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De O cordeiro e os pecados dividindo o pão

Frederic Edwin Church, "O deserto da Arábia" (1870)
Coleção particular

Milena Martins Moura

evangelho segundo o pecador

me quero aberta em cálice e vinho e pão
            fenda rasgada de ritos

hábito deitado à fogueira
onde abrasam as peles recém-expostas

a carne viva pulsa porque viva
porque crua porque fera e primeira mulher
             serpente e desfrute

me quero imersa corpo inteiro no indevido
lambendo o caminho desviado
          com a mesma língua
          dos cânticos

o sacro e o santo
molhados da espera
com a sede dos abstêmios
e dos crédulos em desgraça

              e eu graal sacrílego
                         estou nua e disso não me envergonho

cinturão

tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte

            entranha

você viu

a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol

você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion

ombro em rigel pé em betelgeuse

as partes proibidas à mostra
faz calor 
e eu tenho sede

todos os tabus desnudados
           constelações

e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros

as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos

            entranha

todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne

έρημος

acabei de ser minha própria caravana de bichos pálidos passando sede
             acabei de ser a sede
o sino da igreja às três da tarde quando é quente
e uma brisa pouca e velha
arrasta o cheiro dos soluços
e entalha feições ao pé da boca
             para marcar as horas
acabei de meter os pés no deserto tardio
que se deita ao sol
onde vêm os pássaros procurar em vão o de beber
porque têm pés feitos para o fogo
e eu que lhes sou grande e tenho mãos com poder de morte
acabei de ser minha própria caravana de bichos pálidos passando sede
com bocas abertas para o céu
minha própria matilha de bustos de areia
           se debatendo pelo formato dos olhos
           pelo nariz de ossatura protuberante
           os lábios o de baixo maior herdado do pai
           rosto desenhado com ângulos
           orelhas desiguais
tudo isso que é meu e precisa ser mantido longe da chuva
para que não se desfaça
e de mim sobre apenas um deserto
que não sabe que tem sede

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