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De A loja de lámen

Camille Pissarro, "Camponesa tomando café" (1881)
Instituto de Arte de Chicago

Lucas Grosso

primeira meditação

a historia não vai registrar
porque talvez não interesse a ela
mas eu vou porque eu faço parte da historia
ao mesmo tempo em que não faço tanto assim
e não adianta você vir com a sua conversa
sobre história oral e costumes da vida privada
nem com livros da mary del priore
porque os fatos que eu quero registrar
não têm muita importância
justificam-se muito pouco como história
e talvez alguma coisa enquanto literatura
             mas nesse caso você pode dizer
             com alguma razão que eu estou
             meio que plagiando o estilo da
                             marília garcia

começo dizendo que tudo começou
              pelo menos hoje 		comigo acordando
e ouvindo a lauryn hill enquanto faço
café na máquina de cafés de cápsula
e isso não tem grande importância
que fazer café e ouvir hip-hop é
algo prosaico do cotidiano
eu fiz café enquanto ralava o alho
pra por no feijão porque o almoço
precisa ser feito
sem pressa         estamos afinal de quarentena
e o mais interessante nisso tudo
talvez seja vermos como
se constrói o cotidiano durante
uma epidemia sem precedentes
em que aqueles que não conseguem
ou não precisam 		na verdade
trabalhar em campo ficam
mais ou menos dependentes de ter
algo para fazer durante o dia
(...)

porque eu não sei se a história vai
se interessar por mim
por minha rotina
pelo que foi minha vida
nesse período da doença
                  a mim interessa
para que eu lembre que
apesar dos pesares
de eu não estar conseguindo trabalhar	direito
de eu não estar com a mulher que queria
de eu não ir onde queria
de eu não poder visitar minha família
de eu não conseguir fazer qualquer ação política
eu estou vivo e eu estou tendo de alguma forma uma rotina
durante esse período de morte privação e isolamento
e de alguma forma eu estou re
				                  existindo

nós

porque a gente sabe fazer cena
criar o cenário onde
acontece uma guerra particular
colocar no silêncio
do hall do elevador
o som de tamancos mesmo quando
se está descalço
protagonistas de uma série
de tv que ninguém assiste
nós somos nossos próprios antagonistas nós somos
os roteiristas que criam o bordão a gíria
mas também o público que assiste
passivo e se influencia
a gente não tem jeito
nossos rostos no espelho nossas roupas nós somos
a solução e o defeito da nossa própria vida

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