Thainá Fernandez
Se alguém perguntasse, Nina diria que era só mais um dia comum no laboratório. Mas ninguém nunca pergunta nada a ela, e ela também não fala com ninguém além do necessário. Sabe que precisa chegar às oito. Todos os dias. Depois, precisa procurar algum dos alunos de pós-graduação e perguntar educadamente se pode acompanhá-lo para aprender como ser uma bióloga marinha.
Nina, como de praxe, chega antes mesmo de seu orientador, o dr. Álvaro Lemos. Ela costuma esperar do lado de fora, no pátio da universidade, perto de um velho jacarandá que projeta uma sombra agradável e generosa sobre um gramadinho logo abaixo. Ele dirige um jipe alto, daqueles que parecem bem caros, e Nina gosta de imaginar que é isso que a espera no futuro. Trabalho de campo, expedições de verdade, aventuras em lugares onde a natureza ainda guarda segredos.
Mas hoje ela está sentada nos degraus do lado de fora do laboratório dele, com um envelope marrom tamanho A4 nas mãos. Não está matando o trabalho, por assim dizer. Chama esses intervalos de pausas para descompressão, recorre a eles sempre que o ambiente se torna insuportável (e isso tem acontecido com uma frequência alarmante). Durante essas pausas, procura se distrair com vídeos que prometem ser antifadiga. Seus favoritos são os de inspeção de couro cabeludo e, diga-se de passagem, levou um tempo para encontrar o certo, o equilíbrio preciso entre som e movimento.
O dr. Álvaro a aceitou por causa de suas notas, embora ela tivesse começado a procurar um lugar para fazer o estágio obrigatório em campo apenas em seu último ano de faculdade. Não foi por desleixo. Quando ingressou no curso, tudo o que queria era a pesquisa. Não havia se dado conta de que uma carreira acadêmica também significava ser acadêmica, estar à frente das salas de aula, falar em público, apresentar seminários em congressos. Isso a frustra mais do que gostaria de admitir, e não tem certeza se algum dia vai se recuperar completamente dessa constatação.
O fato é que foi difícil conseguir estágio em uma área de pesquisa. Pior ainda. Nina sempre era descartada depois das entrevistas presenciais. Era como se as pessoas murchassem no momento em que a viam pessoalmente, e todo o entusiasmo inicial despertado por seu histórico acadêmico quase perfeito evaporasse ao primeiro contato. Ela ainda se ressente das notas dolorosamente abaixo de sete em Estatística, mas o que podia fazer? Números nunca foram o seu forte.
Mesmo assim, Nina conseguiu entrar.
Às vezes, ainda suspeita que o professor tenha notado um indício de desespero em sua expressão durante a entrevista. Seu tempo estava se esgotando, e talvez esse tenha sido o fator decisivo que a fez ser aceita (ou pode ser que nem tivesse concorrentes, já que, numa comparação, nunca havia resultados favoráveis para ela). Escolher essa área, dentre a imensidão da Biologia, não foi por acaso. Nina tem a vaga impressão de que isso tem ligação com sua obsessão pelo mar, presente há tanto tempo que ela sequer consegue se lembrar de quando surgiu.
O ruído de abertura da porta da sala dos estudantes assusta Nina e ela quase derruba o celular. Quem aparece é Caio Martins, um mestrando que ela desconfia ser um dos favoritos do dr. Álvaro. Com ele vem o cheiro pungente de formaldeído em uma espécie de manto químico. Caio passa direto, sem sequer lançar um olhar em sua direção. Nada fora do esperado. O estranho seria alguém perceber sua presença.
A única pessoa que parece notar a existência de Nina, não apenas no laboratório, mas na universidade como um todo, é Josi. Josiane Dantas. Ela também chega cedo e espera do lado de fora no pátio, já que os alunos de graduação não têm permissão para abrir o laboratório sozinhos. Essa regra sempre confunde Nina. Eles podem ser responsáveis por todos os experimentos do laboratório, especialmente os que levam horas e que os pós-graduandos preferem deixar os alunos de graduação terminarem por eles para poderem ir para casa mais cedo, mas, aparentemente, abrir o laboratório é demais.
Nina e Josi sempre sobem os dois andares até o laboratório de elevador. Outras pessoas franzem a testa quando as portas se abrem e veem a cadeira de rodas de Josi. Nina suspeita que, se não estivesse ao lado dela, ninguém se daria ao trabalho de segurar as portas. Em algum momento, ambas fizeram um acordo tácito. Em troca da presença de Nina, Josi busca o almoço delas no refeitório lotado da universidade.
Entre elas não existe o que se pode definir como intimidade. Principalmente por causa de Nina. Socializar não é o seu forte. Ainda assim, Josi não parece se importar e sempre tenta mais uma vez.
As duas se aproximaram logo depois do dia em que Nina trouxe salpicão para o almoço e encontrou muitas pessoas do laboratório vizinho ocupando a área de refeições, rindo e conversando alto. Ela não conseguiu reunir forças para passar por eles e colocar sua marmita na geladeira. Disse a si mesma que esperaria até que terminassem de bater papo. Só porque ela acha sem sentido não significa que os outros também tenham que achar. Afinal, socializar é saudável para os humanos, não é?
O problema é que ela se esqueceu.
A comida começou a cheirar mal na sala de estudos dentro do laboratório, o que lhe rendeu uma variedade de olhares de reprovação até que ela entendesse que era por causa do seu almoço estragado (um tanto irônico, vindo de pessoas que estão constantemente expostas ao fedor de peixe podre vindo da velha geladeira). Nojento. Mas ela aprendeu a lição.
Quando as mãos ficam frias e trêmulas de repente, Nina decide que é hora de tentar outro vídeo de ASMR. Este claramente não está funcionando como deveria. Só que ela acaba esbarrando no lugar errado e fecha o aplicativo. O papel de parede do celular a encara de volta. Um arrepio percorre seu corpo. Ela se pergunta se algum dia isso vai deixar de assombrá-la.
É a foto da esponja marinha, tema de sua monografia. Linda. Verdadeiramente linda. Ela se chama Aplysina celare. Ou melhor, se chamava.
Seu potencial uso medicinal a tornou valiosa para o laboratório. Valiosa demais. Era uma nova espécie. Nina a havia identificado durante um dos mergulhos com a equipe ao longo da Costa Verde, perto da Praia Grande, não muito longe da pousada de sua tia-avó, onde passava os fins de semana na infância. O dr. Álvaro dissera que seria melhor se ele mesmo submetesse a descoberta ao conselho científico por causa de sua credibilidade, mas permitiu que Nina nomeasse a espécie. Essa parte, pelo menos, era dela.
Passou horas vasculhando dicionários de latim, procurando uma palavra que combinasse com aquela espécie. Descobriu que celare significa esconder, ocultar, manter em segredo. E assim foi decidido. A espécie se chamaria Aplysina celare.
Era uma pequena comunidade de espécimes frágeis, e não resistiu à coleta para as análises. A esponja de Nina não sobreviveu.
Quando recebeu a notícia, chorou durante todo o fim de semana. Na segunda-feira seguinte, seu orientador se limitou a dizer: “é uma perda, claro, mas o ganho científico supera isso. Concentre-se no que é útil. Temos material suficiente para mais de um artigo. É assim que a ciência funciona”.
Nina continuou com a pesquisa. Em todos os aspectos externos, estava prosperando.
Os degraus de granilite são desconfortáveis (é óbvio que não foram feitos para se sentar por tanto tempo, ou para se sentar de qualquer forma). No fundo, ela sabe que está procrastinando. Evitando o que precisa fazer.
Por que você simplesmente não se levanta e encara isso de uma vez pra poder ir pra casa?
Chegar em casa tão cedo não é comum para Nina, e sem dúvidas vai desencadear questionamentos intermináveis da sua mãe. Mesmo assim, tenta se convencer de que é para o melhor.
Até agora, seus dias se resumem à mesma rotina. Acordar às cinco, pegar o primeiro ônibus às cinco e meia, o segundo às sete, chegar ao laboratório às oito e ficar lá até às três da tarde. As aulas começam às cinco e se estendem até às dez da noite. Sua casa existe meramente como um lugar para dormir. Ela mal vê a mãe, embora morem no mesmo apartamento. Selma é técnica de enfermagem e trabalha em turnos de trinta e seis horas. Na maioria dos dias, elas se comunicam por meio de post-its colados na geladeira, passados entre elas como prova de que ainda compartilham uma vida.
Só à noite é que liga a TV e escolhe, de modo aleatório, algum filme ou série de que não vai se lembrar, pois sempre adormece antes de entender do que se trata. Costumava gostar de ler, e lia de tudo, especialmente livros de psicologia (desde muito cedo queria entender o que havia de errado com ela, então mergulhou de cabeça), mas também havia os romances e os clássicos ocasionais. Depois, a leitura para a faculdade começou a ocupar todo o espaço que ela antes reservava à leitura por lazer, e agora seus livros estão abandonados há anos.
Nina escuta passos nas escadas e vê a secretária do departamento descendo. Ao vê-la, se encolhe sem querer. A mulher não a nota e segue seu caminho. Ela se lembra de como a secretária revirou os olhos enquanto Nina esperava na secretaria da universidade por uma resposta ao seu pedido de acessibilidade, o suporte que eles alegam oferecer a estudantes com deficiência. Fizeram com que ela comparecesse perante uma banca examinadora para comprovar que sua deficiência justifica adaptações. No final, disseram que ela teria que esperar pela decisão da comissão.
Nina revisou seus pedidos mentalmente, como sempre fazia. Substituir apresentações orais por trabalhos escritos. Instruções mais objetivas. Provas em ambiente menor ou mais silencioso, com menos pessoas. Permissão para usar fones de ouvido com cancelamento de ruído. Pausas curtas para regulação sensorial, quando seu corpo começava a escangalhar antes de uma tarefa ser concluída. E, se possível, sem chamadas públicas inesperadas. Ouvir seu próprio nome sendo pronunciado em voz alta sempre lhe dava a sensação de ser arrancada abruptamente de si mesma.
Pode soar como um exagero. Fazia sentido, então, que quisessem que ela esperasse para avaliar a disponibilidade.
Na ata do colegiado, a palavra parece fácil. Autista. Embora Nina não aparente, o que todos consideram um elogio, as dificuldades são bem reais. Às vezes, parece que ela existe em uma rotação diferente da de todos os outros.
Ontem, ela foi ao médico para trocar os curativos nos pulsos e retirar os pontos. Havia recebido alta duas semanas antes, após duas semanas de internação. O médico era jovem. Atraente, ela supôs, se o olhasse como outras garotas da sua idade o fariam. Olhos azul-claros. Pele branca bronzeada. O tipo de aparência que sugere uma vida praticamente intocada por preocupações.
O dr. Yuri Palmeira não levantou os olhos enquanto lia sua ficha.
“Tentativa autoinduzida, né?”
Nina olhou para os pulsos, envoltos em gaze branca e presos com esparadrapo.
“É”, disse ela.
Não havia motivo para rodeios. Ele não parecia interessado em conversar. E não era como se ela quisesse prolongar a conversa com alguém que nem a conhecia.
Dr. Yuri digitou a informação no computador e apertou Enter.
“Alguma ideação ativa no momento?”
Ainda sem olhá-la.
Nina era péssima em interações humanas, mas até ela sabia que não era assim que alguém que escolheu dedicar a vida à saúde humana deveria abordar um ser humano.
“Prefiro não falar sobre isso”, disse ela, querendo que a sessão terminasse o mais rápido possível.
Só então o médico olhou para o rosto dela. Ele se levantou, pegou seus instrumentos e fez um gesto para que ela estendesse o braço. Ela o estendeu sobre o pequeno apoio acolchoado que parecia uma mesa estreita. Com todas as suas forças, desejou que ele não tentasse puxar conversa. Mas era pedir demais.
“Uma moça bonita como você”, disse ele, casualmente. “E inteligente, pelo que vi no seu prontuário. Você é estudante universitária em uma universidade federal, certo?”
Ele pareceu esperar por uma reação. Nina apenas assentiu.
“Isso não resolve nada”, continuou ele. “Só cria mais problemas. Seu corpo não é descartável”.
Dr. Yuri cortou os fios dos quatro pontos em cada pulso enquanto falava. Nina prendeu a respiração, conteve as lágrimas. Parecia invasivo. Seu estômago revirou. Ela manteve os olhos fixos em outro lugar, em qualquer lugar, menos ali.
“Você teve muita sorte”, acrescentou o médico. “Esse tipo de corte geralmente causa muitos problemas. E com certeza vai deixar uma bela marca depois”.
Nina não sabia se seria “bela”, mas, sem dúvida, esperava cicatrizes. Ninguém saía ileso de um ferimento como aquele.
Quando acabou, parecia que as pernas cederiam ao se levantar. Assim que se virou para sair, o médico disse, já a meio caminho de sua cadeira:
“Fazemos a nossa parte aqui. O resto depende de você querer melhorar. Se for o caso, procure um psiquiatra”.
Depois ele se sentou, voltou os olhos para a tela e pediu à recepcionista para chamar o próximo paciente.
Isso aconteceu ontem. Agora, ela desliga o vídeo de ASMR e reúne a pouca coragem que lhe resta. Não é o que ela queria, mas disseram que é o que precisa ser feito, se quiser que as coisas voltem ao normal.
Seja lá o que “normal” significa para eles.
O envelope parece incrivelmente pesado. Demanda muito esforço carregá-lo. Nenhum de seus colegas notam quando ela entra. A pós-graduanda que havia lhe apresentado o laboratório em seu primeiro dia, a técnica de laboratório, os três outros alunos de graduação que circulam pelo local sem sequer lhe dirigir um olhar. Por sorte, também não avista Josi (não saberia o que dizer a ela).
O dr. Álvaro não está em sua sala. Nina agradece por essa pequena misericórdia. Não terá que se despedir. Principalmente porque não está indo embora para sempre. Não de verdade.
Hoje é seu último dia no laboratório. E na universidade. Mas ela só trancou o semestre seguinte.
Agora, Nina tem tempo. Tempo demais, talvez. Tempo para se concentrar na sua saúde. Para se consertar.
Ela está de licença médica.
E o peso disso pende de suas mãos enquanto ela, enfim, deposita o envelope sobre a mesa.