Carmina annae

Ben Nicholson, "1934 (relevo)" (1934)
Tate Museum

Pedro Rocha Souza

I

Em muitas medidas, 
poesia é intenção, quase nunca é ato.
O in-di-zí... ... ... ... ... ...
É que as palavras, se remordidas à boca,
se escrevinhadas manchas no papel,
não tocam o fundo das coisas mais espessas:
gioco dell’anima: dizem-me e não te dizem
In questo gioco,
se me volto a ti, sobrepesa-me o silêncio...
O in-di-zí... ... ... ... ...
L’absence de mots est si lourd qu’ell m’écrase,
quero dizer-te, contar-te; falho.
Versificar-te, sim:
mas carne alguma cab’em verso.
Versifico-te, e assalta-me
O in-di-zí... ... ... ...
Cinco sílabas resumem:
A-na E-li-za... ... ...



II

Às voltas com o teu nome... 
Como foss’ele um traço da paisagem;
como se a paisagem mesma fosse algo nele.
Cinco sílabas: entre elas, dentre elas,
uma figura inteira
o in-di-zí.... ... ...
Sim... às voltas com o teu nome,
como se fosses tu a Paisagem mesma:
sentimento distendido,
horizonte in-di-zí… … …



III

Quando Von Martius classificou os domínios vegetais, 
os nomeou segundo as dríades.
Hoje, há pouco espaço para o apaixonado
Von Martius entrever mitos gregos na classificação fitogeográfica do IBGE.

Mas quem te vê assim, An’Eliza,
contraste nínfico à Mata d’Araucárias,
compreende que há mesmo
uma dimensão poética naquilo que se estende à vista.
Que aquilo que se estende à vista
só se compreende aí...

E que os castanhíssimos dos teus olhos
interessam-me muito mais que o relevo tabular do Planalto,
quando me sobrevém
o in-di-zí... ... ... ...

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