Priscila Faria
criar um novo corpo
um continente de versos
meu próprio globo
pelos subterrâneos
enfim, cosmonauta de mim
o menino dorme onde nenhum adulto acorda
caminha sobre a saudade mirando as estrelas
o menino voa alto
carregando um balão de sonhos
tão longe vai que o adulto não vê
o menino constrói mundos
com cores que adultos não sabem reconhecer
o menino vê o mais feio e o mais bonito
de olhos fechados
o menino não está
mas segue
meu corpo feito meu país
entre margens
meu peito feito uma mata
atravessada
por um rio
meu sangue segue o leito
condutor de vida
água infinita
nesse corpo pélago que ainda ama
nesse corpo de água
doce
forte para pegar o feio no colo
acariciar o feio, deixar que chore
não calar o grito do feio, me deixar
ser feia também, perdoar a feiura
querer quem saiba perdoá-la
e me perdoar por ser
humana demais
para amar e ser
amada
sem saber
por onde sai um poema
de qual orifício corte ferida
qual a cor da tinta que o escreve
depois que sai
do gozo da lágrima do sangue do leite
para quem ele serve
a quem ele salvará
além de mim