Invadido por flâneurs, liberdade, poesias e por Beethoven

José Rosário, "Tiradentes"

Djalma Augusto

Terminei de ler o livro da poeta Regina Vilarinhos – minha Confreira na Academia Volta-redondense de Letras -, Invasões. O seu livro é um voo sem volta e não poderia ser diferente. Como retornar depois de ler poesias quase palpáveis, irretocáveis ouvindo a nona sinfonia de Beethoven? Sua poesia é o seu estado de espírito guiado por Maria José Maldonado, imortal que se encontra no Panteão dos imortais das letras em Volta Redonda (RJ) e a poeta ocupa sua cadeira na Academia.

Sua poesia é uma ode à vida, uma escrita modernista como um apêndice de Tomás António Gonzaga. O que ambos têm em comum, se um era árcade e a escritora costura modernismo? O poeta lusitano amava Minas, Regina também ama. A poesia de Regina e de Tomás António Gonzaga é como ler O jardim das hespérides, terra mítica helênica tomada por Hércules, escrita pelo poeta coimbrã na bucólica Vila Rica (Ouro Preto) e uma geografia única. Regina nos conduz diante da beleza de Minas Gerais e leva-nos nesse paraíso para tomarmos um café fresquinho, pão de queijo e cheiro de terra molhada irrigada por Deus ou deuses da poesia. No poema “Louca”, ela escreveu:

Tento resgatar a louca que passou por mim um dia. Aquela que não me deixava cair, que ria muito sozinha e que se deliciava com o riso dos outros

Sua vontadede potência se faz presente na obra. O livro deixa bem claro que não existe uma Regina Vilarinhos, mas muitas Reginas em cada poesia drummondiana, pessoana e lispectoriana, registradas em sua pele e em cada página do seu livro. A poeta se faz presente numa linha byronista e (ou) goethiana. O poema “Coração” é um exemplo:

Explodiu dentro do peito
Sem tiro ou facada ferido, arrebentado.

Sangrou, de escorrer na calçada sujando tudo,
O malvado.

Devaneios em minha mente, invadido por um imaginário oitocentista de jovens com corações quentes, escrevendo poemas em mãos brancas e geladas e que fariam de tudo para ter a amada em seus braços, nem que fosse para um inferno dantesco ao lado do poeta romano Virgílio, indo em busca da sua “Virginia”. A poesia “Origem” é um flâneur poético na urbe:

Eu sou desse mundo,
Cidade
De um rio que volta,
Rua retorno, da escada em caracol,
Do morro laranja,
No trajeto vai e volta
Da palavra,
Da ciranda verso
E da poesia
Em volta.

Se a escrita fosse uma crônica da urbe, certamente intelectuais fariam uma literatura comparada com a escritora Júlia Lopes de Almeida, mais conhecida como Júlia do Rio (de Janeiro), e no momento a Cidade do Aço foi invadida por leveza, café perfumado, queijo minas, levando-me através da metafísica em uma mercearia no interior da terra de Drummond ao lado da turma do Clube da Esquina. Se o Rio teve o seu João, a sua Júlia e o Ruy Castro nas crônicas, temos uma poeta da ágora, maiêutica socrática como espinha dorsal e um eu-lírico esmerado.

A poeta Regina revela-se como a Regina do Rio (Paraíba), um rio cheio de vida e que deságua no infinito, assim dito pelo poeta Baudelaire. Moldada por poetas e com o seu livro apolíneo (razão) e dionisíaco (emoção), Invasões assenhora-se de casas e apartamentos com as suas poesias e uma literatura barroca contemporânea. Destarte, como os cronistas da capital fluminense na belle époque, a Regina modernista se faz presente em um tempo pós-moderno. Se não fosse assim, não seria a Regina Vilarinhos e protegida pelo seu anjo da guarda em suas orações, Carlos Drummond de Andrade.

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