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Contra prefácios e introduções

Albert Anker, "Escritor à mesa" (1905)
Coleção privada

Jocê Rodrigues

Há tempos não leio introduções e prefácios escritos por gente que não seja o próprio autor do livro introduzido ou prefaciado. Não é soberba e, em seguida, explico de pronto.

É que me cansou o jogo de fazer quebra-cabeça com o que é paisagem inteira e de ver com outros olhos o caminho que se abre à minha frente. É como consultar um oráculo pouco confiável sobre os rumos que eu, de antemão, já me propus a trilhar.

Em sua grande maioria, introduções não são sobre a obra em si, mas sobre uma leitura particular dela, uma que pode se espalhar como vírus, infectando possíveis interpretações mais ricas, mais vistosas. E pouco importa de quem seja essa leitura particular, se de Drummond ou Saramago: ela não é minha. Não foram meus olhos a percorrer linha por linha, parágrafo por parágrafo.

Em outras ocasiões, alguns prefácios e introduções soam como a tentativa de explicar uma piada. E todo mundo sabe o quão chato e improdutivo é ouvir alguém explicar uma piada. A graça, o motivo do riso, já desvaneceu, se perdeu no ar, virou memória.

No fundo, uma tentativa falha de parafrasear o imparafraseável, de tornar explícito o que foi feito para permanecer implícito e de generalizar aquilo que é singular. Função maldita de contar segredo alheio no estilo telefone sem fio: incompleto, distorcido, ruidoso.

Por isso, concordo em gênero, número e grau quando Iain Mcgilcrhist afirma em um pequeno tesouro literário que precisa ser redescoberto, chamado Against criticism (1982), que toda crítica (principalmente aquela que analisa um livro como quem disseca um cadáver) é relativa e que apenas a obra é absoluta. E, a meu ver, o mesmo se aplica aos prefácios e introduções.

A depender das intenções de quem fez o texto que serve de abre-alas, não são oferecidas chaves de leitura (que por si só já são problemáticas), mas sim uma experiência que tranca o leitor para o lado de fora de significados mais profundos, que só podem ser alcançados com uma leitura livre de vieses cognitivos de terceiros.

Cabe apenas ao leitor, aquele que está com o livro em mãos, prestes a adentrar aquele universo particular, se embrenhar pelos labirintos que aquela experiência pode proporcionar e sair de lá movido e modificado, ou não, por ela.

Para quem considera a introdução como uma ferramenta útil, eu entendo. Juro que sim. Mas, é preciso lembrar que um livro não é uma máquina que precisa de ajustes e reparos, muito menos um corpo que necessita ser cirurgicamente aberto e estudado.

E, se você precisa mesmo dessas ferramentas, talvez, e apenas talvez, o que precise mesmo é de algum conserto seja a sua forma de encarar a experiência da leitura.

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