Um anzol sem peixe

W. Marshall, gravura de Hildegard von Bingen (1642)
Wellcome Collection

Jocê Rodrigues

No século XII, a mística, herbalista, matemática, musicista e poeta Hildegard von Bingen apresentou ao mundo a sua lingua ignota (língua desconhecida), um glossário com mais de mil palavras, sem verbos ou adjetivos, em uma linguagem revelada para ela durante uma de suas visões por inspiração divina.

Composta por um alfabeto de 23 letras, batizado de litterae ignotae, a língua criada por ela sobreviveu ao tempo graças à preservação de dois manuscritos: o Riesencodex (guardado na cidade de Wiesbaden) e o Codex Cheltenhamensis (na cidade de Berlim).

Retrabalhando partículas da língua latina e do alemão, a linguagem desconhecida de Hildegard veste com novas roupas os nomes de objetos como utensílios de cozinha, temperos, plantas, cargos, profissões e objetos de uso litúrgico, organizados a partir de uma hierarquia que começa com Deus, passa pelos anjos e chega ao mundo material.

Curiosamente, o glossário termina antes que os mamíferos, além do homem, sejam listados. Também não existe uma palavra para o peixe, por exemplo. Isso levanta duas hipóteses interessantes, entre tantas outras: (1) o glossário ficou inconcluso e, portanto, não houve continuidade para que todas as outras criaturas fossem devidamente representadas; e (2) a sua língua descrevia um cenário pós-apocalíptico no qual existe uma enormidade de ferramentas manufaturadas, como o anzol, mas não o peixe para o qual ele foi construído.

Usando a segunda hipótese como ponto de partida, a artista neozelandesa Sriwhana Spong criou uma interessante exposição chamada “a hook but no fish” (algo como “um anzol sem peixe”), na qual explora um futuro em que as ferramentas e as tecnologias sobrepujaram a vida orgânica; um mundo no qual temos os meios necessários para capturar um peixe, mas em que os peixes deixaram de existir.

Spong, que tem genuíno interesse na vida das mulheres místicas da Idade Média, enxerga a linguagem secreta de von Bingen também como um ato de subversividade em relação ao mundo dominado por uma linguagem predominantemente masculina. “Eu vejo a lingua ignota de Hildegard como um gesto subversivo e celebratório em que o corpo excluído se insere no próprio espaço ao qual é negada a sua entrada e, ao fazê-lo, cria uma nova forma”, disse a artista em entrevista para a Ocula Magazine. “A tarefa de nomear, dada por Deus a Adão – ela a roubou”.

Intencionalmente subversiva ou não, essa linha de interpretação profética da lingua ignota sugere que tais visões tenham permitido que as cortinas selando os cômodos do tempo tenham sido abertas para que ela tivesse o vislumbre codificado de um futuro possível.

De acordo com essa perspectiva, enquanto os olhos modernos se voltaram, encantados, para as maravilhosas criações que davam passagem para a marcha constante do progresso, Hildegard von Bingen, lá nos anos de 1100, talvez tenha emprestado os seus olhos para que os outros pudessem ver ainda mais adiante e, se fossem suficientemente atentos, se antecipassem ao que estava por vir.

Para antecipar-se a algo, é necessário revisitar o que já se foi e o nosso cérebro, nas palavras da astrofísica Ersília Vaudo, é “essencialmente um dispositivo que lembra o passado para prever o futuro, uma máquina que, se não consegue compreender a natureza do tempo, pode, no entanto, dar-lhe significado”.

O problema é que o pensamento moderno/contemporâneo, hiperacelerado e hipertrofiado pelas demandas de uma sociedade baseada em desempenho, não pode se dar ao luxo de olhar para trás, quiçá para o lado, para o próximo, para o rosto que reflete a extensão do infinito, como diria Levinas.

Tampouco está interessado em significados, ainda que sejamos, para usar uma abordagem cartesiana/baconiana, mesmo que eu mesmo esteja em desacordo com ela, como máquinas ontológicas a todo tempo produzindo significados sob esse enorme, e por vezes traiçoeiro, guarda-chuva que chamamos de cultura.

Na década de 1990, Terence McKenna alertava sobre como a cultura também pode ser uma grande armadilha. De acordo com ele, existe uma certa ingenuidade sintomática em acreditar que ideologia e cultura são conceitos puramente inofensivos e amistosos. “Se você tem dúvidas, pergunte a um garoto enviado ao outro lado do mundo com um rifle para matar estranhos se a cultura é sua amiga”, disparou, certeiro, o filósofo e etnobotânico numa de suas famosas conferências.

O ataque de Mckenna dirigia-se principalmente ao que se costumava chamar de “cultura de massa” e que hoje pode ser redirecionado para o modo como as novas tecnologias moldam e influenciam na forma como interagimos com nosso entorno, em nossas relações pessoais, familiares e afetivas.

A expansão inescrupulosa de uma cultura digital hegemônica e desprovida de alteridade se dá por ferramentas que não devem ser ligadas apenas aos aparatos materiais como telas, consoles, fones de ouvido e outras interfaces, mas principalmente por meio de uma linguagem cada vez mais esvaziada, empobrecida. Isso torna toda a situação ainda mais sombria, já que é por ela, pela linguagem, que se chega à subjetividade (ou inconsciente) e à arte: peças fundamentais para os atos criativos e apocalípticos que exercem enorme influência gravitacional entre si, orbitando uma à outra sem ordem hierárquica claramente definida.

Em suma, tal projeto de expansão tem como prerrogativa a obliteração de qualquer outra cultura que não atenda às suas exigências. O processo de homogeneização, como bem já nos ensinaram os protocolos da colonização, nunca acontece pacificamente. A dizimação do outro é parte do seu modus operandi e qualquer rosto que demonstre uma essência diferente daquela que a cultura dominante vê quando se olha no espelho, precisa ser apagado ou substituído por uma máscara.

Visto que a maioria das realidades ou interações virtuais padece da falta de inteira abertura e de participação que caracterizam as práticas rituais tradicionais, o termo simulação serve como uma luva para uma cultura que tem como meta a alienação, tanto da vivência interior quanto da vivência em comunidades reais (no plural), enquanto promove a ilusão de uma vivência coletiva mediada por telas e por ferramentas.

Ou seja, uma cultura repleta de anzóis, mas já quase sem peixes para fisgar.

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