Fabiana Corrêa
A Caatinga
O sol é o inimigo que é forçoso evitar, iludir, combater. E evitando-o pressente-se de algum modo, como o indicaremos adiante, a inumação da flora moribunda, enterrando-se os caules pelo solo. Mas como este, por seu turno, é áspero e duro, exsicado pelas drenagens dos pendores ou esterilizado pela sucção dos extratos contemplando as insolações, entre dois meios desfavoráveis – espaços candentes e terrenos agro – as plantas mais robustas trazem no aspecto anormalíssimo, impressos, todos os estigmas desta batalha surda.
Euclydes da Cunha
Os sertões
No início de tudo, é a terra que nos conta uma história.
Comecemos nossa aventura pela minha casa no sertão, a Caatinga.
O sertão é de terra batida, ressecada, onde as plantas resistem como podem à escassez de água e nós, animais, desafiamos a sobrevivência. Arbustos se apegam como podem à terra e se espalham pela paisagem com seus galhos tortuosos que se trançam uns nos outros.
No tempo da nossa história, a chuva não vem. Os leitos dos rios estão secos. Neles só se encontram cascalho e pó. As raras cacimbas também estão secas. O ar é de extrema secura. A flora, despida de folhas, embaralhada entre galhos e espinhos reflete o sofrimento da terra. A Caatinga é como bicho, planta ou gente que sofre em conjunto a cada ciclo de seca e se renova a cada temporada chuvosa. Mas a chuva ainda não chegou. Resistimos. Meses e meses sem uma gota de água escorrida do céu. Meses e meses, o céu não se fazia escorrer em uma gota de água. São anos que sobrevivemos com chuvas fracas e raras. O que já foi verde, agora é cinza e desbotado. A Caatinga toda suporta como pode, aguardando a chuva sempre adiada. Quando o vento sopra quente, vindo de outros cantos, não traz chuva. Ele vem anunciar mais calor, desgaste, pó e fome.
Enquanto os cactos salpicam o campo aberto e os espinhos são o seu recurso contra a perda constante de água, o sol não dá trégua. Por aqui, as plantas não crescem muito. São sempre menores do que seriam se crescessem em outras bandas, onde a água é farta. Por medida de economia crescem como podem, com o mínimo de água que lhes cabe. E como quem insiste em crescer, cada árvore ou arbusto, estende seus galhos tortos o mais longe que pode, alargando sua copa. É o esforço para absorver qualquer mínimo e remoto traço de umidade no ar, enquanto suas raízes travam batalhas permanentes e árduas no solo duro e ressecado. Elas se atrofiam. As raízes principais não conseguem alcançar grandes profundidades. Em compensação, as raízes secundárias espalham-se como podem, vencendo a resistência do solo em busca de água. Quanto maior a área por onde se espalham, maiores são as chances de sucesso. É a manutenção do mínimo para a sobrevivência.
A Caatinga parece morta sob o sol inclemente. Mas, para quem sabe enxergar, reconhece vida por todos os lados, insistindo em brava resistência, achando jeito de acontecer.
Em minhas corridas, entre uma sombra ou outra, passeio entre xiquexiques, mandacarus e coroas de frade, que estão mais cinzas do que verdes mas sobrevivem. Enquanto os xiquexiques de espalham com seus espinhos pela terra, a partir de uma touceira ou outra os mandacarus e facheiros se espicham ao céu que não lhe atendem à súplica pela água. Os coroas de frade espelham-se como globos espinhentos e resistentes. Há uma dose de sorte para quem encontra os quipás resistentes e conseguem extrair de sua polpa, alimento e água para a criação. Quando a macambira resiste e insiste, folhas e frutos viram alimento para quem vive e se aventura no sertão.
Eu gosto mesmo quando encontro um umbuzeiro ou uma umburana. Sua sombra é uma acolhida que alivia um pouco o calor. Procuro sob a sombra de seus galhos e folhas um pedregulho que me abrigue de um predador qualquer. Juazeiros e faveleiras servem ao mesmo propósito, mas cada vivente do sertão tem suas preferências.
O sertão também sabe florescer. Contei tudo sobre o período seco em que me encontro, mas minha memória esperançosa, de bom sertanejo que sou, lembra da abundância quando a chuva vem e o sertão renasce em fertilidade. É um paraíso. Aprendemos a viver verões ferventes e famintos na esperança de invernos úmidos e nutritivos. Quando a chuva chega, a Caatinga despede-se do cinza e se veste dos mais variados tons de verde enfeitados por flores à espera dos polinizadores, que chegam logo cumprindo o seu papel na perpetuação da vida. Essas duas estações se intercalam e nós sobrevivemos como possível a uma, na esperança da outra. Somos irmanados à terra no ritmo do tempo que vai da extrema secura ao improviso da chuva. E assim resistimos no coração da Caatinga.
Quando encontramos um rio perene no sertão, como é o Vaza-Barris, temos certeza de que é um bom lugar para se estabelecer. E é desse lugar, que escolhi para viver, que enxerguei e vivi a história que vou contar. Uma história de gente, de um lugar e de uma batalha.
Ao sobrevir das chuvas, a terra, como vimos, transfigura-se em mutações fantásticas, contrastando com a desolação anterior. Os vales secos fazem-se rios. Insulam-se os cômoros escalvados, repentinamente verdejantes. A vegetação recama de flores, cobrindo-os, os grotões escancelados, e disfarça a dureza das barrancas, e arredonda em colinas os acervos de blocos disjungidos - de sorte que as chapadas grandes, entremeadas de convales, se ligam em curvas mais suaves aos tabuleiros altos. Cai a temperatura. Com o desaparecer das soalheiras anula-se a secura anormal dos ares. Novos tons na paisagem: a transparência do espaço salienta as linhas mais ligeiras, em todas as variantes da forma e da cor.
Dilatam-se os horizontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o expandir revivescente da terra.
E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono.
Euclydes da Cunha
Os sertões