Ana Paula Couto
Capítulo 1 – Voando alto com os pés fincados no chão
Achava também que qualquer vida era um risco e o risco maior era o de não tentar viver.
Conceição Evaristo
Era domingo, desses bem preguiçosos, quando recebi uma ligação de Laurinha. Eu ainda estava na cama terminando meu café com torradas e comendo mamão com mel. Adoro tomar café na cama lendo um bom livro! A súbita ligação me tirou da tranquilidade do meu ritual matutino por duas razões. Primeiro porque Laurinha nunca me ligava. Ela costumava dizer que hoje em dia ligação é declaração de amor, pois ninguém da sua geração gosta de falar ao celular. Mudanças trazidas com o advento do WhatsApp, Instagram e similares. Segundo porque Laurinha só acordava depois do meio-dia aos fins de semana.
Depois que ela terminou a faculdade e começou a trabalhar, logo quis ter seu espaço. Naquela época eu já estava casada com Arthur. Lau encontrou seu cantinho, pagava suas contas e vivia a sua vida. O trabalho a exauria demais e seu crescente desejo de aprimorar-se fazia com que ela se dedicasse horas e mais horas ao escritório. Embora a nossa vida tenha mudado completamente no decorrer dos anos, o que é supernormal, mantínhamos firme uma rotina de estarmos sempre juntas entre os cafés nas fugidinhas do trabalho ou em almoços quando tínhamos tempo.
No entanto, o celular vibrando às 10:00 horas da manhã, com o rostinho de Lau, em um domingo, me fez pular da cama sobressaltada:
“Oi, Laura! Tá tudo bem?”
“Oi, mãe! Tá tudo bem sim! E aí?” A voz calma dela me tranquilizou.
“Tá tudo bem também… estranhei você me ligar a essa hora num domingo. Levei até um susto, Lau. Tá tudo bem mesmo?!”
“Nossa, como você é dramática, né, mãe! Continua a mesma”. Ela ria. “A mesma não, você tá piorando com o tempo”.
“Lau, para com a palhaçada! Você nunca me liga, diz que ligação é coisa de gente velha, no caso eu, que sempre ligava pra todos na época em que se usava telefones para esse fim. Aí você me liga num domingo, que eu bem sei que você dorme até tarde! Pode falar o que está acontecendo, please“.
“Tá certo, mãe, quero mesmo conversar com você. Liguei pra trocar uma ideia sobre uma oportunidade que surgiu. Estou em dúvida sobre o que fazer”.
Senti uma mão em meu ombro que me trouxe de volta ao aeroporto. Eu é quem estava viajando nos pensamentos, que me levaram ao dia em que Laurinha me contou sobre a proposta de trabalho que recebera para fazer uma especialização em Portugal. Era Arthur me dizendo que o horário do embarque chegara.
“Vamos lá, meninas!”, ele disse.
“Mãe… MÃE!”, Laurinha berrou.
“Oi, Lau! Tava distraída aqui. Conseguiu despachar as malas?”, perguntei tentando voltar para o aqui e o agora.
A realidade era que Laurinha estava embarcando para morar fora por dois anos. Eu estava muito feliz por ela. Lau havia pesado os prós e os contras até tomar a decisão de finalmente viajar. Conversamos muito e senti que ela se preocupava sobre como eu ficaria, se eu me cuidaria etc. e tal. A verdade era que nós nunca havíamos ficado tanto tempo separadas.
“Consegui sim. Tá tudo certo! Mas estou ansiosíssima pelo voo… na real… não é pelo voo em si. Nunca tive medo de avião. Quem tem medo de avião aqui é o Arthur. Não é não, Arthur?” Ela, que sempre o pilhava, disse rindo. “É pelo que vem pela frente, eu acho. Sei lá o que tô sentindo”.
“Êpa! Não debocha do meu medo não, mocinha! Quem aqui morre de medo de barata?”, Arthur revidou a implicância.
Eles sempre mangavam um do outro o tempo todo. Lau fez uma careta para ele. Brincadeiras que tiravam um pouco a dramaticidade daquele momento.
“Laurinha, tá sentindo algo bom ou desconcertante?”, indaguei.
“É bom! Tô animada, com um pouco de medo também. Será que vai dar certo?”
“Faz parte, minha filha, é muita mudança, mas você batalhou tanto por isso! Vai dar certo, sim! E não esquece que você tá indo, mas tem pra onde voltar a hora que quiser e precisar!”
Naquele momento já estávamos chorando.
“Mãe, vamos fazer chamadas de vídeo sempre! Combinado?”
“CLARO! Claro que sim! Ai de você se não me mandar notícias! Vou infernizar sua vida e encher seu celular de mensagens de uma mãe carente”. Agora o riso se misturava às lágrimas, como tinha que ser.
“Mãe, você sabe que se eu cheguei até aqui foi com e por você, né?” Eu sabia, ela sabia, estava tudo bem.
Havia chegado o momento da minha filha sair verdadeiramente do ninho, de se transformar na mulher que ela estava buscando ser. E eu, como sempre, incentivando e acreditando em seu potencial só podia estar feliz, mas estava estranhando aquela despedida.
“Lau, eu não poderia estar mais orgulhosa de você!”
Nos abraçamos e fomos caminhando em direção ao portão oito. Laurinha despediu-se de Arthur, que continuava fazendo piadas. Talvez querendo trazer leveza a um momento que ele sabia ser desafiador para mim. A moça, de voz sedutora, chamou mais uma vez os passageiros pelo microfone. Mais um abraço apertado. Enchi minha filha de beijos e mais beijos e fiquei olhando-a partir, mas não sem antes gritar:
“Não pense que se livrará de mim! Nas férias vou te visitar!”
Laurinha abriu um sorrisão misturado às lágrimas e virou a curva do corredor. Eu fiquei ali petrificada, com os pés fincados no chão, vendo minha filha voar cada vez mais alto. Arthur me abraçou e me acalentou. Com um sorriso terno, de quem sabia o que eu estava sentindo, disse:
“Vamos, meu amor?”
Virei-me para ele e, de costas para o portão oito, respondi:
“Vamos!”
Eu sabia que não era um adeus e sim um até breve. Ao pensar assim meu coração aquietou-se. Olhei para frente e, de mãos dadas com Arthur, seguimos para o carro.
Sabe aquela sensação de déjà vu? Senti-me exatamente assim quando Laurinha partiu para morar no exterior. Eu havia sentido algo parecido quando ela saiu de casa, assim que acabou a faculdade, mas agora era diferente. Eu ficava me perguntando o porquê daquela sensação de um espaço vazio dentro do meu peito. Eu estava casada, minha filha já morava sozinha e eu sabia que era importante Laurinha alçar voos e ser feliz. Seria o racional em embate com o emocional?
Talvez.
Parece que foi ontem que eu a ninava no meu colo… Eu me perdia em pensamentos.
Lau começou a trabalhar e a ganhar o seu dinheiro, ela decidiu morar sozinha. Dei total apoio e a ajudei a encontrar um cantinho que fosse a cara dela. Ela necessitava de privacidade, principalmente depois que me casei. Ela e Arthur se davam muito bem, mas entendi perfeitamente quando minha filha decidiu sair de casa alguns anos após meu casamento.
Eu estava muito feliz em ver minha filha assertiva, decidida e independente, porém havia um lado meu com uma imensa estranheza. Custei a entender que esse desassossego pertencia à minha parte mãe, que ficou meio perdida em minha parte mulher. Não sei se me entenderão. Creio que sim.
Por tantos anos fui a mãe de Laurinha. Sem ela por perto, eu meio que não sabia quem eu era. Ou melhor, eu havia me esquecido de quem eu na verdade era sem ter que cuidar da minha filha. Meio confuso, talvez, mas foi assim que eu fiquei.
Ao deixar Laurinha no aeroporto, senti-me voltando àquela fase chamada síndrome do ninho vazio, mas de forma diferente. Eu não iria visitá-la sempre, e nem ela a mim. Não poderia mais passar na padaria, de vez em quando, e comprar uma coisinha para Lau. Nossos almocinhos ou lanchinhos de fim de tarde nos fins de semana não aconteceriam mais. Enfim, a vida como ela é estava batendo em minha porta.
Apesar de saber do quanto essa mudança seria ótima para minha filhota, de estar orgulhosa e feliz por ela correr atrás de sua carreira e independência, eu estava meio desajustada com a saudade que agora apertava mais.
Compreendi que talvez fosse o maroto destino me fazendo chacoalhar mais uma vez. Talvez fosse agora o momento de eu me reconectar com a mulher que sou e não tanto com a mãe. Onde está essa mulher que passou anos e anos cuidando de Laurinha? Quem eu era antes de ser mãe? Como é agora cuidar só de mim? Eu só me lembrava, antes de ter minha filha, de ser uma jovem despreparada e insegura. Essa lembrança não me ajudava muito em saber onde eu estava. Não sou mais, com toda certeza, aquela garota inexperiente que engravidou, nem tampouco sou aquela mãe que tem os filhotes embaixo da asa.
É claro que eu continuaria sendo sempre a mãe de Lau, disso eu sabia; no entanto, ela agora não precisava de mim o tempo todo.
Que bom isso! Que estranho isso! — Pensamentos contraditórios me invadiam.
Restava a mim redescobrir quem eu era antes de ser mãe, quais eram os meus sonhos e em que mulher eu havia me transformado após os meus 50 anos. Era muita coisa para reformular, então, olhei-me no espelho e falei para mim mesma:
“Um dia de cada vez… um dia de cada vez… um dia de cada vez!”