Dez poemas

Gustave Doré, "O enigma" (1871)
Museu d'Orsay, Paris

Alberto Eloy

Eros

só a quem te achegas
é possível
crer-te
acontecido?

viável?

és ventura
da boa sorte
ou
cadafalso da folia?

por que te esquivas
qual franja de onda
que nunca quebra?

és profundo
mar alto
que não se navega?

os lemes de tuas flechas
incendiaram o alvo
e do coração tiraste férias?

sendo-te um
não é porventura injusto
(ou muito potente?)
acertares com uma só flecha
dois seres
antes de estarem
juntos?

por vezes tantas
não negas festas
justamente àqueles que mais
e mais intensamente
te querem?

diz-me, sorrateiro:
como não abjurar
de teu arco
e flechas?

como não abjurar
de teu arco
e flechas, se és
o maioral
neste jardim
insone?



Amor

amor, o quê e quem, vário, em ti
lhe fez, intensa, me olhar assim
daquele jeito, qual fogo, qual sílfide
luzindo a noite que jaz em mim?

de que constelação e sopro
vieste, inaudita, tua presença trazer
como se ao meio do turbilhão
um estalo de luz se fizesse alvorecer?

como pode um sol no meio da noite
um fulgor espargir eletrizante
qual chispa impossível que não se note?

e, o que fazer agora? e em diante?
como posso eu, aprendiz de amador,
ser incompleto, te sentir inteira, amor?



Ilegibilidade

texto cego
para o
instante

fogo humano
a crepitar em
silêncio

passagem veloz
da plenitude
vazia



Do silêncio

das vozes esperar
palmas
é galhardia que não
convém

aqui bate-se
palmas
com uma mão




Do sol

do amor
à flor
não há
distância

o elo é
um só
sol



Mimadinhos da estrela

violentos sabichões
não sangram
ao se "saberem"
fartamente
derramadores
de sangue



Mito da caverna II

caverna cósmica 
de respostas
sem que eu
tenha perguntado

nenhum enigma



Expansão

selvagem 
e puro
o silêncio
cicia e se
cria



Universal

simbiótica conexão 
aqui
agora

com verso
e com o silêncio
que resta e
suspeita



Do perigo de no raso nadar

quem no raso nada
e da boca pra fora fala
não se afoga em nada
mesmo que o mar beba calada

quem no fundo afunda
e da mente se se avoa
não se afoba poça imunda
de "martírios" em aço, à toa

quem no raso nada
em nada há de afogar-se
pois quem da boca pra fora
fala, nem sapo há de demorar-se

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Cavalo

“o silêncio de papai”

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