Jocê Rodrigues
A capacidade de ligar pontos e fazer conexões é uma das características mais fascinantes do pensamento humano. Somos construtores de pontes entre a experiência, o conhecimento e os limites do impossível. Não importa a distância, desde que haja abertura à possibilidade do erro, estabelecer vínculos entre áreas, conhecimentos e tradições tem sido exercício fundamental para unir estruturas e apontar rumos na História.
Para isso, é inegável a necessidade do cultivo de certa ousadia. Certa disposição para romper barreiras e encarar consequências desagradáveis. Caso contrário, não seríamos agraciados com as 900 teses de um Pico della Mirandola; com os insights da astrologia remedial e seus talismãs de um Marsílio Ficino; com as melancólicas meditações sobre iluminação de um Cornelius Agrippa; com o esforço para criar um caminho do meio entre hinduísmo e islamismo de um Dara Shukoh; nem com a estonteante interpretação heterodoxa da Divina comédia de um Gabriele Rossetti. Apenas para citar alguns.
Mas mesmo as ideias mais brilhantes, sejam elas fruto da numinosa agonia erótica do êxtase ou da mais profunda meditação racional cartesiana, correm o risco real de passarem incólumes graças aos caprichos da pressa, da limitação ou da má vontade de interlocutores de qualquer tempo.
Poucos encarnaram essa ousadia de modo tão radical na atualidade quanto o escritor e filósofo romeno Ioan Petru Culianu, dono de uma vida singular e cheia de percalços e reviravoltas.
Exilado desde a juventude por conta do turbilhão político que assolava a Romênia na década de 1970, Culianu conheceu a dificuldade e a miséria, chegando a viver por meses em assentamentos de refugiados na Itália antes de conseguir se reerguer e se graduar em História das Religiões na Universidade Católica do Sagrado Coração, em 1975.
Depois disso, lecionou por anos na Universidade de Groningen, na Holanda, antes de se tornar professor na renomada Universidade de Chicago, na qual se tornou discípulo e colaborador de Mircea Eliade. Lá, construiu uma carreira brilhante e meteórica, publicando livros sobre gnose e magia no Renascimento. Uma de suas grandes colaborações recai justamente sobre esta última.
Venator animorum
No livro Eros and magic in the Renaissance, publicado em 1987, Culianu demonstra com perspicácia que um dos grandes erros da contemporaneidade é fazer crer que as suas bases e engrenagens são fruto de extenso e impecável trabalho racional, quando, na verdade, algumas de suas principais bases estão calcadas em práticas mágicas adaptadas e colocadas sob um véu de pragmatismo e de utilidade prática.
Um dos grandes exemplos desse recalcamento mágico pode ser encontrado em áreas como publicidade, psicologia e nas relações públicas, que segundo as suas investigações pioneiras, são descendentes diretas da magia erótica do Renascimento, com as suas refinadas técnicas de manipulação do desejo e da vontade para criar uma falsa sensação de satisfação total.
Ao explorar a noção de um “pneuma”, ou espírito universal, passível de manipulação, Culianu evidenciou como teorias antigas enxergavam uma conexão direta entre o íntimo do pensamento e os eventos externos e como essas mesmas teorias foram sendo repaginadas até se tornarem parte do cotidiano.
Para ele, as montanhas de dinheiro que hoje se investem para desvendar o mindset do consumidor nada mais fazem que repetir, em escala industrial, o gesto de Giordano Bruno com os seus símbolos astrológicos imantados por Eros, com a finalidade de urdir imagens, fabricar fetiches e arquitetar miragens cada vez mais assertivas e apelativas.
Portanto, a diferença entre tais tradições e algumas das profissões mais procuradas na atualidade está no jargão, não na prática. No lugar de termos como pneuma, phantasmata e venatus, temos outros muito mais entediantes e desinteressantes, como neuromarketing, programação neurolinguística, slogan e público-alvo. No final das contas, ambas são sobre utilizar técnicas de manipulação para despertar desejos, criar laços e influenciar decisões.
Assim, a bíblia de todo publicitário e profissional de marketing, que não passa de versões modernas e mais enfadonhas do venator animarum (caçador de almas), não deveria ser o Propaganda, de Edward Bernays, nem a biografia de Washington Olivetto, mas sim o De uinculis in genere, de Giordano Bruno, que previu com absurda acuidade os meios pelos quais uma população poderia ser controlada por meio do uso de imagens.
Mas talvez nem todos estejam preparados para essa conversa, e esse é justamente o problema.
Geometria oculta
Nos anos seguintes, as conexões feitas por Culianu passaram a ser ainda mais audazes. Elas desafiavam os seus antecessores, pois a sua investigação transcendia a mera catalogação e o cotejo de crenças e movimentos díspares.
O que ele verdadeiramente buscava era o substrato universal que informa os padrões recorrentes na religião e na História e os encontrou numa adaptação da teoria matemática do caos, que acreditava capaz de ser perfeitamente aplicada aos acontecimentos humanos, juntamente com outras descobertas científicas relevantes do seu tempo.
O que chamamos de História seria, então, esse tecido movediço no qual se entrelaçam sistemas que carregam em si a marca de uma geometria oculta. Sistemas que nascem de um núcleo lógico mínimo, que existem numa dimensão paralela àquela na qual se desenrolam os acontecimentos e que só ganham vida quando a mente humana, em seu movimento errático, os ativa numa ordem que escapa a qualquer tentativa de antecipação.
Sua rotina de estudos incluía indagar se aquilo que chamamos de “coincidência” não seria um reflexo daqueles padrões mais profundos que ele intuía na mente e, por isso, mergulhou na ciência cognitiva, buscando compreender como a mente, a um só tempo, percebe e inventa o mundo. E a conclusão a que chegou foi que não há, por assim dizer, esfera da experiência humana que escape à definição de um jogo concebido pela mente. Esse tema foi amplamente explorado, previamente, em Out of this world, seu último livro acadêmico publicado.
Universo como labirinto
Quando estava próximo ao fim prematuro de sua vida, Culianu ficou cada vez mais interessado em entender como autores tecem mundos ficcionais na esperança de desaprender as aparências do que este mundo pretensamente deveria ser.
Para ele, a imaginação é também uma forma de percepção. Não são as realidades fantásticas que habitam a mente, mas sim o mundo real que se desdobra em fantasia e multidimensionalidade. Dessa forma, a nossa dificuldade em entender esse fato é fruto dos limites do nosso próprio intelecto.
Pensando nisso, ele viu na ficção uma forma de tentar quebrar os parâmetros estabelecidos pela rigorosa mentalidade acadêmica da qual estava tão imbuído. Nos passos de Jorge Luis Borges, que mesmo cego (ou talvez por isso mesmo) conseguia ver o infinito, Culianu escreve uma série de contos, nos quais amplia e intensifica de forma quase vertiginosa a sua especulação metafísica.
De acordo com ele, “a principal tarefa da arte no universo de Borges é escapar da tirania de um único sistema mental e adentrar em tantos outros quanto possível a fim de obter, a partir de sua comparação, uma liberdade para perceber o mundo”. Era isso. Havia encontrado a bússola pela qual se guiar em direção ao norte, ao topo da montanha de onde poderia apontar estradas poucos exploradas, águas pouco navegadas e pontos ainda não conectados.
Seus contos também são enciclopédicos, labirínticos. Narrativas de vasto repertório erudito, com enredos que friccionam as diversas camadas da realidade umas contra as outras. São meios para aprofundar a sua busca em entender padrões mentais e de como ela percebe e cria a realidade que nos circunda.
Publicado no volume 9 da revista Exquisite corpse, em abril de 1991, apenas um mês antes da sua morte sob circunstâncias misteriosas, baleado na nuca no banheiro da universidade, o conto “Sul linguaggio della creazione” (“Sobre a linguagem da criação”) versa sobre um professor de História que adquire numa feira de usados uma enigmática caixa musical que pertencera a um cientista do século XVIII, obcecado por descobrir a língua que Deus usou para criar o mundo. A caixa é silenciosa, mas após a possuir o narrador começa a manifestar estranhos poderes, ou carismas, como invisibilidade, sorte no comércio e paixões imotivadas.
Usando da liberdade que só a ficção pode proporcionar, ele questiona os limites da nossa cognição: “se alguém se tornasse o possuidor da língua divina, saberia disso?” Não seríamos nós, seres humanos, como autônomos, “cujas mentes são capazes de perceber a linguagem da criação somente como uma pura absurdidade”? E todas essas absurdidades “não poderiam ser justificadas como sinais de algo bem mais poderoso do que a nossa incapacidade de as compreender?”
São interrogações que ainda hoje desestabilizam convicções apressadas e expõem a fragilidade de certezas construídas a granel.
Eroici furore
Ao mesmo tempo em que estamos aptos a construir as mais fabulosas pontes, somos sugestionados a construir muros que isolam, separam e classificam. É inegável que ambas as estruturas, pontes e muros, são duas faces da mesma moeda já que, para que uma ponte exista, é preciso que antes haja dois lados apartados. O problema começa quando o muro se torna fim em si mesmo, quando a especialização deixa de ser método para se tornar dogma.
Ignorar tal problema implica em aceitar que o conhecimento se organize em gavetas estanques. Sociologia aqui, História ali, psicologia acolá, cada qual com seu vocabulário, seus métodos, seus rituais de iniciação e seus tabus. Quem renuncia à ousadia de conectar, perde também a dádiva de perceber a textura porosa do real. Ao agir desse modo, ficamos condenados a uma descrição empobrecida do mundo, apegados a descrições que tomam a parte pelo todo e o mapa pelo território.
A falta de certa humildade cognitiva para reconhecer que nossos esquemas explicativos são provisórios nos impossibilita de habitar modos de pensamento alheios sem os reduzir imediatamente a fórmulas pré-concebidas e aceitas.
Ioan Culianu aceitou o desafio de saltar muros e beirais e nos legou um conjunto de intuições abertas. Um convite incômodo para olharmos para as nossas próprias ferramentas conceituais, mentais e intelectuais e questionar a sua origem, a sua provenance e, principalmente o que elas escondem.
Diante desse desafio, apenas duas alternativas se apresentam: continuarmos confortavelmente instalados nos limites de nossos muros enquanto as fogueiras de São João ardem do lado de lá; ou nos permitirmos ser tomados pelo mesmo tipo de eroici furore para arquitetar ou atravessar passarelas pelas quais é possível atingir outros patamares, outras formas de ver, de sentir e de habitar o mundo.