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Um relato sírio

Weimar

Andando por uma rua lateral na qual se viam restaurantes de alguns outros países do mundo, entre eles a Coreia do Sul e a China, avisto uma pequena porta com uma inscrição na vitrine, a qual já não mais me lembro. Um letreiro que anunciava uma profissão que, segundo me contaram mais tarde, está entre as mais mal pagas do país. Entro, sento no pequeno espaço de espera, que contava com uma cadeira apenas, um tanto suja pelos milhares de recortes de cabeças das milhares de pessoas que por ali já haviam passado, e aguardo a instrução do único funcionário da loja, que descobri em pouco tempo ser o dono do local.

Apontou-me a única cadeira de corte que havia à sua frente; sentei-me ali e, após ser perguntado como eu gostaria do corte, cuja instrução, logo aprendi, se revelaria inútil, deitou-me uma manta de microfibra por cima do peito, fechando-a desde o pescoço.

Iniciou-se logo uma conversa pela pergunta óbvia que reúne e aproxima aqueles que buscam novos horizontes em novos locais. Disse-lhe que eu era brasileiro e que estava ali naquela cidade do centro da Alemanha para estudar. Logo, ele me revelou ser um refugiado da Síria.

A Síria, como uma daqueles fatos que não se explicam por cadeias de pensamento lógico, se me tornava pouco a pouco um interesse de leitura. A guerra de então, e que ainda se arrasta com uma grande voracidade, me interessava como me interessava a história de outros conflitos, tanto brasileiros quanto estrangeiros. Eu havia acabado, por coincidência, de ler um dos relatos mais marcantes sobre o acontecimento, traduzido ao inglês como The Crossing, da autora síria alauíta Samar Yazbek, uma jornalista daquele país que teve de fugir de sua terra natal após o início do conflito com o, digamos, presidente sírio Bashar Al-Assad.

Logo me interessei por saber mais sobre aquela pessoa que cortava meu cabelo naquela tarde fria da Alemanha. Seus olhos eram tristes, porém relanceavam que outrora havia existido um brilho e uma força que talvez tivessem valido para atravessar montes e vales, aqueles de sua terra natal, como me contou. Alto, usando uma barba a um centímetro do rosto, o cabelo cortado curto segundo a moda mais corrente de seu país, saía de um peito amplo uma voz profunda, contrabaixa, lenta e entrecortada pelas pausas constantes à medida que ele buscava vocabulários naquela língua seca para tentar exprimir, em voz e em coração, brevemente, a sua história.

Havia chegado na Alemanha há oito anos (essa conversa ocorreu em dezembro de 2018) após uma travessia terrestre que consumira quase a totalidade de seus recursos já então escassos. Fora com a mulher, um irmão e seus dois filhos, uma garota e um rapaz, ambos adolescentes (entrecorte na voz). Chegado pelo leste do país, e mediante uma rede improvável de contatos sírios que já haviam estacionado na Germânia, chegara em pouco tempo àquela pequena cidade de tantos poetas, escritores, músicos, pintores, atores, artistas de todas as áreas.

O diálogo é reconstruído, e pode haver alguma coisa de criação que a memória feliz ou infelizmente produz, mas confio que foi assim.

Veja, o país estava até bem com o Bashar; ele era nosso único problema. O problema mesmo foi quando os Estados Unidos e a Rússia invadiram minha terra. Eles a queriam para si, disputavam-na de todos os lados. Como sempre, quem é pobre e quem não tem ligações é que precisa se mover e sair. Alguns americanos entregaram meu irmão, um rebelde, para o Bashar. Eles o mataram na prisão [entrecorte na voz]. Foi então que eu decidi sair; antes disso, não acreditava que a situação pudesse chegar àquele ponto. A gente sabia que era difícil, a polícia do governo nos batia muito, mas, matar?, isso era demais. Meu pai me incentivou a sair do país, deu um pouco do pouco dinheiro dele, e saímos. Viemos parar aqui. Mas a vida na Alemanha não é tão mais fácil, a gente é olhado de uma maneira baixa, como se fôssemos inimigos. Não somos; somos pessoas cuja vida nos forçou a sair, expulsos da própria terra como inimigos; não queremos ser inimigos aqui porque já o somos lá. Chegando aqui, e diante das dificuldades financeiras do começo, minha esposa quis se divorciar de mim. De tão deprimido que eu estava, batendo de porta em porta em busca de algum trabalho como imigrante e sem falar o idioma, eu não notei o afastamento dela e deixei-a escorregar pelos dedos; talvez encontrasse alguém com mais condição que eu (e encontrou, em menos de um mês de nossa penúria). Meu filho via fraqueza em meu estado depressivo e me abandonou. Minha filha, ao contrário, ficou comigo e me deu muito apoio. Juntos, trabalhamos duro como garçons e lavadores e juntamos um dinheiro para abrir este salão, que é modesto, mas é nosso. Sinto raiva dos americanos e dos russos: eles me fizeram perder a minha família. Hoje estou só, não tenho interesse em me casar novamente. Acho que a situação me fez mais endurecido. Não sou feliz, não sou entusiasmado com a vida e ainda choro a perda da minha pátria e do meu irmão, para onde voltarei assim que for possível, se for possível.

Não ousei interromper aquela história que desabrochava ante a meus olhos. A proximidade, a carnação dela, era real demais. Ali havia um sobrevivente de uma guerra sobre a qual eu somente havia lido, e ouvi-lo, além de lhe ter feito bem (“desculpe, hoje eu precisava contar de novo essa história“), abriu-me o coração para a compaixão, o que não substitui mas acolhe, para com a sua situação. Algum dia, colocaria esse relato, como outros que já ouvi no decorrer da minha breve vida, por escrito, lançando-o às correntes do hiperespaço para que alguém, algum dia, fosse tocado pela simplicidade direta daquele senhor sírio, cujo nome eu jamais soube e cujo destino me é completamente desconhecido.

Talvez ele ainda tenha os olhos tristes e baços que lançou aos meus naquele dia. Talvez ainda resida, em seu coração, em alguma província síria onde não haja a guerra. Mais provável, porém, é que ainda resida na Alemanha, na pequena cidade de Weimar. Da segunda vez que fui à sua loja, ele não estava; disseram-me que havia ido visitar sua filha em outra cidade e que não voltaria senão após o Natal que, apesar de sua religião muçulmana e de não fazer parte de seus costumes, ele adotou durante sua estada na Alemanha e o faz feliz, especialmente as comidas de rua que são servidas na Praça do Mercado. Que ele possa, junto à filha, aproveitar esse toque de doçura em sua vida.

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