Teoria da evolução

Georges La Tour, "José, o carpinteiro" (c. 1642)
Museu do Louvre

Fábio Franco

Eram mãos perfeitas para abrir portas. Mesmo sendo destro, conseguia acertar sem vacilo com a mão esquerda a chave na minúscula fechadura. E com delicadeza firme de um cirurgião ia abrindo a grade e depois a porta. As mãos seguiam independentes removendo o cadeado, conscientes de seus movimentos, como se para isso é que elas fossem feitas.

Sem barulho algum, entrou em casa pela porta de serviço e, sabendo que o filho jamais o esperaria ali àquela hora, falou alto e suave: “cheguei”.

Otávio não precisava ver o pai para saber que estava ainda com aquela camisa azul, talvez com dois ou três botões abertos, e com aquele chaveiro pendurado na cintura: as chaves dos portões do prédio, da piscina, da caixa de correspondência e tantas outras que roçavam entre si fazendo aquele barulho metálico e discreto, mas que o lembravam constantemente de que o pai era um porteiro.

“Estou estudando pra prova de amanhã”, disse, embora estivesse apenas rabiscando pequenas e infinitas espirais no caderno. “Não ia virar a noite hoje?”, indagou com indiferença.

“Troquei o turno com Batista”, explicou o pai, “e também…”, falava agora quase sem jeito”, “também queria ver o Sergipe, se não for atrapalhar.

O futebol não atrapalhava. Otávio não ligava para barulho, aprendeu a estudar em ambientes lotados, no movimento do ônibus, a tevê em nada atrapalharia sua concentração. Mesmo assim, nada disse.

“O que você está estudando?”

“Você não entenderia”.

E não entenderia mesmo. Darwin não era assunto que porteiro comentasse. Aliás, lembrou-se — e com que vergonha! — de quando o pai comentou na frente de um colega da escola sobre a coragem dos repórteres em filmar os dinossauros. “É computação gráfica, pai”, disse apressado. Mas explicar só piorou as coisas. No dia seguinte, todos estavam sabendo da “nova do pai de Otávio”.

Como se estivesse fazendo algo proibido, o pai acomodou-se no sofá e ligou a televisão, baixinho, a mão segurando o controle, pronta para desligar a qualquer momento.

““Na natureza não sobrevive o mais forte, mas o que melhor se adapta”, Otávio ia lendo as anotações. Ser porteiro não parecia ser uma evolução. Otávio observava, de canto, o pai tão feliz vendo o jogo, tão satisfeito e sentia que o minúsculo apartamento ia ficando ainda menor.

“Está atrapalhando?”

Otávio não respondeu, os olhos fixos no livro, as mãos segurando a testa, representação máxima do esforço mental. Como podia sentir tanta alegria com um jogo inútil? Como se não precisasse, no final do mês, ligar para algum parente e pedir mais uma vez dinheiro para pagar a internet. “É que hoje em dia as crianças só estudam pela internet”, justificava para um primo com mais condições, e finalizava com certo orgulho: “a escola de Otávio é muito puxada”.

Na estante, o retrato da mãe. O sorriso melancólico. Será que ela sentia que ia morrer pouco tempo depois daquele dia?

Ah, como tudo era bom! Os três eram uma peça só e tudo bastava. Mas agora que já era um rapaz e nasciam-lhe pelos em lugares onde não imaginaria ser possível, agora que tinha treze anos e conhecia coisas novas, mundos novos, via o seu pai lá atrás, tão pequeno.

Não poderia, por exemplo, comentar o caso das mariposas de Manchester. Não que precisasse de ajuda para entender, Otávio era o melhor da turma (sua bolsa dependia disso), mas é que queria poder compartilhar com alguém as descobertas desse mundo novo.

Já tinha maturidade suficiente para entender que dali a alguns anos, teria que ir sozinho. Trabalhar, juntar dinheiro, comprar uma casa — sobretudo comprar uma casa. Para onde eles iriam quando o pai perdesse o emprego? Pensava nisso e o ar sumia, a respiração ficava curta.

No sofá o pai parecia um balão que ia enchendo aos poucos. Crescendo, crescendo. É que um pênalti para o Sergipe seria cobrado, e Otávio observava o pai inflar, retendo aquela alegria antecipada. Até que o balão estourou:

“Goooool!”

E nesse momento o pai era apenas um garoto que amava futebol.

Otávio arrancou o controle de sua mão e desligou a tevê. O jogo não atrapalhava, não atrapalhava mesmo, mas ele não podia mais suportar:

“Eu sei que você não entende, mas eu preciso estudar”, e olhou bem nos olhos do pai.

Era a primeira vez que o olhava assim. “Já é um homem”, pensou o pai, “já é um homem feito” e sentiu tanta falta da esposa…

“O tempo está passando e eu já tão cansado”. Era cada vez mais difícil não resistir ao cochilo durante a madrugada, quando é sempre o momento em que alguém chega sem a chave e aperta com força o interfone. “Porteiro é uma profissão inútil”, ouvia os moradores cochicharem e corria para chamar o elevador e compensar a demora em abrir a porta. “O tempo está passando rápido”, concluiu com um pouco de susto.

Pediu desculpas e Otávio ficou ainda mais irritado.

“Vou ver se o Batista precisa de alguma coisa”.

O pai saiu fechando os três botões da camisa. De novo aquele som das chaves batendo umas nas outras.

Pouco tempo depois, ligou para o filho, disse que Batista precisou ir para casa, que ele mesmo ia pegar o turno da noite e emendar até o meio-dia. Nessa madrugada o pai não cochilou, apesar do cansaço. Estava alerta, não só em relação ao portão, mas também a outras coisas. O mês estava acabando e mais uma vez precisaria ligar para o primo. Segurou a testa com as mãos, como sempre fazia quando estava preocupado.

No dia seguinte, Otávio acordou ainda no escuro, para ter tempo de revisar alguma coisa antes da prova. Quando chegou à cozinha, encontrou a mesa arrumada, o jogo de xícaras que a mãe ganhou de casamento, o pão ainda quente, o café fresquinho. E na porta a chave balançava discretamente.

Compartilhe:

Sete poemas

Sete poemas do livro Azul instantâneo (Editora do Autor, 2018) de Pedro Vale.

Translate