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“Quando regresso ao lugar da infância”

Lena Auxier, "Memórias da infância" (2021)

Ana Karla Farias

Quando regresso ao lugar da infância
lembro-me das luzes amarelas
do parque de diversão
O algodão doce e a maçã açucarada
guardavam o sabor das minhas memórias afetivas

Algumas, eu perdi quando cresci
Hoje as vejo como fotografias pixeladas
fragmentos de lembranças
que me esforço para organizar
feito estilhaços de um mosaico

No parque de diversão
perdi o laço que ornamentava meu cabelo
Não sei por que
guardei essa lembrança de algo
pequeno, 
minucioso,
desimportante

Na minha imaginação pueril
confabulava que objetos perdidos
comporiam, em algum lugar,
do espaço-tempo,
um cemitério de vestígios de vida
de modo que acessá-los
seria inventariar
rastros de histórias esquecidas

Bishop perdeu o relógio,
três casas,
duas cidades lindas,
um império,
dois rios e um continente
Eu também tenho colecionado vazios
de coisas que perdi
Na mudança para o novo endereço
perdi umas fotografias,
documentos, 
um disco
dois livros
Só me dei conta dias depois

Doeu-me mais esquecer:
o cheiro do mar
aquela gota oceânica
arrepiando as costas,
o timbre da sua voz
que eu tanto gostava de ouvir
A quem devo pedir
no departamento de achados e perdidos
para reviver singular felicidade
de ouvir meu nome na sua voz?

Entre as ruínas em céu aberto
de uma casa antiga
lembrei-me de que também perdi
uma cidade que amava
aquela por onde caminhávamos
de mãos dadas
para comprar pão.

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