Ruas flutuantes

Manoel Santiago, Sem título
Coleção particular

Myriam Scotti

Antes de deixar aquele inferno verde, ainda praguejei o barão. O povo dizia que ele não era dos piores, se comparado aos trastes que chefiavam outros seringais. Talvez não fosse mesmo. Mas justo ele nunca foi. Me roubou muito, disso tenho certeza. Me amarrou em dívidas que só apareciam na caderneta dele e do gerente do barracão, o infeliz do Homero. A conta, em vez de diminuir, só ficava maior. Zulmira, coitada, teve que aprender a extrair o látex pra me ajudar na lida e aumentar o lucro, mas nem assim o coronel quitava. Dizia que a gente consumia muita carne seca pra alimentar nossos meninos, mas não era verdade. Eu só comprava carne uma vez por mês, o resto da nossa alimentação eu mesmo caçava. Mas quando eu engrossava a voz e gritava com o Homero sobre a roubalheira, os capangas logo chegavam perto pra me amedrontar. Então, rendido, metia o rabo entre as pernas e voltava pro meu tapiri engasgado, como se tivesse um caroço de manga engatado na garganta.

No seringal, não existia rua. O que a gente chamava de caminho eram veredas apertadas na mata, trilhas pisadas por bicho e sofrimento de quem já de madrugada sangrava as árvores. Ruas invisíveis, tortas, que o sol mal alcançava. Eram caminhos feitos de silêncio e suor, não levavam a canto nenhum, só de volta ao tapiri, aos mosquitos, à contagem injusta das pelas de borrachas. Aquelas trilhas não davam direção; era uma espécie de prisão às avessas.

Em 1943, quando ainda morava no meu Ceará e fui recrutado para ser soldado da borracha, disseram que a gente voltaria com honra, como veterano. Milhares de homens, mulheres e crianças acreditaram nessa falácia e partiram rumo ao inferno verde amazônico. Dias infinitos de viagem até chegar aos seringais que se espalhavam pelo Pará, Amazonas e Acre, principalmente. Porém, depois que a gente se embrenha no meio da mata, ninguém recebe notícia. Só o barão tinha rádio, mas não compartilhava as novidades do mundo com os arigós, como ele nos chamava. Soube, por cochicho de seringueiro, que a guerra tinha acabado fazia mais de ano. Mais de ano. E nós ali, acreditando que servíamos ao país, enquanto servíamos era ao bolso dele. Só não era pior porque eu tinha minha mulher pra não me deixar desistir de viver.

Casei com Zulmira antes de vir para o Amazonas, nos dias que ficamos parados em Belém, desembarcando parte dos soldados. Ela estava com a família: pai, mãe e quatro irmãos mais novos. Tinham sido recrutados pra outro seringal, lá no Acre, mas desde que as nossas mãos se tocaram, a gente não conseguiu mais se separar e o pai dela deu graças a Deus que seria menos uma boca pra sustentar, me entregou a filha foi com gosto. Levei a pobre moça cheia de sonho praquele fim de mundo, onde ela pariu nossos dois meninos acompanhada só pela coragem. E quanto mais eu cortava seringa, mais longe a gente ficava de casa, da esperança. Era como se a mata engolisse tudo — nossas forças, nossa juventude, nossos caminhos.

Quando descobri a verdade sobre o fim da guerra, senti o corpo inteiro tremer. O barão, aquele desgraçado, fingiu bondade, afrouxou algumas cobranças, como quem oferece sombra a homem que já morreu de calor. Mas continuava nos prendendo nas dívidas, essas que ele jurava que eram nossas, mas que eu não reconhecia. Como trabalhar sem ferramenta? Como viver sem encher o bucho, sem uma pinga pra aliviar o peito apertado? No seringal, até o silêncio era inimigo. Dói no ouvido, dói no peito. Foi então que escutei Homero contando que ia embora pra capital. Falou de uma tal cidade flutuante, onde as casas boiavam no rio e as ruas eram de madeira mesmo. Ruas. Essa palavra bateu diferente em mim. Ru-as.

A Zulmira, que carregava nos olhos tantas faltas, só disse:

“Qualquer rua é melhor do que essas trilhas da mata. Simbora desse inferno, que não aguento mais viver aqui. Nossos meninos precisam de escola, de outras crianças pra brincar, de esperança”.

E naquele momento percebi que era isso que estava faltando na nossa vida: ruas que levassem adiante. Arrumamos nossas trouxas com o pouco que tínhamos. Saímos antes do amanhecer, levando uma criança em cada colo, enquanto a mata parecia suspirar atrás de nós — talvez admirada de ver alguém escapar. As trilhas do seringal, que sempre me pareceram muralhas, naquela hora pareciam estar abrindo passagem, como se entendessem que nunca mais.

Chegamos aqui em Manaus em dezembro de 1946. E foi como enxergar o mundo pela primeira vez. Ali, diante de nós, estava a cidade flutuante: casinhas alinhadas sobre o rio Negro, boiando firmes nas toras de açacu, com pilares de andiroba segurando os tetos de palha. Mas o que me deixou realmente sem ar foram as ruas. Ruas de verdade. Ruas de tábuas de madeira, interligando as moradias. Erguidas sobre o rio, esticadas como braços que acolhiam quem chegava. Tábuas estreitas ligando casa a casa, comércio a comércio, esquina a esquina. Caminhos que levavam a algum lugar — não como no seringal, onde todo caminho levava de volta ao cativeiro.

Cada pisada fazia a rua vibrar, mas era um vibrar de vida, não de medo. A madeira estalava baixinho, anunciando gente passando. Ali, o passo de cada um era ouvido; ninguém andava escondido pelo silêncio. A luz do sol batia forte, refletia no rio escuro, e as crianças corriam livres, rindo, como se as ruas flutuantes fossem brinquedos. Era uma cidade de verdade, tudo o que tinha na terra firme, também se encontrava na cidade flutuante: padaria, restaurante, farmácia, dentista, oficina mecânica para as embarcações, posto de gasolina, salão de beleza, e, claro, forró, cachaça e mulher de vida fácil. A gente passava e elas tentavam puxar a gente pra dentro das casas. Zulmira ficava que nem doida quando eu dizia que teria que passar pelas ruas das moças. Elas eram bem atiradas.

“Entra aqui só um tiquinho, vai… tua mulher não faz o que vou fazer contigo. Minha língua sabe dar voltas e voltas e tá doida pra passear aí entre as tuas pernas, vem, anda, é rapidinho”.

Mas eu amava demais a minha Zuzu pra ficar de senvergonhice por aí. Eu só passava pela rua da perdição quando não tinha jeito. Receava não me conter com tanta mulher me atentando. É que o compadre Demétrio tinha um comércio lá próximo e vez em quando eu ia lá saber das novidades do meu Ceará. Ele tinha parentes em Sobral e trazia notícias da minha gente. A essa altura já não sonhava mais em voltar, tinha aprendido o ritmo de Manaus e gostava de ter minha barraca de fruta lá no mercado Adolpho Lisboa. Zulmira lavava roupa pras madames, completava o orçamento. Os meninos estudavam no grupo escolar José Paranaguá, na terra firme e essa era a nossa rotina. Comida e água não faltavam; tínhamos, enfim, liberdade para ir e vir dos lugares, sem temer os capangas do barão, a roubalheira do Homero, as onças, a malária e a febre amarela. De repente, já não me doía os três anos que passamos naquele inferno. A cidade flutuante logo se tornou o nosso lar.

A maior concentração de casas era em frente à praça dos Remédios, onde os meninos costumavam brincar nos domingos, enquanto Zulmira e eu rezávamos na igreja logo à frente. Durante a semana, pelas manhãs, a cidade flutuante esvaziava e nos fins de tarde voltava a se encher de gente — homens voltando da pesca, mulheres carregando roupa lavada, vendedores atracando suas canoas como se fossem feiras ambulantes. Havia música, conversa, cheiro de peixe assado e de andiroba pra espantar os mosquitos. À noite, as lamparinas faziam a cidade cintilar sobre a água, como se estrelas tivessem descido pra morar ali. As ruas flutuantes eram diferentes de tudo o que eu tinha conhecido. Eram firmes mesmo balançando, eram seguras mesmo boiando. Pela primeira vez, senti que nossos passos deixavam marca — não na terra, mas na vida.

Se no seringal as ruas invisíveis nos engoliam, ali as ruas de madeira nos devolviam. Nos davam direção, pertencimento. A cidade flutuava, mas nossa esperança, enfim, se firmava. E foi assim, seguindo aquelas ruas sobre o rio, que encontrei um lugar onde meus filhos podiam crescer sem medo, onde Zulmira podia respirar, onde eu podia sonhar sem me perder da esperança.

Um lugar onde as ruas, mesmo flutuantes, nos levavam adiante.

Compartilhe:

Contos para Gestalts

Resenha de Pistas falsas (Patuá, 2023) de José Eduardo Gonçalves.

Translate