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Alfa Serenar e o rock progressivo

Alfa Serenar

Rafael Senra

Quando o Miguel Forlin me convidou para escrever um ensaio sobre o novo disco de rock progressivo que lancei (O sereno da noite, quarto trabalho autoral do meu projeto Alfa Serenar, lançado em março de 2023), pensei em elaborar um texto que pudesse ir além do formato de “press-release” tão explorado pelos artistas em oportunidades como essas. Penso que seria mais interessante e proveitoso tecer algumas reflexões sobre o significado de lançar um disco de rock progressivo no ano de 2023. Para isso, precisaremos de alguns saltos no tempo, mas prometo que retomaremos esse tema fundamental que proponho aqui.

In the Court of Crimson King

O gênero de rock progressivo passou por muitos altos e baixos desde que surgiu em… quando foi mesmo? Algumas pessoas dizem que foi em 1967, com o disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que já trazia elementos do gênero (a saber: canções com mais de quatro minutos, desenvolvimentos temáticos que se repetem ao modo das sinfonias eruditas, letras dispostas a explorar narrativas pouco convencionais, psicodelia). Há quem diga que o pioneiro foi Days of Future Passed, também de 67, que trazia elementos orquestrais mais ousados (sem a intenção de ser mero adereço sonoro), e que parecia mais explícito na estratégia de assumir um disco como sendo conceitual. Mas eu defendo que o primeiro disco progressivo de fato foi In the Court of Crimson King, do King Crimson, de 1969, que já desenhava melhor os contornos sonoros, harmônicos e líricos de um estilo novo e emergente de rock.

Os jovens de hoje em dia – acostumados a ouvir canções sem introdução ou canções fragmentadas no TikTok, e ainda a ouvir música acelerada nessa nova moda de “speeding up” – provavelmente terão dificuldade de imaginar o significado de existir um gênero musical pautado por músicas de longa duração, com temas instrumentais igualmente longos, e que, durante pouco mais da metade dos anos 1970, dominou as paradas de sucesso.

Isto é algo que vale a pena ser dito: o gênero de rock progressivo, longe de ser um estilo de nicho, foi na verdade um dos mais vendáveis no campo da música popular. Esse ponto de vista é defendido por Eduardo Guerreiro Losso, professor do Departamento de Letras da UFRJ, que enxerga o prog rock como um prolongamento das possibilidades da música popular. Ao lado do jazz, Losso defende que o rock progressivo pode ser definido como sendo música popular sofisticada.

O que ficou para os anais da história como sendo a “derrocada” do rock progressivo teria sido a ascensão do punk rock, a partir de 1976, quando surgem bandas como Sex Pistols, Ramones ou The Clash, tocando canções com dois ou três acordes, de duração curtíssima, letras urbanas e produção lo-fi. Algumas pessoas preferem deixar de culpar o punk nessa história, destacando o fato de que existe uma obsolescência natural permeando qualquer forma de arte, com ciclos de auge e de decadência. Nessa perspectiva, em vez de elencar culpados, essa corrente defende que o gênero progressivo simplesmente expirou seu prazo de validade e que, a partir de 1975, muitas das grandes bandas do estilo, como Yes, Genesis e ELP, teriam recorrido a diversos excessos e repetições que seriam prova de sua decadência.

Happy The Man

Eu particularmente tendo a discordar, visto que alguns dos meus discos preferidos dessas bandas foram feitos após 1975. Cito aqui Going for the One (1977) do Yes, A Trick of the Tail (1976) do Genesis, Wish you Were Here (1975) do Pink Floyd, entre tantos outros. Na minha interpretação, o rock progressivo ainda tinha lenha para queimar, pois, além dos grandes nomes do estilo continuarem em atividade lançando grandes discos, muitas bandas inspiradas neles surgiam em todo o mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, bandas como Happy the Man ou Hands surgiram exatamente na era do punk rock, gravando discos arrebatadores que, infelizmente, foram engavetados por suas respectivas gravadoras, só sendo lançados na década de 1990 para um nicho de colecionadores e fãs estritos de prog.

E me parece plenamente possível considerar que o rock progressivo poderia ter coexistido com os gêneros emergentes do fim dos anos 1970, como o punk, a disco music ou a new wave. Teóricos como Nestor Garcia Canclini defendem que a área da cultura não está restrita a uma demanda de escassez como ocorre em outros setores da indústria. Afinal, por um lado, os produtos de consumo dependem de matéria-prima (como no setor de alimentação) e o mercado tem óbvias limitações para o surgimento de empresas capazes de capitalizar tudo isso. Por outro lado, no campo da arte, tais limitações não fazem sentido: ainda que as obras artísticas circulem em suportes materiais (e, nos anos 1970, esses suportes eram os discos de vinil e as fitas cassete), a capacidade de manufatura desses suportes nunca foi um entrave para limitar a quantidade de discos produzidos.

Um exemplo dessa tese está no surgimento do Clube da Esquina. Até o início dos anos 1970, o estado de Minas Gerais era pouco expressivo no âmbito da música popular brasileira: em termos de uma indústria musical, o que se via em Belo Horizonte e nas demais cidades mineiras se resumia a bandas de baile com repertório constituído basicamente de covers. Após o disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, lançado em 1972, subitamente nasce todo um movimento de músicos mineiros, com inúmeras bandas e artistas solo que se tornam profundamente atuantes no campo fonográfico e com gravações que alcançariam sucesso de vendas, prestígio e influência, dentro e fora do Brasil. Ou seja, é toda uma cena autoral que surge do nada e que até os dias atuais se mostra sustentável e influente.

No caso do rock progressivo, fica claro que a continuidade do estilo não condizia com o interesse de diversos grupos e panelinhas dentro da indústria musical. Em uma publicação do início dos anos 1980, o jornalista José Emílio Rondeau especulou que o dinheiro investido em um único show do Pink Floyd na turnê The Wall custearia toda uma turnê do The Clash – tida como a maior banda do mundo nessa mesma época. Esse tipo de argumento era frequentemente usado para destacar a falência do rock progressivo na nova lógica que a indústria assumiria a partir de então. Entretanto, a tendência de shows mega produzidos na verdade nunca perdeu força: já nos anos 1980, artistas como Jean-Michel Jarre deram continuidade a esse tipo de performance. O próprio Pink Floyd realizou diversas turnês bem-sucedidas financeiramente nos anos 1980 e 1990, todas enormes do ponto de vista da produção. Mesmo artistas surgidos na cena punk e pós-punk, como o U2, tiveram êxito financeiro e artístico ao realizar turnês super produzidas.

Um dos incômodos que o rock progressivo promove entre gravadoras e produtores é que, do ponto de vista fonográfico, são artistas mais difíceis e mais caros de se produzir. Trata-se de um som complexo de compor e de executar, o que exige pessoas relativamente treinadas para a tarefa. Mesmo a pós-produção (mixagem, masterização etc.) é mais melindrosa do que em um disco punk, por exemplo. A questão é que essas razões são um tanto quanto superficiais para explicar a estigmatização que foi dirigida contra o rock progressivo. Vamos escavar um pouco mais a fundo para entender melhor essa história.

Do ponto de vista lírico e estético, o rock progressivo é um gênero que substitui o discurso individualista dominante por outras possibilidades de discursos (existenciais, transcendentais, delirantes), indo na contramão do egocentrismo monotemático da cultura de massa capitalista em geral. É uma formatação artística que se mostra algo profundamente anticapitalista em essência. Nesse sentido, parece curioso que tenham tentado associar o prog com uma lógica mais burguesa enquanto o punk rock era tido como um estilo mais contestador. Afinal, um dos motivos pelos quais o punk ganha força em 1976 estava na sua capacidade de capitalização, e prova disso é o fato de que boutiques e empresas de roupas venderam aos borbotões itens como jaquetas de couro, coturnos, jeans customizados (leia-se: rasgados de fábrica), pulseiras de rebite, patches etc.

Em 2019, o Brasil presenciou duas situações simultâneas que mostram como a ideia de que o punk seria um estilo mais engajado que o progressivo soa um tanto quanto falaciosa. A primeira dela ocorreu em abril de 2019, quando a banda americana de hardcore Dead Kennedys virou alvo de polêmicas por conta de um poster feito pelo ilustrador Cristiano Suarez exclusivamente para a turnê nacional que eles estavam prestes a realizar. A imagem representada no cartaz era uma sátira ao então presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro. Pelo histórico da banda (que é um dos nomes mais expressivos do punk mundial), a atitude parecia coerente. Contudo, a banda não apenas cancela sua turnê no Brasil, mas reprova publicamente o conteúdo do poster, alegando que o ilustrador brasileiro não teve o apoio deles na escolha dos temas representados.

Por outro lado, em outubro de 2019, o ex-líder do Pink Floyd Roger Waters traz para o Brasil a sua turnê Us + Them, e, para o espanto de parte do público, promove manifestações contra Bolsonaro e contra o ex-presidente Donald Trump no telão de seus shows. O fato, replicado em seguida pelas redes sociais, atiça a ira de apoiadores e partidários de extrema-direita em todo o Brasil. Um juiz paranaense chegou a emitir um comunicado para a equipe de Waters com o intuito de inibir tais manifestações, mas o músico se recusou a acatar o que chamou de “ameaça judicial”. Após algumas adaptações no formato, os shows continuaram manifestando repúdio aos líderes políticos conservadores, em uma atitude que quase levou o ex-Floyd a ver nascer quadrado o sol dos trópicos. Os casos aqui citados dos Dead Kennedys e de Roger Waters constituem um exemplo da tolice que é atribuir engajamento ou alienação a todo o contingente de artistas de um gênero musical em especial.

O fato é que, se os detratores do rock progressivo na mídia e na indústria musical não conseguiram erradicar os artistas desse gênero, no mínimo conseguiram afastá-los do mainstream. Hoje em dia, o prog rock sobrevive como um estilo de nicho – o que não é nenhum demérito, sobretudo quando consideramos, por exemplo, a boa situação financeira da gravadora Inside Out, especializada em rock progressivo e uma das mais expressivas na Europa atualmente. Na verdade, a circulação por nichos não é privilégio apenas do prog, visto que a própria indústria musical (como previu Chris Anderson na sua teoria da cauda longa em 2004) se segmentou dessa maneira. Assim como ocorreu com o heavy metal, o hardcore e tantos outros estilos, o rock progressivo circula no seu próprio quadrado; contudo, a campanha difamatória contra esse estilo acabou por gerar uma carga de preconceitos que o tempo não fez diluir. Podem anotar: sempre que um artista lança uma música ou um disco que se utiliza de procedimentos associados ao prog – mesmo que elementos superficiais, como o uso de sintetizadores ou a composição de canções com mais de quatro minutos –, sempre aparece alguém (de dentro e de fora da imprensa) para demonizar e criticar esses aspectos. E o argumento evocado é de uma finesse sem igual: “isso parece rock progressivo! Arghhh!”

Enfim, apesar da possibilidade de falar aqui do meu próprio disco, preferi tecer toda uma argumentação mais ampla e mais geral para responder uma questão mais profunda: por que compor um disco de rock progressivo em pleno século XXI? Para mim, o rock progressivo é um gênero de resistência, e aqui eu me refiro a todas as modalidades de resistência que o século XX nos mostrou: seja a resistência mais engajada politicamente (sobretudo nos moldes do “intelectual orgânico” tão em voga na década de 1930) ou a resistência mais pautada no existencialismo sartriano. Na verdade, as influências psicodélicas e vanguardistas do prog oferecem um modelo de resistência ainda mais ancestral, que remete ao espírito dionisíaco do período helenístico, agora renovado no mundo contemporâneo em uma nova imagem arquetípica. O fato é que se trata de um estilo que não se dispõe a nenhum tipo de concessão no que tange à moda, à ideologia, ao comportamento ou ao gosto pessoal. Prova disso foi a dificuldade das instituições capitalistas de cooptar o prog assim como fizeram com outros gêneros.

Ao trazer essas reflexões, não quero assinalar nenhum tipo de superioridade do rock progressivo em relação a outros gêneros musicais e tampouco pretendo ser proselitista ou dogmático em relação à história e ao arcabouço simbólico em torno do prog. Meu intuito aqui é o de mostrar algumas singularidades e particularidades (que, diga-se de passagem, não são exclusivas desse estilo) do progressivo que foram eclipsadas por décadas de artigos e de matérias midiáticas pautadas por preconceitos e estigmas de toda ordem. Esse texto é uma humilde tentativa de empurrar o rock progressivo para fora do lado escuro da lua e permitir que ele esteja novamente na órbita dos interesses estéticos e existenciais do maior número possível de pessoas.

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