As ruas sem nome

Chōbunsai Eishi, retrato de Sei Shōnagon em "Brocado de 36 poetas mulheres" (1801)
The Metropolitan Museum of Art, Nova York

Tieko Irii

O amarelo que não é ouro

Mesmo no endereço novo, a lavanderia ocupava quase a casa inteira e as crianças sobravam. Tínhamos pouco espaço para brincar. O quintal era repleto de máquinas e a pequena sala também era abarrotada de roupas e cabides pendurados por todo lado. O espaço não tinha muitos atrativos, além do conjunto de sofá barato de napa vermelha e a máquina de costura de minha mãe, na qual ela fazia pequenos consertos para os clientes, sem cobrar nada por isso. Como sempre, sabíamos improvisar: a escada de madeira do sobrado virou um escorregador, onde descíamos de bunda com um saco de juta ou um pedaço de papelão. A pequena mesa de fórmica da cozinha era nossa mesa de ping-pong. Os clientes nem imaginavam que as caixas d’águas de amianto, que serviam para enxaguar as roupas, eram as piscinas das crianças nos dias quentes de verão. Os amigos gostavam da comida com toque japonês da minha mãe e da informalidade da casa, que não tinha muitas regras de etiqueta para seguir.

Um dia, subitamente, o tempo foi capturado quando o papai comprou a nossa primeira televisão e passamos a ficar o dia todo hipnotizadas pela tela da TV. Quase abandonei a minha vitrola de baquelite vermelha e os disquinhos coloridos de contos de fadas pelos politicamente incorretos desenhos da Hanna Barbera, que nos faziam rir e no fundo sublimavam nossos instintos agressivos. A caixa de madeira mágica era uma espécie de santuário na sala de estar. A noite era um dos poucos momentos em que a família se reunia, sempre em volta da TV, para assistir à novela ou ao Jornal Nacional, em absoluta reverência e silêncio. Era quando minha casa parecia quase normal. Mas nem tudo era um mar de alegria e tranquilidade, a vida escolar tinha seus desafios.

Eu comecei a frequentar a escola pública do bairro somente aos sete anos de idade. Até aquele momento o meu mundo era só a lavanderia, a casa e a chácara dos meus avós. No bairro havia poucas famílias asiáticas e, no primeiro dia da aula, descobri que a grande maioria dos alunos não tinha olhos puxados, eu era uma das poucas amarelas da escola. Esse fato em si não me causou nenhum desconforto, pois já via um Brasil assim na TV, mas isso se tornou um problema que foi evidenciado pelas brincadeiras, vindas de alguns colegas acerca de meu fenótipo e de minhas origens, que eu não achava graça nenhuma. Conforme eu crescia, elas se tornavam cada vez mais elaboradas, agressivas ou mesmo sutis e muito menos engraçadas para mim.

Um dia, estava voltando para casa depois da aula e vi uns garotos da minha turma andando em minha direção. Eles viviam me infernizando. Era a turma do Pelé, apelido comum dos garotos pretos naquela época. Eles eram mais velhos, sarcásticos e violentos, matavam muita aula e não conseguiam avançar nos anos escolares. Em vez de atravessar a rua, eu tentei me desvencilhar da abordagem truculenta, mas eles me encurralaram na garagem de uma casa ao lado da escola e começaram a atirar bombinhas, um tipo de artefato feito com pólvora. O estampido estridente ecoava por entre as paredes. Fiquei petrificada enquanto eles diziam seus costumeiros comentários ofensivos: abre o zóio. É verdade que japonês tem pau pequeno? Você tem a boceta atravessada? Você acredita em Bunda? Buda? Bunda mole! Eu ainda não entendia o significado daquelas palavras e me encolhia atrás da minha pesada mala de couro preta, como um cão com medo de fogos de artifício. Os moleques riam satisfeitos. No narcisismo das pequenas diferenças, eu era inofensiva e eles podiam exercer um certo poder sobre mim. Sublimavam o ressentimento e a raiva do racismo que sofriam, que era muito mais contundente e cruel do que eu sofria. Em pouco tempo eles largariam os estudos. Eu começava a entender a diferença que determinava as relações de poder dos grupos que frequentavam a escola, a turma dos populares, eram intocáveis e nunca sofriam bullying, uma palavra que não existia no nosso vocabulário, mas pessoas como eu e o Pelé sabíamos muito bem o que significava.

Eu fui incapaz de responder àquela violência; não sei por que não tive coragem de contar nem mesmo para os meus pais o que aconteceu comigo. Diferente de minha irmã mais nova, que se orgulhava em bater em todos que provocassem ela e seus amigos, eu mantinha esses eventos em segredo. Sentia vergonha de compartilhar essas experiências dolorosas e jamais fui orientada sobre o que deveria fazer nessas situações. Fingia para mim mesma que nada havia acontecido. Em casa, ninguém nunca nos contou sobre as violências, as perseguições e os apagamentos vividos pela família diante do preconceito racial, que vim saber muito tempo depois através dos meus tios. Como aconteceu comigo, fui percebendo a dificuldade que eles tinham de contar as próprias desventuras da infância e da juventude, antes, durante e após a Segunda Guerra, como se fossem alienados de suas próprias vidas. Demonstrar o sofrimento era um tabu.

Na escola, havia muitas garotas com o nome de Marcia e os professores passaram a me chamar de Tieko, meu nome japonês. Por mais difícil que fosse explicar o meu nome para os outros, me sentia protegida por ele e gostava de ser diferente. Os japoneses acreditavam que escolher um nome e a forma como seria escrito era uma enorme responsabilidade porque poderia influenciar o futuro da criança. Papai escolheu os kanji ti (智), que significa sabedoria; e (恵), abençoada; e ko (子), criança. O meu nome poderia ser escrito com outro kanji de ti (美), que significa beleza, mas ele preferiu que eu fosse sabida, portanto meu nome em japonês se escreve 智恵子, criança abençoada pela sabedoria. Às vezes, era mais sábio usar Marcia, pela ignorância do meu interlocutor ou para aqueles que não se interessavam em saber: já disse que não sou Diego, mas pode me chamar de Marcia – aquela que vem de Marte e que significa guerreira, mas eu me sentia uma ET. Ser diferente não era uma opção. Não conseguia escapar dos apelidos imputados às garotas asiáticas: japinha, japa, china, nissei, nãossei, que mudavam conforme a época. Já fui chamada de Tieta por causa de uma novela, Tieppo por causa de um crime famoso, “pokaroupa” e Mulan por causa da Disney. A linguagem se tornava algo violento ao naturalizar termos como olho puxado, rasgado, bunda achatada ou cara amassada. As máximas: japonês é tudo igual. Fala Xing Ling. Volta pra China, me transformavam em um objeto identitário, sempre vista como uma coisa, nunca como eu mesma. Era uma batalha de que quase sempre saía perdendo. Mesmo que eu expressasse o meu incômodo em relação a essas violências, era muito comum me invalidarem, transformando-as em meras brincadeiras ou em insinuações do tipo: ah, porque você ficou brava, você não é japonesa? Ah! Você é muito sensível. Esses tipos de comentários não me permitiam compreender e nomear corretamente as difíceis situações pelos quais eu passei:  o racismo recreativo, que através do humor e de piadas mantinham a imagem positiva e de superioridade de seus autores. É só uma piada.

Eu sempre fiquei intrigada com o significado do meu sobrenome: Irii. Era um nome raro mesmo entre os japoneses. Iri (入) significa entrar, i (井) é bem ou comunidade e, também, faz parte da palavra poço, que significa a entrada de um bem. Entrar no poço era como eu explicava a forma como se escrevia Irii em japonês. No Japão a maioria das pessoas comuns, como lavradores ou pescadores, não tinham sobrenome. No período Meiji, com a crescente modernização do país, houve a criação da Lei do Registro Civil. Pela primeira vez, todos os indivíduos foram obrigados a se cadastrar e a adotar um nome para a família. Como as pessoas podiam escolher, adotavam nomes de figuras importantes ou criavam a partir da localidade onde viviam ou associando a algum elemento da natureza. Nakanishi, o sobrenome da família de minha mãe, é escrito com naka (中), que significa dentro, e nishi (西), oeste.

Eu tentava entender a razão pela qual os meus antepassados adotaram o nome Irii. Será que eles moravam perto de um poço? Será que era um poço natural? Um lugar sagrado? Ou será que a única coisa que possuíam era um poço? Algo essencial para sua sobrevivência ou algo que somente eles tinham? Será que eles eram especializados em poços? Por que eles entravam no poço? O que isso poderia determinar em minha vida?

Entrar em um poço frio e escuro não parece uma coisa muito prazerosa, mas muitas vezes me sentia dentro dele. No entanto, poderia ser mais acolhedor se imaginar flutuando nessa água pura, como um líquido amniótico, que alimenta e protege o bebê sonhando com a vida lá fora. E se resolvesse cavar ainda mais o poço, tão fundo, tão fundo que chegasse do outro lado do mundo, no Japão, será que eu encontraria a resposta?

Eu era uma “japa” acidental perdida, tentando me achar. Naquela época, a imagem da mulher brasileira era traduzida na pele de Sônia Braga, com sua sensualidade e alegria. Eu queria ser a Gabriela. Por causa dela, subi a bainha da saia do uniforme e fui para escola, ouvi coisas de que não gostei e resolvi desfazer a bainha no mesmo dia, quando voltei para casa. Não era fácil ser brasileira.

Por outro lado, não tinha muitas referências da cultura japonesa, exceto os programas Japan Pop Show e Imagens do Japão a que assistia na Tupi e na TV Gazeta aos domingos com a família. Eu tinha um sentimento ambíguo, pois também não sabia o que era “ser japonesa”, além dos estereótipos que me impunham: ser inteligente, boa em matemática, cdf, bem-comportada, delicada, quieta, obediente e submissa. Em um processo de negação, fiz um esforço enorme para me afastar do modelo feminino asiático, pelos quais era vista e determinada, um caminho solitário, sem estrelas para me guiar.

Eu queria reivindicar meu direito de nascença. Foi através da antena da TV, das novelas Gabriela a Dancing Days, dos programas de auditório do Chacrinha e do Silvio Santos e especiais como o Brasil Pandeiro que formei meu repertório cultural e minha identidade brasileira. Uma invisibilidade tal qual a que Chico Buarque apresenta na música: Bye bye Brasil. A última ficha caiu. Eu penso em vocês night’n day. Explica que tá tudo ok. Eu só ando dentro da lei. Eu quero voltar, podes crer. Eu vi um Brasil na TV. Peguei uma doença em Belém. Agora já tá tudo bem. Mas a ligação tá no fim. Tem um japonês trás de mim.

Compartilhe:

Carta

“Foi ali que meu senso de rigidez começou a se avolumar” (De amor e outros ódios; Patuá, 2023)

Translate