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Sobre Segredos de um escândalo

Segredos de um escândalo (2023)

Vincent Sesering

Em Segredos de um escândalo, Haynes busca num classicismo maneirista a exploração de uma história real de abuso. Uma professora de Seattle que anos atrás engravidou de um aluno de 12 anos. E que se casou com ele e formou uma família a partir disso.

Mas, ao invés da cinebiografia ou do drama banal baseado em fatos ou do documentário, o filme nos faz enxergar tudo por camadas de narrativa. Não é, então, uma adaptação de uma história, mas uma modificação dela contada com distância de espaço e de tempo. Não nos permitindo nunca acessar de verdade, a não ser por pistas comportamentais, a cabeça de quem está envolvido.

Um homem que não é um homem mas uma criança presa, impedida de crescer de verdade. Saltando estágios fundamentais de relação e amadurecer. Que só conheceu o convívio com pessoas de 13, 14 anos e depois se tornou um pai que tem como seus pares pessoas de 30, 40, 50. As borboletas que ele cria são um traço interessante na construção. O simbolismo. A metamorfose. Assim como a coisa de ele estar sempre no quartinho vendo TV e falando com amigos pelo celular, o que faz parecer que a adolescência está acontecendo agora junto com a dos filhos.

Mas o que mais complexifica de verdade esse personagem não vem necessariamente do roteiro. Das ideias de como ele age e do que ele fala. Fumando com o pai e com o filho. Cigarros de tabaco ou maconha. Mas sempre do jeito mais desajeitado possível. Como se fosse tudo muito novo. Como se estivesse em um período de descobertas e não numa posição de meia idade (e aquela cena de sexo…).

Charles Melton capta tudo isso e potencializa com uma concepção que vai muito além de materializar a precisão de tudo o que Haynes cria para ele, mas que traz uma concepção própria. Corporal. Comportamental. Trazendo esse aspecto de infantilidade nos atos, mas não ignorando um lado sedutor do personagem. O que é uma escolha incrivelmente provocativa para um filme que lida com um tema tão delicado.

Já ela, uma mulher que é uma criminosa mas que todos tratam como vítima, flutua entre uma certa imponência dentro de seus espaços bem delimitados, mas é caracterizada por uma fragilidade. É ela quem manda ali. Quem escolhe. Quem decide. Quem sustenta uma redoma de cristal prestes a se estilhaçar que é esse casamento.

Em um momento, o advogado dela explica para a personagem de Natalie Portman que quando abusou do menino, ela não achava que tinha feito nada de errado. Que parecia que não tinha se dado conta da perversidade da relação. E, quando Portman questiona quando essa ficha caiu, ele responde com outra pergunta: “caiu?”

Julianne Moore não tem um terço do tempo de tela do filme, mas é uma força gravitacional. Em cena e fora dela, tudo parece girar em torno justamente dessa questão. Ela sabe o que fez? Ninguém tem coragem de dar cabo desse confronto. Uma atuação completa que vai de sua cena resoluta caçando nos arredores da casa à fragilidade dos prantos exagerados porque não conseguiu vender um bolo de frutas. Passando por detalhes como a língua presa e a sua relação complexa com a atriz que quer se transformar nela.

A protagonista que parte de uma curiosidade sobre essa história, mas que quer mesmo é entender, mais que os acontecimentos do passado, a causa deles. Os sentimentos envolvidos. O tesão. Do que ela faz com que parte importante do filme também seja a reflexão do que é atuar. Do que é entregar seu corpo como um todo dessa forma. Talvez o melhor papel da vida de Natalie Portman.

Usar espelhos seria a escolha formal mais direta para lidar com isso. Além de colocar uma em relação à outra nos mesmos quadros. Em uma coisa que pudesse remeter a Persona. Além de detalhes como quando a atriz começa a imitar. Trejeitos, jeito de falar. Escolher o mesmo coquetel. Etc. Mas o filme vai além. Com planos de espelhos extremamente simples e extremamente complexos ao mesmo tempo. Numa cena, escolhendo o vestido de formatura da filha, em que Moore expressa crueldade com delicadeza em relação ao corpo da menina, a gente assiste tudo por um jogo de reflexos de um provador onde as duas se sentam lado a lado esperando a menina se trocar.

Rima que se repete. Quando uma faz a maquiagem na outra. Quando elas conversam no banheiro do restaurante. Ali a gente vê pela primeira vez uma brecha maquiavélica surgir no rosto de mármore de Julianne Moore. O olhar.

É o auge dessa ideia de unir uma simplicidade do plano a uma expressividade imensa dele. Em vez de criar um ângulo complicado na decupagem, o filme cria nessas cenas um efeito espelhado que faz com que elas estejam diretamente viradas para a câmera. Para nós. Como se ao olhar para o espelho elas não enxergassem a si próprias mas o lado de fora da tela. A realidade ao redor. Como se vigiasse o que entra e sai dessa janela que separa a ficção da realidade. Garantindo que as coisas continuem funcionando.

Concretizando uma das maiores paixões do cinema de Todd Haynes, que buscou de alguma forma sempre querer entender como, por quê, por quem essas estruturas sociais perversas e modernas se mantêm de pé.

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