O senhor Presidente de Miguel Ángel Asturias

Pieter Bruegel, o Velho, "Os pedintes" (1568)
Museu do Louvre

João Francisco Milani

Na rua alegre e colorida, foi uma mancha
de inútil dissonância.

Ninguém sentiu sua tragédia.
A ausência de seu riso.
A forma quase definitiva de seu rosto.

Um dia, inclinei-me sobre ela
como quem se procura num espelho.

Os olhos sorriram brevemente. Apenas os olhos.
Porque a boca permaneceu na linha triste,
que a compunha.

E caminhou sem pressa.
Defendida pelos lábios,
que eram a sua fortaleza de silêncio.


Lila Ripoll

A fortaleza do silêncio versada pela Lila Ripoll acima é um ótimo ponto de partida para relatar a leitura de O senhor Presidente (1946) de Miguel Ángel Asturias. Isso porque é uma metáfora capaz de descrever tanto a experiência das personagens do romance, mas também a experiência de leitura da obra. Não em relação à escrita de Asturias, cujo ritmo frenético e alucinante só poderia causar silêncio pelo torpor, mas pela maneira que nos faz penetrar o mundo cruel em que vivem os personagens para tentar entender como é possível viverem daquela maneira sem nos dar nenhuma brecha de esperança ou de luz (além das duas horas diárias que o protagonista recebe no seu fundo do poço bastante literal no último capítulo).

Além dessa sensibilidade na experiência da leitura do romance, há também uma aventura por temas da política e da vida na América da virada do século XIX para o XX que Asturias cria a partir da Guatemala, mas que certamente pode ser estendida a outros países. Acompanhamos essa série de tramas a partir de um ecossistema, ou cadeia alimentar, de personagens, uma fauna humana tentando sobreviver a um poder invisível e, ao mesmo tempo, bastante material e presente na vida de todos. Essa teia assume uma escala imediatamente larga, uma vez que começamos um livro chamado de O senhor Presidente lendo sobre os moradores de rua, quer dizer, do posto mais alto da república às pessoas mais marginalizadas do país em apenas uma página.

Essa diversidade de níveis presente na obra pode ser vista também na vida de Asturias, um intelectual e militante político preocupado com o seu país. Em O senhor Presidente ele articula olhares de jovens acadêmicos, de políticos e de pessoas do povo marcados por uma vida reprimida e, ao analisar a sua vida, enxergamos relações com o que ele está representando, seja como militante político quando universitário na Guatemala, como defensor do governo Árbenz e de suas reformas revolucionárias ou exilado político com o direito à cidadania no seu país retirado pela ditadura Castillo Armas.

Além desses aspectos que demonstram alguns lugares de onde seus impulsos no romance podem ter se originado, vale mencionar também o período na juventude morando em Paris nos anos 1920 e 1930. Lá, ele teria feito amizade ou, no mínimo, tido contato com autores surrealistas como Peret, cujos poemas revolucionários em Le grand jeu (1928) parecem influenciar O senhor Presidente, assim como o mestre surrealista Louis Aragon e sua descrição de lugares da cidade como maneira de criar teias espaciais vivas em Le paysan de Paris (1926).

E é justamente descrevendo um lugar que Asturias começa o romance. “No portal do senhor”, o primeiro capítulo, ele nos pinta em detalhes a cena dos moradores de rua dormindo em frente à catedral até que um deles, em um surto, mata um militar, pondo em movimento a máquina repressiva do romance. O senhor Presidente é a história em três partes de como o medo, instaurado por uma ditadura em que todos, principalmente o ditador, sempre parecem saber de tudo o que acontece na vida privada das pessoas, dilacera a vida de seus personagens. Especialmente a de Miguel “Cara de Anjo”, o protagonista da história, que nos oito dias contemplados nas partes 1 e 2 do romance vê seu status de principal conselheiro do Presidente abalado pela mesma trama de conspirações que ele operava.

Além dele, seguimos outros personagens emaranhados na história do assassinato do militar no primeiro capítulo, todos navegando no império de medo de uma ditadura. A relação deles com o crime ou o seu local pode variar muito, desde outros moradores de rua que testemunharam a cena até a esposa de um homem que deseja entrar para a polícia secreta; a vida de todos é afetada, quase sempre resultando em dor e desespero, devido ao fato fundador de O senhor Presidente. Isso porque, após o assassinato, o ditador ordena Cara de Anjo a incriminar dois adversários políticos e a arranjar a execução do verdadeiro culpado. Cada uma dessas ações se desdobram em pontos nevrálgicos na história, que passam a envolver mais personagens.

O senhor Presidente tem uma narrativa, em sua maior parte, verticalizada, lembrando a estrutura da cela de Cara de Anjo ao final da história. Vertical no mesmo sentido que mencionei anteriormente: vamos do título que leva o nome do Presidente diretamente aos miseráveis que moram na rua. E, nas primeiras duas partes do romance, temos um corte de diferentes camadas da população vivendo poucos dias. A construção desse edifício é um tanto mais significativa para o autor do que a progressão narrativa. Conhecemos o protagonista da história apenas no quarto capítulo e, a partir do sexto, seu papel é plenamente apresentado.

Nesses quatro capítulos iniciais, o autor desenha o mundo do seu romance a partir da perspectiva dos de baixo. Entre os que dormem no Portal do Senhor, o que mais chama atenção é o Bobalhão, um personagem que ri da própria dor e clama por uma mãe morta, constantemente alvo da violência alheia por sua condição inadequada ou talvez por se lembrar de um mundo em que não havia dor. Esse personagem, que é também quem move as engrenagens da história, parece uma metáfora justamente aos que vivem sem reação à violência estatal em uma sociedade de controle, negando a própria realidade, tal como: “[…] depois adormecia, aos poucos, vencido pelo sono, com ecos de náuseas na consciência partida. Mas, ao adormecer, a voz de outra roupa dotada de boca o despertava: – Mãe!”

Asturias demonstra algum otimismo quando faz justamente esse Bobalhão, após muito provocado, matar o homem que, talvez por coincidência, era um militar importante no país. O personagem que tem o poder máximo de fazer a história começar, um miserável desatinado que mora na rua, encerra a sua passagem pelo romance quase imediatamente. Pois o poder na ditadura do Presidente é uma torre de mentiras e intrigas, sem espaço para as coisas que aconteceram de fato, mas apenas para os desejos pessoais de um homem sádico, capaz de tomar das mãos do Bobalhão o controle sobre a própria história e distorcê-la a seu favor.

Claro que todo o poder que o Presidente exerce não é operado por ele mesmo; ele é tão distante de nós, leitores, que sequer nos dá o seu nome. Quem fica responsável por esse trabalho um pouco sujo de lidar com as aparências das coisas é o homem “tão bonito quanto o diabo”, Cara de Anjo (nessa bela antítese usada por Asturias). Ele lida com o que não está à altura do senhor Presidente, como incriminar o general Canales e o advogado Abel Carvajal pelo assassinato cometido pelo Bobalhão, ajudar Canales a fugir do país e conduzir a narrativa do romance.

Esses deveres assumidos por Cara de Anjo, que no fim das contas não é mais do que um operário construindo o edifício do poder, são os motivos da sua ruína. A fabricação da culpa do advogado e do general vão formar paralelos com a sua própria queda. A ajuda na fuga de Canales efetivamente vai mudar o seu papel no mundo do ditador e o trabalho de narrador será a desconstrução da linguagem enquanto ele enlouquece nos limites éticos para sobreviver sob um regime de terror.

Para começar retratando aquilo que é mais célebre em O senhor Presidente: o fato de ser um romance tido como um dos fundadores do realismo fantástico latinoamericano, fato marcado principalmente na maneira como Miguel (Asturias e Cara de Anjo) constrói a desagregação mental do seu personagem. O que tem de fantástico no romance não é o mesmo que nos acostumamos na literatura latinoamericana, no sentido de que não é propriamente a realidade que se esfarela frente aos desafios do continente. O que se desfaz no romance é o controle que a narração tem sobre a realidade, de modo que ao longo da trama entramos nos sonhos e nas alucinações dos personagens.

No capítulo XXI, “Girar em círculos”, após Camila Canales, filha do general, ser resgatada por Cara de Anjo e posteriormente renegada por sua família, ela se torna responsabilidade do ajudante do senhor Presidente. O protagonista, entendendo o risco em que está por ajudar a filha de um inimigo do presidente, ainda que tenha sido ordenado a tanto, experimenta a desagregação do sentido racional que vivia até então. Esse capítulo nos coloca no seu inconsciente. Enquanto ele sonha caminhar em um bloco de gelo formado por lágrimas, o personagem já não aparece em parágrafos concisos e quase parnasianos, formatados e organizados. Formam-se parágrafos longos e sem períodos, apenas pensamentos não conectados. O conteúdo desses pensamentos também desperta bastante interesse porque, assim como na cena dos moradores de rua no Portal do Senhor, a descrição dos sonhos de Cara de Anjo é povoada por imagens de animais. Ele está saindo de perto do topo da república e ficando mais parecido com os de baixo.

O contraponto da desagregação subjetiva da linguagem do Cara de Anjo ocorre quase imediatamente após essa aventura nos seus sonhos. O capítulo XXIII, “As correspondências do senhor Presidente”, é o momento em que ficamos mais próximos de ver o mundo pelo ponto de vista do ditador. Se voltarmos dois capítulos, temos o colapso da linguagem frente à autoridade do senhor Presidente. E, no capítulo XXIII, o que impera é o excesso da linguagem racional e organizada: lemos cartas que são apresentadas em lista numerada, que nos contam o nome de cada remetente e, pela única vez em todo romance, organiza as diversas linhas narrativas da história em um lugar só.

A escrita de Asturias opõe dois jeitos diferentes de pensar. O ditador que causa tanta dor e desespero a tantos personagens enxerga tudo isso (a própria totalidade do romance) como uma pilha de dezesseis cartas lhe contando algo de maneira tão mecânica quanto a maneira pela qual ele registra essas informações; ou a morte ordenada pelo Presidente “daquele animal” no quinto capítulo. Dessa forma, Asturias relaciona o pensamento automático e técnico do tão poderoso ditador da sua história à sua autoridade. Se vemos Cara de Anjo se aproximando dos que sofrem as consequências do autoritarismo do senhor Presidente porque o seu pensamento se desorganiza nas páginas do romance, vemos o topo da cadeia de terror como uma lista de histórias perfeitamente ordenadas, um contraste perfeito.

Para falar sobre como a escrita de Asturias é definidora do que o autor está denunciando é fundamental confrontar estes dois polos de expressão: a subjetividade do capítulo XXI com a objetividade do capítulo XXIII. E a melhor maneira é mergulhando no que está escrito no capítulo XXII. Se até agora descrevi a relação dos personagens homens de O senhor Presidente com a narrativa do romance, daqui para frente pretendo me concentrar na descrição que o autor faz das mulheres e da sua relação com o autoritarismo e com o edifício do seu poder.

No capítulo XXII, chamado de “O túmulo vivo”, reencontramos uma personagem que havia sido esquecida no fundo de uma cela, deixada com o seu bebê morto no colo após passar horas sendo torturada. Para falar de Niña Fedina, quero retomar o poema de Lila Ripoll que abriu esse texto: a fortaleza do silêncio invocada pela poetisa descreve precisamente a mãe que anda abraçada no cadáver do seu filho enquanto é traficada de uma prisão para um prostíbulo sem dizer palavra nenhuma. No entanto, o seu silêncio causa incômodo a todos que a veem, sem que ninguém saiba do estado da criança que leva consigo. Asturias escreve que ela sentia “como se o guardasse de novo em seu ventre” (p. 195) e que “os túmulos são escuros por dentro, mas calados por fora” (idem). É assim que Niña Fedina fica perante o mundo que tirou tudo dela.

Se a razão da ditadura se comunica através de cartas e da loucura dos inimigos do senhor Presidente são descritas pelos seus sonhos, Niña Fedina não fala com ninguém, nem com a gente. Asturias utiliza um grande arcabouço poético para descrever o que ela sente, o cheiro e a textura de onde está, o que ouve das pessoas à sua volta, mas nem ele consegue a acessar mais; o estado dela é “de inexistência para tudo que não fosse o filho” (p. 199). Assim, o autor nos coloca frente a outro aspecto da vida sob o autoritarismo: Cara de Anjo, no seu momento de desespero, ainda consegue falar, mas a mulher que perde a sua família para a violência do Estado se torna um túmulo e sequer tenta se apresentar para o leitor, já que isso não importa mais.

O crime de Niña Fedina, que justifica a barbárie com que o Estado e o autor a tratam, é talvez o pior dos crimes sob a ditadura do senhor Presidente: o crime da solidariedade. Após descobrir que o general Canales seria preso, Fedina decide avisar a filha do general, que seria madrinha do seu filho, do perigo que estão correndo. É o suficiente para que não só a sua vida, mas a do seu marido e do seu bebê acabem. E não é só Niña Fedina que comete esse ato terrível. Cara de Anjo, após se apaixonar por Camila Canales, também resolve contar a um major que existem ordens para matá-lo, esperando uma recompensa divina pelo seu ato. A recompensa não vem e o mesmo major é encarregado de prender Cara de Anjo no final do romance.

A terceira parte de O senhor Presidente, ao contrário das duas anteriores, não aborda um curto período em que muito acontece. Ela se chama “Semanas, meses, anos”. Seu primeiro capítulo retorna a dois personagens que não mencionei ainda, o estudante e o sacristão, presos na mesma cela que os moradores de rua do começo do romance. São dois homens que desafiaram de alguma maneira o poder do ditador e aparecem eventualmente como uma espécie de contraponto a tudo o que vivem os que estão participando da história, esquecidos nos porões do senhor Presidente. No capítulo XXVIII, chamado “Conversas à Sombra”, os dois ganham um companheiro, o advogado Carvajal.

A conclusão do processo de Carvajal e Canales é o primeiro passo para que o romance acabe e para que o trabalho de Cara de Anjo se conclua. Canales está foragido, mas Carvajal é condenado à morte por fuzilamento. Como já foi bem estabelecido, a sua morte aconteceria de modo objetivo, prático, num império perfeito da ordem, não fosse a sua esposa. A esposa de Carvajal é mais uma das mulheres que fazem de tudo para defender a família da destruição imposta pela violência estatal. A esposa do advogado tenta salvar o marido, tenta ter audiências com o próprio Presidente e com representantes do aparato repressivo. Os seus pensamentos também se desconectam em frases não terminadas enquanto tenta interceder, mas é só ela que perde a racionalidade narrativa: a estrutura do poder se mantém impassível e Carvajal é fuzilado.

A personagem volta ainda no capítulo XXXIII, “Pingos nos Is”, em que tenta por semanas encontrar ajuda e também respostas sobre o marido. Mais uma vez quero retomar o poema de Ripoll, pois foi justamente por causa das imagens da esposa de Carvajal buscando qualquer solidariedade em seu luto que as palavras da poetisa rimaram tanto com O senhor Presidente. A maneira pela qual Asturias descreve as perambulações da viúva de Carvajal sem que ninguém sinta a sua tragédia parece, de fato, a mancha inútil de dissonância contra um regime capaz de controlar os sussurros mais secretos das pessoas que vivem sob o terror do senhor Presidente, ainda que ela não sinta essa dor sozinha.

Quando as demais prostitutas descobrem o bebê morto no túmulo de Niña Fedina, elas se emocionam e choram como se também tivessem perdido um filho. A viúva de Carvajal está sozinha em seu mundo, mas nós testemunhamos uma outra viúva que compartilha a dor da perda do marido. Camila Canales troca a vida de seu pai e do marido pela sua e se casa com Cara de Anjo. Sem sequer saber que esse seria o preço pago pelo casamento que a trouxe de volta à vida, Camila passa meses esperando alguma notícia do protagonista. O favorito do presidente, o homem mais bonito que o diabo, desaparece da vida dela, mas não do romance. As ações dele, ao cumprir as ordens exatas que recebeu, finalmente o alcançam e ele é preso em segredo, deixando Camila sozinha com um filho à espera do retorno do marido. Assim como a viúva de Carvajal, ela busca ajuda, procura falar com o senhor Presidente, com oficiais, mas não recebe nenhuma informação sobre o marido. Também sozinha, não há ninguém para sentir a sua tragédia.

O capítulo final de O senhor Presidente é, como não poderia deixar de ser, o fim da vida do protagonista do romance. Na parte 3 do livro, vemos aos poucos o seu destino sendo traçado. Começa com o Presidente o confrontando sobre o casamento em segredo com Camila no capítulo XXXII (homônimo do romance) e se desenrola pelas páginas finais. O protagonista é convidado a servir como diplomata do Presidente em Nova York (convite que, ele sabe, simboliza o seu fim). Depois de ser preso pelo mesmo major que ele salvou da morte em um momento de proibida solidariedade, Cara de Anjo finalmente encontra a sua ruína.

Como escrevi no primeiro parágrafo, ele fica preso no fundo de um poço, sozinho, onde recebe apenas duas horas de luz diária. Nas páginas do capítulo final, vemos apenas resquícios do narrador que, com tanta precisão, nos guiou pela morte do general Rodas, a prisão de Carvajal e a fuga de Canales; que, por tantos anos, foi o favorito do senhor Presidente e agora fica anos nos porões do seu poder. O homem que vemos já não é mais o Cara de Anjo; seus parágrafos que ocupam uma página não lembram em nada o topo do poder ditatorial em O senhor Presidente e não é à toa que, quando morre, ninguém mais sabe o seu nome.

Miguel Ángel Asturias encerra o romance dando apenas duas horas de luz por dia ao seu protagonista, ecoando o esquecimento das e a indiferença profundos do autoritarismo às suas vítimas e talvez à sensação de ser expulso do país. Ainda que nos possibilite alguns relances de solidariedade e otimismo ao longo da história, O senhor Presidente causa mais dor e tristeza, faz-nos sentir o desespero das personagens, a ordem imparável que vem de cima e que rege todos os cantos do país, sem dar qualquer espaço para pensarmos que existe saída do poder do Presidente.

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Assim se fez

“[…] onde o céu só se colore / por cores nunca vistas […]”

(luminiscente)

“Un destello de esperanza” (em espanhol)

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