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Carta sobre uma hipotética alegria

Bernett Newman, "Uir heroicus sublimis" (1950-51)
Museum of Modern Art, Nova York

Diego Alencar

Bom, acho que chegou a hora de revelar a todos o que venho segredando há meses.

Estou rico! – ou “fiquei rico!”, não sei ao certo, só sei que tem exclamação.

Sim, foi uma batalha muito árdua, mas veio o merecido dia da comemoração. Estou alegre. Muito alegre. Não posso negar a alegria, claro! De modo algum! Estou alegre!

Mas também não posso negar certa frustração.

Porque eu queria simplesmente dizer que estou feliz, mas isso, infelizmente, não seria possível, só porque não é de fato o que eu sinto. Eu já vivi algo da felicidade e recordo que foi bem chorada. Então, antes de definir o que sinto, prefiro pensar no quanto foi difícil viver esses meses, passando por grandes dificuldades, sofrendo-as verdadeiramente, sabendo que poderia já estar viabilizando grandes movimentos de melhoria. Teria evitado muitas angústias e gerado muitos entusiasmos se já, desde o primeiro momento, anunciasse o fato e contasse como aconteceu. Entretanto, tive muitos entraves para decidir quais palavras iria usar, e por fim pensei que ninguém acreditaria só nas palavras. Era necessário provar, mas, sinceramente, não estava em condições para exigências. Estava exausto demais. Foi tentando evitar isso que, durante esse tempo, me expus a uma certa privação sob controle e testei alguns limites.

Quantos dias nos quais, para comer o pão que o diabo amassou, eu precisava caminhar até onde Judas perdeu as botas a fim de encontrá-las em condições de uso. Era corda bamba, mas não mais em pé, tentando manter o equilíbrio, e sim agarrado com as duas mãos, dando voltas, chicoteado para tudo o que é lado, tremulando como uma bandeira num vendaval.

De nenhum modo foi em vão.

Muito importante perceber, primeiro, o quanto sou forte sem precisar me olhar no espelho e que o hábito de “falar sozinho” pode ter “diálogo comigo mesmo” como eufemismo. Além disso, foi necessário compreender o quanto as pessoas ainda tentam, mesmo sufocadas, deixar seus próprios dramas de lado e dedicar atenção a alguém que esteja vivendo qualquer terror, no caso, eu.

Só foi possível resistir tantos meses sem ser obrigado a mexer num único centavo da riqueza porque todas as vezes que eu chegava perto de tocar os “lençóis freáticos” alguém manivelava a corda novamente até o centro poço, de onde já era possível, pelo menos, enxergar a luz natural da borda, ainda que seu reflexo, lá no fundo, também estivesse bem visível. Essas pessoas serão muito bem lembradas e, certamente, recompensadas, não pela humanidade, impossível de precificar, mas por suas ações que, muitas vezes, exigiram também de suas suadas economias.

Fico aliviado em contar e fico aliviado de poder enfim escalar a corda antes de usá-la como adereço.

Por um bom tempo quase me convenci de que ali, no meio, era o ponto mais alto que eu poderia alcançar. Mas, mesmo pendurado, eu tive recursos fundamentais para pensar estratégias de subir. Nada era mercantilizável, mas funcionaram como boas ferramentas. Foi o que me fez insistir em que existia uma maneira; ainda que fosse lendária, ainda que fosse fantástica, ela nunca seria sem algum esforço. Que mesmo o sonhar era verbo, que mesmo tão lento e pouco visível, sonho era intenção, buscava ser causa e poderia ter efeito. Agora percebo o quanto é diferente enxergar a superfície diretamente da superfície. Onde “sonhar”, como metáfora não é necessário. Onde a imaginação, quando não é espontânea, brota das fontes de possibilidades intermináveis. Na prerrogativa da experiência. Na superfície, é permitido ver onde os poços e as cordas-bambas são fabricados. Dá até pra escolher trabalhar lá.

Enfim, eu poderia estar simplesmente feliz por ter acontecido, por ter ficado rico. Mas eu só consigo pensar por que demorou tanto.

Pelo menos, estou alegre! Muito alegre!

[Nesta parte é que surge o problema: não sei ao certo como terminar. Não queria algo assim com zero originalidade, pouco natural. Se bem que ainda demora para que eu possa, realmente, provar. Até lá, eu tento construir algo mais vibrante.]

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