Alberto Eloy
Eros
só a quem te achegas
é possível
crer-te
acontecido?
viável?
és ventura
da boa sorte
ou
cadafalso da folia?
por que te esquivas
qual franja de onda
que nunca quebra?
és profundo
mar alto
que não se navega?
os lemes de tuas flechas
incendiaram o alvo
e do coração tiraste férias?
sendo-te um
não é porventura injusto
(ou muito potente?)
acertares com uma só flecha
dois seres
antes de estarem
juntos?
por vezes tantas
não negas festas
justamente àqueles que mais
e mais intensamente
te querem?
diz-me, sorrateiro:
como não abjurar
de teu arco
e flechas?
como não abjurar
de teu arco
e flechas, se és
o maioral
neste jardim
insone?
Amor
amor, o quê e quem, vário, em ti
lhe fez, intensa, me olhar assim
daquele jeito, qual fogo, qual sílfide
luzindo a noite que jaz em mim?
de que constelação e sopro
vieste, inaudita, tua presença trazer
como se ao meio do turbilhão
um estalo de luz se fizesse alvorecer?
como pode um sol no meio da noite
um fulgor espargir eletrizante
qual chispa impossível que não se note?
e, o que fazer agora? e em diante?
como posso eu, aprendiz de amador,
ser incompleto, te sentir inteira, amor?
Ilegibilidade
texto cego
para o
instante
fogo humano
a crepitar em
silêncio
passagem veloz
da plenitude
vazia
Do silêncio
das vozes esperar
palmas
é galhardia que não
convém
aqui bate-se
palmas
com uma mão
só
Do sol
do amor
à flor
não há
distância
o elo é
um só
sol
Mimadinhos da estrela
violentos sabichões
não sangram
ao se "saberem"
fartamente
derramadores
de sangue
Mito da caverna II
caverna cósmica
de respostas
sem que eu
tenha perguntado
nenhum enigma
Expansão
selvagem
e puro
o silêncio
cicia e se
cria
Universal
simbiótica conexão
aqui
agora
com verso
e com o silêncio
que resta e
suspeita
Do perigo de no raso nadar
quem no raso nada
e da boca pra fora fala
não se afoga em nada
mesmo que o mar beba calada
quem no fundo afunda
e da mente se se avoa
não se afoba poça imunda
de "martírios" em aço, à toa
quem no raso nada
em nada há de afogar-se
pois quem da boca pra fora
fala, nem sapo há de demorar-se