez
provar que extremos se tocam,
que o boi adora a jiboia,
e os galos raposas chocam.

O gato, à guisa do pobre
que recebe grande esmola,
andava dos ratazanas
constantemente na cola.

Mas um dia, em que fechava
a sua correspondência,
teve ao capataz dos ratos
de dar pedida audiência.

Um dize tu direi eu
em miaus e muitos guinchos,
terminou por darem ambos
em duelo irados pinchos.

Era o sinal ajustado;
ao guincho mais estridente
uma legião de ratos
cercou o gato potente.

Dentro do comissariado
houve atroz gatimurgânia,1
feitos heroicos do gato,
dos ratos teimosa insânia.

Aos dentes do herói traído
trinta ratos sucumbiram;
mas os restantes em postas
o valentão dividiram.

Morto o nobre comissário,
feito fatias delgadas,
era preciso escondê-las
e muito bem recatadas.

Resolveram devorá-las.
Com efeito as devoraram,
de sorte que do bichano
nenhum vestígio deixaram.

Inquiridos pela ausência
do virtuoso animal,
juraram todos que o viram
subir vivo ao céu gatal.

Julgou-se o caso milagre
dos numes da gataria.
Ninguém mais falou no gato,
vítima da rataria.

Apenas um monumento
muito simples se lhe ergueu,
onde a mão do pio gato
este epitáfio escreveu:

Aqui jaz quem não jazera
nesta mansão triste e muda
se tivesse tido praça
na legião barriguda.

1 Deixem passar o neologismo (N. do A.)

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